Delação, Gravação e Fúria

William Foster (Michael Douglas) em Um dia de fúria

Há pouco mais de 24 horas fomos todos chacoalhados por notícias que novamente fizeram nosso país tremer.

Creio eu que não pela surpresa já que o mundo político no Brasil raramente apresenta surpresas. Os enredos são quase sempre os mesmos como eu comentei num artigo anterior (link aqui).

Obviamente isso não quer dizer que o povo brasileiro tenha se tornado impassível frente aos desmandos, estes apenas deixaram de ser novidade. Justamente por não ser um povo impassível é que vemos as convulsões que agitaram algumas das capitais hoje, com manifestações de todos os tamanhos.

A reação varia de uma para outra pessoa. Pode ser indignação, revolta, tristeza, desânimo e até mesmo raiva, fúria.

O mais interessante, porém, é que essa fúria e raiva são, bastante frequentemente, direcionadas contra outros cidadãos comuns, como eu, você e aqueles que amamos. As posições divergentes em termos de ideologias, políticas, visão de governo e de sociedade são usados como gatilhos para agressões de todos os níveis e gravidade.

Particularmente, sou bastante favorável a abordagens e pontos de vistas diferentes. Acredito que podemos sempre aprender com o diferente em muitas dimensões da experiência humana, mas já faz muito tempo que o que vemos são lados que se atacam apenas, colocando energia e esforço na neutralização do oponente ideológico e não na solução dos problemas urgentes que se apresentam.

Engana-se quem me vê escrevendo sobre Comunicação Não Violenta e pensa que essa seja uma abordagem de abaixar a cabeça e aceitar agressões ou de “ter sangue de barata” como muitos dizem por aí.

Marshall Rosenberg inseriu um capítulo em seu livro chamado “Expressando a raiva plenamente”. Ele mostra na obra como um todo que a CNV é uma metodologia de enfrentamento, ao contrário do que pode-se pensar num primeiro momento (vale assistir aos seu seminários no Youtube onde ele desenvolve melhor esse raciocínio — link aqui).

A questão aqui é como comunicar-se de forma efetiva e a efetividade, segundo Marshall demonstra, tem a ver com a satisfação de nossas necessidades mais profundas.

Toda vez que vejo pessoas na vida real e na vida virtual vociferando e atacando seja quem for, acionadas pelos gatilhos dos acontecimentos políticos em nosso país, eu tenho a plena certeza de que a pessoa está querendo lutar por satisfazer sua necessidade de justiça, de espaço, de segurança, de harmonia, entre outras.

O problema é que a violência é a expressão mais trágica das necessidades não atendidas. E ela é trágica justamente porque afasta o agressor de ter realmente sua necessidade efetivamente satisfeita.

Violência como persuasão

Eu nunca vi um opositor político ou ideológico mudar de posicionamento (de forma real) por conta de algum tipo de violência. Através da violência física e tortura, pode-se até conseguir que através do medo a pessoa assuma ter mudado de posição, mas ela está fazendo isso por um motivo insustentável no longo prazo.

Já vi brigas no trânsito que chegaram, inclusive, “às vias de fato” por conta de uma “fechada” brusca, mas eu poderia afirmar que mesmo que o indivíduo que efetuou a “fechada” fosse aquele que apanhasse (não é incomum que seja o contrário), ele não seguiria sua vida com essa lição aprendida sendo mais cuidadoso no porvir.

Se fizesse isso apenas por algum medo, uma hora essa represa ruiria e a verdadeira natureza da pessoa apareceria, até porque a violência, a humilhação, a segregação e a vergonha comumente geram mais revolta e amargura, que vão se acumulando de tal sorte que é bem fácil que no futuro, qualquer pequena contrariedade possa detonar uma reação altamente destrutiva. Que o diga nosso amigo William Foster, de Um dia de fúria.

Era pra ser apenas um café da manhã

Vou usar um exemplo que dei essa semana: Caso seu filho ou alguém que você ama se comporte mal, você gostaria que essa pessoa adotasse outra postura por medo da violência que você pode causar ou porque a pessoa acredita que a nova postura pode ser melhor para o bem comum? Sendo pai de um menino de quase 3 anos, essa é uma pergunta que realmente incomoda.

Mesmo que aqueles que consideremos opositores sejam mortos, isso não resolve o problema e ainda cria um clima de maior insegurança, pois o mesmo critério pode ser usado contra você a qualquer momento.

Marshall diz algo muito bacana a esse respeito:

“Matar pessoas é superficial demais.”

Ele nos diz ainda algo que parece banal, mas que é crucial, é a chave para que possamos ter maior discernimento a respeito desse assunto e essa chave é que não podemos confundir estímulo com causa.

O comportamento do outro, sua visão política, sua ideologia ou mesmo seu time de futebol, são apenas estímulos e não a causa de raiva.

A raiva, assim como todas as demais emoções só existem dentro de você. Elas só ocorrem em uma instância muito íntima em cada pessoa e mais, ela só ocorre por conta dos pensamentos que temos a respeito do estímulo.

Veja bem, não estou negando a existência do estímulo. Determinada situação pode mexer com os seus valores de forma visceral, mas os pensamentos e sentimentos que advirão desse estímulo, são responsabilidade sua.

Tanto isso é verdade que pessoas diferentes tem reações diferentes ao mesmo estímulo. Cada um seleciona o tipo de pensamentos (JULGAMENTOS) e emoções que quer alimentar em si mesmo.

Usando a raiva como um chamado a despertar

Segundo nosso amigo Marshall:

“Vejo toda raiva como resultado de pensamentos alienantes da vida e causadores de violência. No âmago de toda raiva está uma necessidade que não está sendo atendida.”

Já que ficamos com raiva porque existe uma necessidade em nós que não está sendo atendida, no momento em que a raiva chega, devamos nos perguntar: Estou com raiva porque estou precisando de que?

Veja, não me entenda mal. Não estou aqui dizendo que esse é um processo fácil. Caramba, Deus sabe que não é! Mas estou buscando oferecer a possibilidade de você ir mais fundo nessa sua raiva e fazer com que ela se expresse de uma forma que seja mais provável que você consiga aquilo que necessita e não que se machuque ou machuque alguém nesse processo, já que isso não garantiria que sua necessidade fosse atendida.

Quando você toma contato com aquilo que necessita no momento em que está com raiva fica mais fácil de comunicar isso de uma forma não violenta, aumentando assim seu discernimento, seu poder de comunicação e consequentemente sua possibilidade de atender a necessidade subjacente.

Quatro (mais um) passos para expressar a raiva

Dentro desta abordagem Marshall estabelece 4 passos para que você possa expressar a raiva de forma construtiva:

1 — Parar e respirar
2 — Identificar os pensamentos que estão julgando as pessoas
3 — Conectar-se com as suas necessidades não atendidas
4 — Expressar nossos sentimentos e necessidades não atendidas

Colocando dessa forma você pode estar já julgando o método e através dos seus pensamentos criando uma reação de aversão porque talvez já tenha o costume de simplesmente reagir às contrariedades de uma forma mais ou menos raivosa e é justamente esse o ponto.

Não julgue tão rápido! Respire.

Esse método para dar certo exige que você tenha uma visão de mais longo prazo e que busque controlar a reação costumeira para adicionar um pouco mais de reflexão antes da ação.

Normalmente, em uma situação que nos desperta a raiva dificilmente oferecemos ao outro lado uma possibilidade de expressar-se completamente, pois rapidamente reagimos com o intuito de que o incômodo seja repelido/eliminado o quanto antes.

Partir para a ação de uma perspectiva de suas próprias necessidades pode ajudar a expressá-las mas mesmo assim pode ser difícil fazê-lo de uma forma que não seja reativa ou violenta. É por isso que adicionamos mais um passo a essa abordagem que é a de ouvir empaticamente o outro.

O fato de ouvir o outro tem se provado como forte estímulo para que sejamos ouvidos a nosso turno (se não acredita, convido você a fazer o teste).

Quando ouvimos empaticamente o outro, da forma como tratei em um artigo anterior (link aqui), nos conectamos com a natureza humana comum das necessidades de ambos os lados.

Quando conseguimos enxergar a expressão trágica (pois pode ser violenta em algum grau) das necessidades não atendidas do outro, mais dificilmente nos sentimos ofendidos,diminuindo também a possibilidade de o julgarmos e criar uma série de pensamentos e emoções que poderiam levar à raiva violenta.

Esse é um passo que pode ser inserido entre os passos 1 e 2, 2 e 3 ou 3 e 4, mas dificilmente fará efeito se for colocado após o passo 4.

Espero que você possa estar compreendendo que não estou recomendando “engolir” a raiva, reprimi-la ou escondê-la. Estou simplesmente recomendando um método que te ajude a tomar controle sobre si mesmo, entender as raízes (julgamentos) por trás de sua raiva bem como as necessidades que jazem em sua base, entender as necessidades subjacentes do outro e só então expressar sua raiva em formato de necessidades.

No caso em questão, que trata das diferenças de posicionamento político, que tal penetrar em si mesmo para entender quais necessidades você tem expressado de forma tão trágica?

Quais seriam as necessidades daqueles que você tem colocado como opositores?

Penso que uma reflexão a esse respeito poderia nos ajudar a chegar em soluções mais inteligentes do que simplesmente dividir o mundo em acepipes de frango, vulgo coxinha, ou de embutidos de carne, vulgo mortadela.

Não tenho nenhuma inocência em acreditar que para tudo seja possível encontrar soluções que atendam a todos, mas tenho plena convicção que polarizar as necessidades não nos levará a um resultado minimamente saudável/sustentável. A história já provou isso.

Ah, e é sempre bom esclarecer que expressar-se dessa forma mais consciente não elimina de forma nenhuma a busca por correção e punição na forma da lei para aqueles que cometem crimes.

O ponto aqui é como chegar nesse objetivo de uma forma mais efetiva. Acredito que a Comunicação Não Violenta pode ajudar.

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