Crítica | Original e divertido, ‘Em Ritmo de Fuga’ acerta na trilha e na ação

Rogério de Moraes
Jul 20, 2017 · 5 min read

por Rogério de Moraes

Embora fique claro logo nos primeiros segundos, é um pouco mais adiante que Em Ritmo de Fuga (Baby Driver) entrega a chave definitiva daquilo que realmente quer ser. Enquanto desenha em uma lousa o esquema de um assalto, o criminoso Doc (Kevin Space) explica como conheceu o motorista de fuga Baby, vivido com autêntica inocência pelo imberbe Ansel Elgort. Por fim, Doc vira-se para os comparsas (e também para a câmera, ou seja, para nós) e, com cínica surpresa, diz algo como: vejam, desenhei um esquema perfeito enquanto falava.

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A cena é uma brincadeira com clichês desse tipo em outros filmes do gênero. Um modo de dizer que a própria narrativa não se leva a sério. E isso é ótimo, porque nos libera para a divertida aventura sonora de perseguição que Em Ritmo de Fuga pretende ser.

Baby é um jovem que sofreu um acidente de carro quando era criança. Como sequela, tem um permanente zumbido em sua audição. Por isso, está sempre ouvindo música nos fones que quase nunca tira. Um atrevimento juvenil o fez ficar em dívida com Doc, a mente por traz de ousados assaltos que estão acontecendo na cidade. Para pagá-la, atua como piloto de fuga, atividade para a qual demonstra ter uma habilidade extraordinária.

Perseguição exemplar

Essa destreza ao volante é mostrada logo na sequência de abertura. É quando o diretor britânico Edgar Wright, coloca as mangas de fora e nos mostra uma perseguição de carros digna de entrar para qualquer lista de melhores do cinema. Ele exercita lições de alguns mestres desse artifício, como George Miller, em Mad Max: Estrada da Fúria, ou John Frankenheimer, em Ronin.

O ritmo da edição trabalha em sincronia com a trilha sonora e o efeito é eletrizante. Além disso, o trabalho com o eixo de câmera durante a sequência mostra domínio narrativo, pois mantém o espectador ciente da disposição de cada elemento da cena, sem nunca se sentir perdido na ação. Basicamente, o oposto do que acontece, por exemplo, em filmes muito ruins na direção de ação, como os da franquia Transformers.

É também nos primeiros minutos que Em Ritmo de Fuga estabelece aquilo que será sua assinatura mais marcante e original: a trilha sonora. É nesse quesito que encontra seu melhor ajuste, não apenas pela boa seleção musical, mas principalmente pelo uso orgânico dela durante as cenas.

Som em primeira pessoa

Quase o tempo todo, a trilha que ouvimos é uma subjetividade do que ouve Baby em seus fones. Ou seja, do ponto de vista sonoro, o filme nos mantém com uma perspectiva em primeira pessoa. O modo como o design de som trabalha isso é surpreendentemente afinado e sutil. De modo natural, o volume da trilha sobe e desce, alternando nossa percepção do ambiente junto com a percepção do protagonista. E isso permanece nas sequências de ação.

Ajuda em tudo ter à disposição um elenco de qualidade, que inclui ainda Jamie Foxx, Jon Hamm, Lily James, Jon Bernthal e Eiza González. Todos eles convincentes dentro de suas caricaturas, que servem muito bem à proposta
do filme.

Brincando com subgêneros

Brincar com subgêneros parece ser um dos prazeres na carreira de Edgar Wright. Foi assim na ótima comédia Todo Mundo Quase Morto, quando ele se divertiu com o gênero de filmes de zumbi. E também em Heróis de Ressaca, na qual o diretor faz sua versão cômica do clássico tantas vezes refilmado Vampiros de Almas, de 1956.

A brincadeira agora é com o subgênero assalto/perseguição. Como das outras vezes, o roteiro está repleto de tipos clichês: o cérebro que planeja os roubos, o sujeito agressivo e instável, o elemento frio que não perde a calma, a namorada sexy de um deles e o cara sensível que quer juntar uma grana, largar essa vida e fugir com a namoradinha. Porém, como tudo isso serve ao propósito caricato que o filme assume, esses clichê funcionam bem dentro da trama, que não deixa de ter uma ou duas surpresas.

Mesmo concorrendo ao posto de um dos filmes mais divertidos do ano, Em Ritmo de Fuga não escapa de alguns problemas. Apesar de ter outras boas perseguições ao longo de sua duração, nenhuma delas repete a exímia execução da primeira.

Um corpo estranho

Seu erro mais grave, porém, é não saber a hora de parar. O desfecho ideal, no melhor momento, com o público ainda tenso com a última sequência de ação, aberto e cheio de possibilidades, acaba se perdendo. Passa diante de nossos olhos sem que os créditos encham a tela. Em vez disso, segue uma arrastada amarração final, desnecessariamente explicativa e sem nenhuma identidade com o que se viu. Um pequeno, mas inconveniente, corpo estranho em uma obra cujo ritmo estava perfeitamente cadenciado.

Apesar desses problemas, Em Ritmo de Fuga é muito bem-sucedido naquilo que se propõe ser. Uma aventura com boas cenas de perseguição, trilha sonora empolgante e um protagonista carismático para quem torcer. Esse tipo de fórmula, quando bem executada, faz valer o ingresso.

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Redação Crítica

Rogério de Moraes - jornalista e redator

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