Reforma educacional
Uma análise sobre as falhas do sistema educacional, e sugestões para um processo de aprendizagem mais humanizado e menos robótico.
Após algumas conversas com um grande amigo, tenho pensado sobre o falido sistema educacional brasileiro.
O primeiro problema grave que enfrentamos nas escolas brasileiras é que nós não privilegiamos os diversos tipos de inteligência. As pessoas podem ter habilidade em música, artes plásticas, teatro, esporte. Como está, o sistema enaltece a inteligência lógico-matemática e linguística. O resultado é que as crianças dotadas de outras inteligências se sentem insatisfeitas com o ensino, e “burras” por não conseguirem expor o que sabem fazer de melhor.


O psicólogo Howard Gardner destacou sete tipos de inteligência: Linguística; Musical; Lógico-matemática; Espacial; Corporal-cinestésica; Interpessoal; Intrapessoal; Naturalista.
Como mencionado anteriormente, as inteligências lógico-matemática e linguística são as únicas amplamente abarcadas pelas disciplinas lecionadas nas escolas brasileiras. Em alguns países, por exemplo os EUA, têm o ensino mais focado de acordo com a vocação do aluno. Lá existe espaço para a criança que tem talento esportivo desenvolver suas habilidades. Seu melhor desempenho nas Olimpíadas é prova do investimento na inteligência chamada corporal-cinestésica.
Nosso ensino de música não é visto como sério. Ora, diversos estudos da neurociência evidenciam as influências positivas da música na mente humana. Inclusive, as crianças que aprendem música podem aumentar em até 10% seu QI. E nós insistimos na completa ignorância musical.
Navegando na internet, não raras vezas você deve ter se deparado com uma criança asiática com extrema proficiência em música, executando melodias e harmonias em nível profissional. Mas alguém já parou para se perguntar por que o mesmo não ocorre com as crianças brasileiras?
Os brasileiros são menos talentosos? A resposta é não!
Definitivamente nós não somos menos talentosos. O problema é que essa criança que nasce aqui com inteligência musical não encontra um ambiente fomentador para desenvolver seu talento.
Fora isso, nossa cultura menospreza a inteligência da criança. Normalmente as crianças recebem péssima influência musical dos pais. Tendem a conhecer apenas músicas que não engrandecem ou acrescentam. Enquanto isso, os pequenos japoneses escutam Beethoven e Bach.
Não poderia deixar de falar na inteligência emocional, um assunto ignorado por aqueles que elaboram os planos de ensino.
Desde cedo, a escola nos ensina a valorizar apenas os conhecimentos gerais, como história e geografia, ou então a inteligência lógico-matemática, deixando as emoções de lado, afirma João Marcelo Furlan, CEO da EnoraLeaders.
Excluído das salas de aula, o tema acaba cercado de dúvidas e mal-entendidos, o que cria uma lacuna importante no futuro profissional dos alunos.
O maior problema, segundo Furlan, é que a maioria das pessoas ignora o valor do QE (Quociente Emocional) e ainda enxerga o famoso QI como o principal ingrediente para o sucesso.
Essa percepção é contrariada por pesquisas sobre o assunto. Um levantamento da consultoria TalentSmart, por exemplo, mostrou que 90% dos profissionais com alto desempenho têm uma boa gestão de suas emoções. Entre aqueles que têm baixa performance, apenas 20% têm uma nota alta em QE. (Exame.com)
Carecemos urgentemente também de educação em direito. Em um Estado Democrático de Direito, é fundamental que as pessoas saibam pelo menos o mínimo sobre o panorama jurídico nacional.
Não doutrinar o cidadão juridicamente é uma forma de marginalizá-lo.
Muito me anima saber que já existem projetos de lei para que o direito constitucional seja ensinado nas escolas. Mais ainda, me inspira saber que a Defensoria Pública já tem levado o ensino jurídico aos estudantes de baixa renda das escolas públicas brasileiras por meio dos projetos Defensoria nas Escolas e Poder Judiciário na Escola.




Por fim, passando para aquilo que considero o segundo problema, que é o que mais o que mais me incomoda no modo como a escola existe hoje no Brasil e em outros países do mundo, a forma como a sala de aula é organizada. É uma forma opressora. Todos observam um professor falar de cima de um tablado — que é uma forma de exteriorizar a opressão — e o professor tem a palavra e “vomita conhecimento” para os alunos.




Há outras formas de organização, por exemplo, em círculo. De certo daria a ideia de participação e de que o saber é para se construir conjuntamente. Penso que é importante o aluno ter voz, falar em público, aprender a expor seu ponto de vista, seus sentimentos etc.
No mesmo sentido, estudos indicam que quando o aluno participa fazendo perguntas e/ou emitindo opinião, ele pode aprender até 50%* mais.
* se é que o conhecimento pode ser medido desta maneira, mas tudo bem.
Enfim, é um longo assunto. Algumas coisas já estão sendo feitas e outras carecem de pessoas dispostas a arregaçar as mangas e trabalhar. Eu torço por uma revolução, mas, sobretudo, para que as pessoas questionem.
Nós seres humanos — diferentemente dos animais — temos a capacidade de repensar a forma como vivemos. Basta olhar como a sociedade se organizava séculos atrás. Basta percebermos que há não muito tempo um negro e um branco não podiam andar na mesma calçada ou ocupar a mesma seção no ônibus. Um dia alguém acreditou que era possível mudar.


Enquanto nossa escola não incluir as pessoas de acordo com a inteligência que elas têm, enquanto não proporcionarmos um ambiente fomentador e propulsor dos diversos tipos de talentos, continuaremos a marginalizar crianças e adolescentes, e a acreditar que a solução está em reduzir a idade penal.
Espero ser um dos que julgam possível mudar as mazelas dessa sociedade e deixar um planeta um tanto melhor para quem vier depois de mim. Espero nunca me conformar com o status quo.




Um obrigado ao Guilherme Pandini pela escolha das imagens.
Mateus Costa.



