Transe na igreja — Minha experiência em um retiro neopentecostal

Parte I — O convite

É setembro de 2011. Estou no último ano do ensino médio e trabalho em uma empresa de cursos profissionalizantes, que emprega adolescentes como eu para convencer pessoas a fechar contratos. Meu chefe, além de dono da escola de cursos, é pastor neopentecostal. Como ele costuma pagar as passagens de ônibus em dinheiro, passei a aceitar caronas algumas vezes por semana para economizar um pouco. O problema é que, para isso, tenho de ir à igreja com ele (ela fica a caminho de minha casa e ele só faz essa rota quando vai ministrar seus cultos). Já não tenho fé, mas faço o trajeto para não precisar gastar com o ônibus e ter dinheiro para comer mais salgados durante os intervalos de trabalho. Em uma dessas idas, sou agressivamente convidado a ir a uma chácara em um rolê da igreja, chamado “Revisão de Vidas”. Depois de muita insistência e argumentos de que haverá comida boa, contato com a natureza e talvez até um futebolzinho, acabo topando para ver no que vai dar.

Parte II — O rolê

O cunhado de meu chefe vem em casa para me buscar. Está de moto, vamos à igreja para pegar o ônibus de viagem, que nos levará à chácara onde ocorrerá o compromisso. Chego à igreja, encontro vários colegas de trabalho. É como se a empresa fosse um campo de recrutamento. Aqui há dois ônibus para nos levar. As pessoas estão empolgadas. Fico pensando na comida e, como obviamente não haverá cerveja, no refrigerante. No caminho, falamos sobre o trabalho, quem bateu metas e quem não bateu, qual das três equipes em que somos divididos está indo melhor e por aí vai. Após cerca de uma hora, chegamos à chácara, que fica no fim da cidade. No local, pedem os aparelhos eletrônicos de todos sob o argumento de que “aqui é um encontro com Jesus”. E eu que não queria encontro algum com Jesus, descubro que estou em um e que o cara é exigente: nada de celulares. É justo, acho que deveria ser norma em encontros. Nada pior do que flertar com quem dá mais atenção ao celular. Boa, Jesus!

O alojamento tem uma varanda bastante grande, em cujo centro há uma mesa também grande, e à direita há alguns corredores que desembocam em quartos e em um salão. Somos levados aos quartos, divididos entre homens e mulheres, ou garotos e garotas. Lá, deixo minha mochila e noto que há uma Bíblia em cima do beliche. Volto à varanda, mas não há nada nela. Um presente questiona: “irmão, ali ele já vai começar mesmo ou é só uma palavra?” e, como não entendo a premissa da pergunta, respondo meio confuso: “ah, acho que é só uma palavra mesmo, hein”. Após o “obrigado, então acho que vou tomar um banho antes”, penso no que ele queria dizer com a pergunta e o que interpretou com minha resposta. De qualquer modo, tenho de ir ao salão.

Estou no salão, que é bastante grande e tem a estrutura de uma igreja, e noto que talvez seja o único sem uma Bíblia. Alguém me diz que posso pegar uma emprestada atrás dos bancos. Uma pastora está no púlpito falando sobre como todos sentirão suas vidas mudadas após aquele encontro, sobre quantas vidas inclusive já mudaram e sobre como Jesus “é tremendo”. Ela pergunta: “posso ouvir um amém, igreja?”; a plateia responde com um estrondoso “amém”. Noto que se trata de um encontro entre todas as sedes da mesma igreja, Sara Nossa Terra, na cidade. A igreja tem um apelo “descolado” — meu patrão, por exemplo, tem cabelos arrepiados e abusa das gírias — e costuma pescar adolescentes e adultos jovens sob o argumento de que “Jesus aceita a todos como são, não precisa mudar tua roupa, teu cabelo ou teu jeito de ser”, o que não é muito realizado na prática: entre os hábitos “tolerantes” está a demonização de música não-religiosa, chamada de “música mundana”, além da supressão de vários aspectos de individualidade, muito possivelmente já conhecidos pelos leitores desta reportagem.

Após o sermão inicial, é hora da janta: arroz carreteiro e salada, além de vários tipos de refrigerante. Eu como e continuo tomando Coca-Cola e guaraná, enquanto presto atenção nas pessoas. Há os jovens já mencionados, mas também senhorinhas e senhorezinhos, sorridentes, provavelmente com a esperança de “mudança de vida” prometida. Uma senhora começa a conversar comigo e explica que a igreja fez com que seu filho fosse liberto das drogas. “Jesus é bom, você tá no caminho certo”, diz. Um senhor aproxima-se e também começa a contar sua história. Diz que era viciado em jogo, bebida, prostituição, “tudo de ruim”, como define. “O diabo gosta de fazer a gente pensar que é livre, mas, na verdade, ele prende a gente. A vida aí no mundão é uma prisão. O cara acha que pode tudo, mas quem pode tudo é Deus”.

As falas da noite não terminaram. Somos todos levados ao salão novamente, onde um pastor gordo e de bigode grosso discursa. Ele se apresenta, aponta seu filho dizendo que “o guri já está no caminho desde cedo” e, quando olho, vejo que se trata de um rapaz que usa cabelos compridos, amarrados em rabo de cavalo, e brincos nas orelhas. Ele coordena os jovens em sua filial da igreja e, nesta noite, ajuda a coordenar o evento. Os outros jovens aqui também têm visual descolado: meninas com cabelos pintados de vermelho e azul, garotos com brincos, alargadores, calças largas típicas de skatistas, bonés. O bigodudo dá lugar a um cabeludo, que dá lugar à esposa de meu chefe, que dá lugar a meu chefe. As falas são breves, é uma apresentação.

Ao final, no centro da varanda onde comemos, havia bolo. Como, tomo refrigerante e vejo os sinais para que nos desloquemos aos quartos. Noto um rapaz sentado na mureta da varanda, com aspecto frustrado, cabelos castanhos quase ruivos e quase compridos, com franja e cobrindo as orelhas. Acho que alguém está tão deslocado aqui quanto eu. Vou até ele e pergunto se está desanimado. Ele diz que sim, explica que está no início de uma empresa para gamers e que não liga para religião, mas aceitou o convite para o retiro. “Sei lá, todo mundo fala que sentiu algo diferente, até agora não senti nada… vamos ver até o final, se acontece algo”. Provavelmente procurava sentir algo, diferente de mim. Ao contrário de mim, ele está frustrado por não conseguir preencher um vazio espiritual, por buscar algo e não encontrar. Minha frustração é outra: achei que seria um rolê divertido e está entediante.

Parte III — Era mesmo cilada

Somos chamados pelo rapaz de cabelo compridos, filho do bigodudo: “vamos, varões”. Fico pensando nos termos usados por esse pessoal. São várias gírias próprias, eles têm uma espécie de sotaque deles, possivelmente uma forma de reconhecerem um ao outro, um código. Como terminei recentemente de ler ‘1984’, é impossível não me lembrar de Orwell e da novilíngua. Do mesmo modo, impossível que não me lembre do duplipensamento, quando paro para analisar que eles se consideram “livres”, mesmo que vivam presos a regras e exigências acima do que permitem os instintos humanos.

A euforia e o entusiasmo exorbitantes dos jovens parecem ser mesmo desejo sexual que azedou, como aponta Orwell sobre o ardor dos militantes do IngSoc. Enfim, lá vamos nós ao quarto. Eu me deito sobre o beliche onde deixei minha mochila e tento dormir enquanto folheio a Bíblia que deixaram sobre ele. Escuto a molecada dizendo: “nós fundamos uma seita, e o nome da nossa seita é bu-seita”. Penso: “achei que essa juventude crente tinha medo do inferno”, enquanto ouço que “o primeiro mandamento é que toda perereca é igual perante o bilau”, “silêncio, igreja, segundo mandamento: façam o bem, uma mamada e um copo d’água não se nega a ninguém”. Um deles protesta: “Mister Catra uma hora dessas?”, enquanto começo a cair no sono.

Acordo com o rapaz cabeludo dizendo: “vamos levantar, varões!” enquanto penso que, se estivesse em casa, dormiria por mais algumas horas. Somos direcionados novamente ao salão, onde o pastor de cabelos compridos (que não é o filho do bigodudo, mas um homem mais velho) de fala mansa começa a contar causos. Diz que, quando acorda, tudo faz “croque” e que, por isso, ele não está ficando velho, mas sim “crocante”. Diz também que a mensagem de Deus é para todos, que Jesus aceita todos e toda essa mesma conversa. Depois, vem uma mulher que diz ser coordenadora “das princesas”. Ela diz que “hoje, a moda é ficar. Mas princesas não ficam, elas têm de se preparar para encontrar seus príncipes apontados por Deus”. Após um almoço, voltamos ao salão, onde o pastor do bigode fala sobre como “o mundo está cheio de porcaria”. Depois, pede para passarem uma caneta e um caderno, de um em um, aos presentes, para que estes escrevam um vício que possuam e nomes de pessoas com quem já tiveram “relações promíscuas”, e para que guardem o pedaço do papel em que tenham escrito. Vem outro pastor, que entre outras coisas manda todos esticarem os dois braços, por trinta segundos, para que “sintam o que Jesus sentiu”. Foi o exercício de alongamento mais longo pelo qual passei.

Depois das falas, vamos à parte externa da chácara, onde há uma fogueira. As pessoas jogam nela pedaços de papel: são os nomes que escreveram dentro do salão, a pedido do bigodudo. Depois de jogarem, gritam: “meu nome é fulano, e eu estou livre!” e todos aplaudem. Minha colega de serviço que está a meu lado questiona: “não escreveu nada, Norberto?” e respondo que não tenho vícios. Analiso e tento imaginar o que a fogueira tem a ver com a Bíblia, acho que está mais para o paganismo celta. Desconheço a prática de queimar símbolos (como, no caso, palavras escritas) como algo que tenha poder na liturgia cristã. Associo tal prática àquela de colocar nomes na boca de um sapo, recorrente em rituais do que se chama, convencionalmente, de “magia negra” (um termo racista). Após o ritual, jantamos. Sento-me com meu chefe, sua irmã e seu cunhado. Conversamos sobre a empresa, ouço piadas do patrão sobre os colegas. Após a janta, voltamos aos quartos.

Parte IV — Jesus cura

Acordo com o mesmo rapaz que me acordou na manhã anterior. Agora, no salão, uma mulher explica que “a ciência diz que viemos do macaco” e aconselha: “olhem para vocês, irmãos. Acham que se assemelham a um macaco?” O rapaz com quem conversei durante a primeira noite estava a meu lado e respondeu: “sim”.

A esposa de meu chefe sobe depois e conta sua história: “estava no Rio de Janeiro, pensando em sair da casa de meus pais, e abri a Bíblia. Estava dizendo para que largasse minha parentela”. Diz como conheceu o chefe e como começaram a namorar. Depois, ele também sobe e conta basicamente as mesmas coisas, com destaque para sua interpretação de que Jesus é um distribuidor de carros: “eu tinha um Chevette que não abria uma porta, tinha que empurrar toda vez que ia andar; Jesus foi dando cada vez um carro melhor, até eu ter o que tenho hoje”. Não sou bom em lembrar nomes de carros, não sei dizer qual o dele. Mas sei que não é popular.

Outro casal que sobe ao púlpito são a secretária da empresa e seu marido, um dos caras mais fanáticos que já conheci. Em seu “testemunho”, ela afirma que ele era “completamente ateu” e que se tornou religioso depois de ela “orar muito e pedir a Jesus todos os dias” por isso.

Em seguida é a vez do marido dela, que gosta de falar de política. Diz que tem gente no Congresso querendo acabar com o conceito de ‘família’ e por aí vai. E olha que em 2011 a bancada evangélica ainda nem assusta tanto quanto viria a fazê-lo. “Já imaginaram um presidente que suba a rampa e diga ‘paz do senhor’? É um sonho que tenho, e tenho certeza que um dia ele se realizará! Sei que um dia, ainda teremos um presidente evangélico”.

Em determinado momento, após almoçarmos, o rapaz cabeludo sai recrutando os jovens do sexo masculino. Vamos a um ponto da chácara onde sentamos todos em roda. Ele conta sua história e cada um vai contando a sua. Há histórias de abandonos, drogas, crimes. Questiono em minha mente: “qual o limite entre o trabalho social na recuperação destas pessoas e a imersão das mesmas em um outro vício?”, “uma pessoa com este tipo de biografia é uma presa mais fácil?”, até chegar minha hora de falar. Digo meu nome, que gosto de desenhar e que estou no retiro por convite. E só.

Parte V — Transe!

Após uma refeição incluindo bombons, voltamos ao salão. Lá está o pastor bigodudo. Desconfio que ele seja o grande mandachuva. Começa falando sobre os jovens, como quase todos; aos poucos, vai soltando aleatoriamente algumas palavras incompreensíveis, aquelas típicas de pentecostais. Diz que foi “macumbeiro” e “bruxo”, que chegou ao grau 32 do que chama de “magia negra”. “O mundo é lotado de demônio, tem guerra o tempo todo. Eu tenho o dom, consigo ver. Agora mesmo, vejo vários anjos aqui. Os demônios tentam-se aproximar, mas não conseguem. O Espírito Santo aqui é forte”. As pessoas olham com atenção, assustadas. Ele continua: “fui um dos piores, era traficante. Tudo o que não presta, que vocês imaginem, eu mexia. E era envolvido com gente poderosa. Esse pessoal da política, da tevê, quase todos são envolvidos com tráfico, com bruxaria, com macumba”.

A coisa começa a ficar feia, mesmo, quando ele diz que está sentindo o Espírito Santo manifestando-se e convida a um “batismo de fogo”: “aqui, nós vamos batizar todos com o espírito! É batismo de fogo, irmãos! Podem-se entregar ao Espírito Santo! Façam o que quiserem fazer, mas fechem os olhos!” Naquele momento, muitos começam a gritar “aleluia” e, outros, a dizer palavras incompreensíveis, das quais as sílabas favoritas são “sha”, “la”, “ra” e ba”. Os outros pastores vão até as pessoas e incitam que entrem no transe coletivo. Percebo porque abro disfarçadamente os olhos, que estavam fechados a pedido do pastor. Começo a pensar em como é ruim não poder ter celular, pois queria filmar isto. No entanto, compreendo que é justamente por tal motivo que eles proíbem aparelhos eletrônicos. Fecho novamente os olhos. Ouço muitos gritos, só penso em sair dali. O bigodudo grita que está vendo anjos batalhando com demônios. Penso que o cara joga muito RPG. Alguém me toca os ombros. É meu chefe. Ele põe as mãos sobre minha cabeça e começa a gritar: “materialize-se, espírito! Materialize-se! Materialize-se!”. O bigodudo chega para dar reforço, gritando palavras incompreensíveis. Eu só penso: “não vou ceder, não vou ceder, não vou ceder”.

Depois de aproximados três minutos (muito tempo, dado o que estavam fazendo), os pastores desistem de me colocar na dança. Abro os olhos e o chefe pergunta: “Está sentindo alguma coisa?”. “Não”, respondo. Olho para os lados e a cena é hollywoodiana: todos os fiéis estão caídos. Sou o único de pé, à exceção dos pastores. O garoto que conheci na mureta também está caído. As pessoas parecem desmaiadas, seus olhos estão fechados. Penso no que pode ser. Transe hipnótico? Placebo? Alguma substância tóxica usada sutilmente pelos pastores nas pessoas? É realmente assustador. E não posso fazer nada. Não tenho como filmar. Ninguém fora da bolha deles viu, é oculto. É a verdadeira igreja invisível de que Raul e Marcelo Nova falaram. Tudo o que quero é ir embora. Além de assustado e indignado, também estou constrangido, afinal, não é fácil ser o único de pé quando todos estão caídos no chão como desmaiados, ou se debatendo.

Aos poucos, as pessoas em transe começam a se recuperar. O garoto da mureta é um dos que mais demoram para voltar ao normal. O bigodudo declara: “vem ajudar, pessoal, que isso aqui não é Espírito Santo, não”. Penso comigo mesmo que a tradução para tal frase é: “passou do resultado desejado, venham aqui pra me ajudar, porque a coisa pode ficar feia pro nosso lado”. Após algumas chacoalhadas, o garoto acorda. E eu só penso em ir embora. Ainda há uma apresentação musical dos jovens, uma confraternização parecida com a de fim de ano em que todos se abraçam e, finalmente, saímos e vemos os ônibus. Saio insatisfeito por ter sido enganado sobre o que era o tal rolê, mas satisfeito por me livrar — e poder contar — da experiência mais macabra de minha vida.