“Vai ficar pra trás!” ou como tratar a vida como uma corrida de cem metros

Sempre achei assustadora a naturalização da competição como principal fator de socialização desde a infância. Isso inclui preparar para o mercado de trabalho a partir de um ano de idade, para ser o melhor e mais bem sucedido. Criar crianças para o empreendedorismo e saber aproveitar oportunidades de negócio desde cedo é algo assombroso, mesmo que ninguém perceba isso. Este é um mundo em que olhamos uns aos outros como se fossem cifrões, não como possíveis parceiros de jornada. E criamos crianças inseguras, que têm medo de serem enganadas ou usadas pelos colegas, “porque o mundo é uma selva”.

Macanudo, por Liniers

É isso o que faz parecer tão natural as pessoas dizerem todos os dias para pais de bebês que eles vão ficar pra trás (e toda a falácia da meritocracia que se sucede a isso). Um bebê de um ano e meio que ainda não entrou na creche é algo absolutamente temeroso, porque “vai ficar pra trás”. E a frase é dita assim, sem contextualizar e nem explicar o que isso significa. Quer dizer que as crianças na escola estão conquistando um tipo de conhecimento valiosíssimo e secreto que outras crianças nunca vão conseguir adquirir a tempo de competir pau a pau com elas. E as crianças que estão em escolas mais caras, adquirem um conhecimento ainda mais secreto que as outras todas.

Além da creche, tem a aula de psicomotricidade, musicalização infantil, natação e mais um sem número de cursos focados na primeira infância. Não que seja ruim estudar música, nadar ou fazer atividades lúdicas com outras crianças, o problema é transformar isso num programa de treinamento para o sucesso para pessoas que nem sabem que são pessoas, que precisam construir suas identidades e aprender a se relacionar de um jeito saudável consigo mesmas e com os outros.

Adquirir habilidades técnicas, como aprender nomes das capitais, números até cem, ou coisa do tipo, pode parecer bonitinho, mas muitas vezes são apenas decorebas inúteis. Para que saber a capital do Amazonas, se a criança nem sabe entender que sua casa fica num bairro, que fica numa cidade? Para que saber a sequência de cem números, se ainda não entende que tem dez dedos, ou dois olhos? Pode ser fofo nas festas de família, mas para que serve isso?

E desconsideramos o básico: a criança está preparada para esse conhecimento? É comum familiares ficarem medindo o sucesso de seus filhos sobre outros. O meu andou com nove meses, o meu falou com um ano e dois meses, ele sabe a cor azul. E os pais ficam inseguros porque seus filhos são preguiçosos ou atrasados e ninguém se dá conta de que cada criança é única e se desenvolve no seu próprio ritmo. Algumas têm o desenvolvimento motor mais adiantado, outras o vocabulário, umas brincam sozinhas desde cedo, outras dormem mais fácil. Precisamos estar atentos ao que cada criança precisa e não ficar empurrando atividades para compensar o atraso do que elas ainda não fizeram.

E mais importante que isso, o processo de aprendizado das crianças não é para a escola, o vestibular, ou mercado de trabalho, mas para a vida. Estamos num tempo em que crianças estão sendo afastadas da natureza e isso as está deixando doentes. Vivemos uma epidemia de depressão num mundo completamente despreparado para qualquer coisa que incapacite os indivíduos, o que os deixam desamparados também materialmente.

Mafalda, por Quino

O que estamos plantando para o futuro ao nos preocuparmos em criar os melhores sem qualquer sentimento de empatia com os outros ou a necessidade de trabalhar em cooperação? Se queremos um mundo mais afetuoso, relações mais saudáveis, isso tem que se refletir em como tratamos crianças e bebês e parar de ver o mundo como uma pista de corrida, mas como ele deveria ser, uma comunidade.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Roberta AR’s story.