Entrevista — Victor Whipstriker

Um verdadeiro mito do underground fluminense, Victor Whipstriker é um maníaco por fazer som. Em toda sua vida, já deve ter formado aí umas vinte bandas, sempre com total compromisso com a música pesada. Um dos fundadores do FARSCAPE, tradicional banda do Rio, recentemente formou o VIRGIN’S VOMIT, isso sem falar nos trampos com sua banda solo, outra porrada de bandas e os shows ao vivo com APOKALYPTIC RAIDS, POWER FROM HELL e a gringa TOXIC HOLOCAUST. Fez umas turnês na Europa, tocou com bandas grandes e nada disso tirou sua postura underground: sempre na batalha contra o estrelismo, o fundamentalismo religioso e o fascismo!*

Hail Victor! Alguma consideração antes de começar?

Sem considerações. Apenas gostaria de agradecer pelo espaço e dizer que apoio totalmente as iniciativas de divulgação da música underground. Zines impressos e virtuais são sempre bem-vindos. Aproveitando a oportunidade, digo que estou cagando dez quilos pras revistas de grande porte que vivem à custa de anúncios de bandas prostituídas que querem aparecer a qualquer custo. Se você paga pra sair numa revista é porque ninguém quer te ver. Se quisessem te ver, você seria convidado. Também gostaria de enviar o meu foda-se pros blogueiros políticos que resenham bandas de amigos e dão nota 10 pra tudo. Mando ainda um outro foda-se pras bandas que pagam pra abrir shows internacionais. Parando por aqui, termino xingando todas as bandas de white metal. Metal é contra religião. Quem discorda e apoia white metal faz parte de uma cena que nada tem a ver com o underground. Não posso esquecer também de xingar aqueles com ideologias fascistas dentro e fora do metal. Pronto! Essas são algumas considerações.

Você é parte do Farscape desde 1998. No meio underground, sabe-se que participou/participa de diversas bandas depois. Antes disso, você teve algum outro projeto musical?

Não. O Farscape foi nossa primeira banda. Montamos quando ainda éramos bem jovens. Nossa média de idade era de 12–13 anos. Depois disso vieram vários projetos. No início, Farscape fazia covers de bandas como Motorhead, Venom, Misfits e outras.

Quando e como houve a ideia de começar a fazer composições próprias?

Isso é o processo natural que acontece com qualquer banda. No início não tocávamos nem covers. A gente se reunia e cada um fazia um barulho aleatório e sem sentido algum. Depois de uns seis meses que conseguimos tocar nosso primeiro som em conjunto. Lembro que foi a faixa “Last Caress” do Misfits. Uma música muito fácil, diga-se de passagem. Já em 1999 começamos a fazer nossos próprios sons. No início queríamos fazer algo mais Heavy Metal, mas logo vimos que nossa praia era o Thrash/Death.

Alguns anos depois, você formou o Diabolic Force, com seu já parceiro de banda Victor PoisonHell e o batera BestialKiller.Conte como surgiu a ideia de formar uma banda paralela ao Farscape. Chegou a haver algum projeto paralelo antes disso?

Formamos o Diabolic Force em 2001 após um show do Farscape. Esse baterista era nosso amigo e deu a ideia pra montarmos algo juntos. Eu e Victor aceitamos e já começamos a compor. Foi meu primeiro LP lançado, o “Old School Attack”. Logo em 2004 o Batera saiu da banda porque descobrimos que ele era um verdadeiro desgraçado, mentiroso e ladrão. Paramos de tocar e voltamos em 2008 com o nosso amigo Adelson na bateria. Gravamos mais um LP, paramos e voltamos agora em 2014 pra retomar as atividades. O batera novo é o Marcos da banda Cold Blood.

Dois anos após fundar o Diabolic Force, você fez parte da fundação do Atomic Roar, já com uma dosagem generosa de Punk Rock no som. Como foi a resposta do público na época? Você já tinha ideia de fazer um som em que essa influência ficasse bastante clara?

Na época que montamos o Atomic Roar estávamos viciados nessa sonoridade mais Metalpunk. Na época ainda não tinha muitas bandas fazendo esse tipo de som, acho que só o Blizzard da Alemanha, o Inepsy do Canadá e o Toxic Holocaust dos EUA. A gente estava louco nos discos do Warfare e decidiu tentar fazer algo nessa linha. Não me lembro como foi a receptividade. Não tinha cena Metalpunk. A gente fez dois shows para um público totalmente metal. Acho que curtiram pois logo recebemos convite pra lançar um álbum em CD e LP nos EUA. Depois lançamos mais um álbum por uma gravadora da Escócia e agora estamos lançando alguns compactos antes de gravar o álbum novo.

Foto: Divulgação

Conte-nos sobre suas passagens por outros países: histórias curiosas, receptividade do público, reconhecimento.

Tocamos em dez países da Europa e também na Argentina. São muitas histórias. Acho melhor sentarmos para beber umas cervejas. Não dá pra sair lembrando de histórias do nada.

Você tocou no DVD “Brazilian Slaughter”, do Toxic Holocaust. O que achou dessa experiência e como rolou o convite?

Foi uma experiência muito legal. Eu já trocava correspondência e material com o Joel Grind desde 2002. Aí quando ele veio ao Brasil, me chamou pra tocar os shows. Toquei três shows no total. Agora ele tá voltando com banda fixa. Toxic Holocaust é um exemplo de trabalho e dedicação sem prostituição. Valorizo muito a banda.

Além do TH, você tocou ao vivo com outras bandas, como Power From Hell e Apokalyptic Raids. Conte-nos como surgiram as ideias de tocar em ambas, como foram os shows (receptividade do público etc) e algum caso curioso da estrada.

Sou amigo dos caras de ambas as bandas. No caso do Apokalyptic Raids, somos amigos de longa data e, sempre que puder ajudar tapando buraco, eu o farei. Total parceria! No caso do Power from Hell, comecei a ser mais amigo do Aron Sodomic quando decidimos lançar um split juntos. Saiu o material em CD, LP e Tape. A partir dali, firmamos uma amizade e ele me chamou pra fazer os baixos quando o Power tocar ao vivo. Já tocamos dois shows na Colômbia e um em São Paulo. Também toquei guitarra pro Warhammer da Alemanha. Fizemos um mini-tour com 7 shows pelo Brasil. Sou fã da banda e foi um grande prazer. Sem esquecer, também cheguei a fazer um show no baixo pro Besthoven, grande banda de Crust do Distrito Federal. Sou fã de todas essas bandas que toquei.

Sua banda solo, Whipstriker, já lançou muitos materiais. Dentre demos, splits e EPs, há os álbuns “Crude Rock N’ Roll” e “Troopers of Mayhem”. O primeiro, como o nome sugere, apresenta um som muito influenciado por Motorhead, aquele som cru com grandes pitadas de Rock N’ Roll, Punk e NWOBHM. No segundo, há uma tendência maior ao Speed e Black Metal old school, D-Beat. A intenção foi essa mudança na sonoridade ou você compôs sem se preocupar em como soaria?

Eu não me preocupo. A vibe do Whipstriker é justamente não ficar preso a um único estilo. Eu gosto de muita coisa diferente nesse poço entre 1965-Hoje. Do Rock n´Roll ao Black Metal, passando pelo crust punk, tem muita coisa de alto nível. Então eu vou simplesmente compondo. E as composições acabam refletindo o que eu estou ouvindo mais no momento e pegando como influência.

Você foi citado por Fenriz, do Darkthrone, em agradecimentos no excelente “Dark Thrones and Black Flags”, além de outras ocasiões, pelo seu trabalho solo e com Farscape principalmente. Você teve contato com ele? Sabe como ele teve conhecimento de seu trabalho?

Sim, tenho contato com Fenriz através de e-mails. Mas nunca uso isso para me promover. Conversamos coisas triviais como sonoridades de bateria ou indicação de alguma banda nova. Acho que ele conheceu o Farscape lá por 2007. Eu mandei uma mensagem pra ele e ele respondeu comentando o som. De lá pra cá mantivemos contato. Total respeito ao Fenriz e ao Dark Throne. Acho que é a única banda além dos Beatles que mudou o som radicalmente e continuou excelente.

Foto: Divulgação

Você tem feito um trabalho muito interessante em relação a divulgação e incentivo com a galera mais nova. Eu particularmente acho que os garotos são quem fazem a “cena”, mas muita gente é contra. Qual o recado a dar sobre isso?

Eu sou totalmente a favor da renovação da cena. Todo mundo já foi moleque e precisou de um incentivo pra ouvir som. Todo mundo teve um primo, um irmão ou um amigo pra mostrar som. Ninguém começou ouvindo Sarcófago. Todo mundo começa com o Iron Maiden e Metallica. Então acho muito válido mostrar som underground pra molecada nova sacar como funciona o mundo underground, que é completamente diferente do mainstream do Iron Maiden. Os velhos que reclamam normalmente nem saem de casa. É a molecada que vai pra frente do palco bater cabeça insanamente. O Metal tem que ser moleque! Repare que quando as bandas “evoluem”, elas viram um lixo comercial. Eu sempre vou preferir os discos mais toscos, da época em que os músicos eram moleques sem preocupação. “IN THE SIGN OF EVIL”, “SEVEN CHURCHES”, “ENDLESS PAIN”, “SENTENCE OF DEATH”, “MORBID VISIONS”, “INRI”. Esses são alguns exemplos de discos feitos por garotos novos com atitude.

Obrigado pela participação. Alguma consideração final?

Não! Já mandei um foda-se generalizado na primeira pergunta. Te agradeço pela entrevista.Abraços!

whipstriker.bandcamp.com

Facebook: Whipstriker

*Entrevista realizada em março de 2015

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