Precisamos falar sobre o ENEM!

No seu vigésimo ano o ENEM 2018 trouxe como tema da redação “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Ontem, discutindo num grupo do WhatsApp com amigos da faculdade, me peguei defendendo com unhas e dentes esse tema. Meu argumento era que ele era muito bom, além de super atual, e também um ótimo exemplo de como a tão exaltada “escola sem partido”, vai permitir que os brancos consigam argumentar sobre temas complexos em detrimento de pretos e pobres. Vale ressaltar que o argumento desse discurso é de ser um movimento de luta contra a doutrinação ideológica que professores (especialmente os de humanas) supostamente fazem em sala de aula. Mas, ao contrário do que eles defendem, acredito que o livre pensar passa pela circulação de informação, pela argumentação. E doutrinação é, antes de tudo, limitação de liberdade e acesso à informação. Eu estava achando ótimas também as temáticas transversais da prova como um todo, por trazerem questões que estão na pauta dos movimentos sociais.

Postagem da deputada federal Talíria Petrone nas redes

Até que uma amiga me chamou a atenção pra algumas coisas básicas: quantas pessoas, de fato, têm acesso à internet no Brasil? E quantas dessas pessoas puderam discutir sobre acesso à informação, manipulação e algoritmos?

Podemos ainda estender essa pergunta aos outros temas da prova, tão exaltados nas redes sociais. Quantas pessoas leram e/ou conhecem Conceição Evaristo, Cuti, George Orwell, Rosa Parks, Martin Luther King Jr.? Quantos discutiram racismo, feminicídio, assédio, gênero? A quem serve o ENEM?

Eu comecei a dar aula há dez anos, sou da segunda turma de cotistas (História/ UERJ/2004) de uma das primeiras faculdades do Brasil a implementar as cotas para negros de baixa renda. Saí da faculdade empregada, mal paga, mas dando aula, e só parei há dois anos quando resolvi mudar de área e começar uma segunda graduação, agora em Gastronomia.

A maior parte dos meus amigos, pretos ou não, pobres sempre, que “ascenderam socialmente” (se compararmos a vida antes e depois da graduação, sem entrar nos meandros políticos dessa ascensão) está desistindo da luta da sala de aula, desistindo da formação dos seus. E eu os entendo. Sofro, mas entendo. E estou falando de formação numa escala até mais ampla do que a da sala de aula. Falo de formação de vidas. A verdade é que o sistema está matando a gente! Matando num sentido tão cruel quanto a morte física: a morte epistêmica, a morte psicológica, a morte dos ideais de quem sonhava em formar cidadãos críticos e conscientes do funcionamento da sociedade.

Só quem está em sala de aula sabe da luta diária que é lidar com as “verdades” dos discursos do dia a dia, dos discursos do pastor, dos grupos de WhatsApp, das rodinhas dos “brothers”. Só quem está nessa labuta, sabe dos desafios de fazer com que os moleques consigam transpor o senso comum e desenvolver o senso crítico. Sem falar no perrengue que é ter que administrar turmas gigantescas, em que grande parte não quer estar ali, porque vivemos um modelo de escola falido (não que educação a distância seja a alternativa!). A verdade é que boa parte está brigando entre si e, do restante, uma pequena parte está prestando atenção, de fato, no que você está tentando falar.

A “escola sem partido” já está em vigor faz tempo!

Por isso, percebo que meu olhar para os temas transversais do ENEM como algo “revolucionário” é um olhar de quem está no lugar onde eu estou hoje: preta, quase doutora, “classe C” ascendente, e não do lugar da garotada que está encarando o ENEM. Nossa vista está embaçada e a gente não está percebendo!

Nos últimos anos o acesso a internet cresceu, segundo dados do IBGE de 2016, “Brasileiros online somam 64,7% de toda a população”. Porém, isso não significa entendimento sobre a complexidade dos processos de troca e manipulação de informação na rede. Acesso a internet não significa acesso a informação confiável, de qualidade.

Retomo, então, a pergunta inicial: a quem serve o ENEM?

É lindo ver que temas nunca antes contemplados estejam emergindo, nos últimos anos, transversalmente no ENEM, mas a gente, desse lugar de “ascensão”, graças a algum capital cultural adquirido, se questiona sobre a quem essas temáticas contemplam? Quantos, no Brasil, têm oportunidade real de dispor dessas discussões? A gente está olhando para quem está entrando na Universidade?

Nessa minha tour de segunda graduação, o que mais tenho visto é que, abaixo da elite clássica, que sempre teve seu lugar cativo na universidade pública, uma nova elite, pseudo-elite, classe média, é quem está entrando nas federais. E entrando numa onda de arrogância, de autossuficiência, como se o ENEM fosse atestado de qualidade de gente. Não sei se pelo “pluralismo” de temas ou pela nossa estrutura clientelista de ensino, mas o que vejo é que cada vez mais as pessoas entram na universidade achando que precisam menos dos professores que nela estão. E questionando, não apenas o “status quo” da cátedra, mas os saberes que parecem, para elas, mais fluidos do que efetivamente são.

Com isso quero dizer duas coisas:

Uma: Galera da geração que se formou nos primórdios dos anos dois mil (até 2010, para estabelecer um teto de coerência): precisamos falar mais a partir de onde viemos e menos de onde estamos agora. E mais que isso, precisamos voltar às bases, para além da política dura, mais na formação humana mesmo, precisamos pensar, criar e efetivar estratégias de multiplicação de tudo que nos permitiu estar onde estamos hoje, devolver aos nossos, às nossas origens.
Duas: Galere da geração tombamento: a escola sem partido e esse ENEM são mais farinha do mesmo saco do que parecem. Ambos estão a serviço da manutenção de privilégios. Não nos enganemos. É preciso questionar mais do que celebrar! É preciso pensar para além das capitais, para além das urbanidades, para além do Centro-Sul, para além das pseudo-elites (e das elites de fato!), para além das particulares e cursinhos, para além das escolas de excelência e, principalmente, para além dos nossos umbigos.

O ENEM diz muito sobre quem eles querem que entre ou não no ensino superior, a meritocracia já se apropriou da pluralidade. Estejamos atentos.

Beijos de luz!