Saudade: a melancolia do amar

Saudade está entre as palavras mais difíceis de serem traduzidas e entre as mais belas do vocabulário português. Saudade é um sentimento muito difícil de explicar mesmo. Amamos pessoas, momentos, nossos animais de estimação, uma viagem que nos fez bem…. Tantas coisas nos provocam saudade. Amar é o único segredo para senti-la. Muitos podem considerá-la melancólica e talvez seja. Amar algo que já se foi e nunca mais vai voltar é triste, mas aos olhos de um artista até a tristeza vira poesia.

A saudade está aqui. No agora. Ninguém nunca não sentiu esse sentimento tão complexo de definir. Convenhamos que tentamos dar significado aos sentimentos. No dicionário Aurélio, o termo é definido como “lembrança grata de pessoa ausente ou de alguma coisa de que alguém se vê privado”. No Michaelis, “recordação nostálgica de pessoas ou coisas distantes”. Buscando mais a fundo em outro dicionário e muito mais antigo que os dois citados, procurei a definição do padre Raphael Bluteau, pois sendo uma reverência que uso em minhas pesquisas, creio que seria mais fácil localizar até mesmo a origem de tal palavra. Bluteau, como era previsto foi muito mais cuidadoso do que os outros dicionários que tenho acesso (talvez um dicionário atual mais completo, seja mais detalhado). Saudade veio de Soidade, mas o uso do -au ao invés de -oi foi mais forte a ponto de mudar a sua grafia. Soidade, por sua vez, veio de Soledade que significa estado de solidão, tristeza e melancolia. O padre acredita que no latim a palavra mais próxima seria desiderium que significa desejo.

Bluteau traz o lado mais triste do sentimento e talvez seja esse lado que provocou a criação da palavra. Perdoe-me aqueles que são especialistas, isso é uma suposição de uma leiga na questão de origem das palavras. Voltando ao assunto tristeza, nós ocidentais sempre a vemos como algo negativo. Mas a tristeza também nos move. A saudade e sua nostalgia faz-nos preservar a memória, deixar que um pedaço do que já foi fique aqui por mais tempo. Não deixa de ter uma certa beleza, pois é um amor em forma de lembrança.

Para finalizar esse escrito, em “Quadras ao gosto popular”, Fernando Pessoa conclui “Saudades, só os portugueses / Conseguem senti-las bem, / Porque têm essa palavra / Para dizer que as têm”. Sejam portugueses, sejam brasileiros e angolanos, compartilhamos a mesma língua e qualquer falante de português a sente. Nossa língua é nossa riqueza. Nossas palavras são tesouros pelos quais tentamos nos expressar. Os sentimentos, contudo, são mais poderosos e mesmo uma palavra tão bela e tão única ao ser dita sem amor perde o sentido profundo. Desejo, solidão, melancolia, perda do que já foi e espera do que não veio. Sentimos saudade sempre. Amamos para todo sempre.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.