Careca e violento, Johnny Depp interpreta temido gângster dos anos 70

por Rogério de Moraes

Difícil não se surpreender com a transformação facial de Johnny Depp em Aliança do Crime. Calvo, dentes e olhar predatórios; é sob pesada maquiagem que o ator encarna a maleficência de um dos gangsteres mais violentos dos EUA nos anos 70. Papel que recoloca Depp no patamar dos grandes atores, lugar que há algum tempo ele não frequentava.

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Seu personagem é James “Whitey” Bulger, criminoso nascido e criado na região sul de Boston, onde explora uma variedade de crimes. De ascendência irlandesa, ele tem profundo desprezo pelos italianos da máfia que dominam a parte norte da cidade. Seu objetivo é tirá-los dos negócios e expandir sua área de atuação. Porém, não dispõe de meios para isso.

Essa expansão começa a se tornar possível quando se alia a um amigo de infância (Joel Edgerton), agente do FBI. Basicamente, informações em troca de acobertamento. Um acordo que, dentro da ética de cada um, tornará cada vez mais cinzenta a linha que separa limites como lealdade e delação. Um relacionamento nebuloso que inclui o irmão caçula de Whitey, Billy Bulger (Benedict Cumbebatch), senador pelo estado de Massachusetts.

Aliança do Crime segue a cartilha dos filmes de gângsteres contemporâneos. E isso não é necessariamente ruim. Se não há inventividade no modo de narrar a expansão dos negócios ilícitos do protagonista, por outro lado a direção de Scott Cooper é eficaz em sustentar ritmo e tensão. Parte disso, graças à atuação de Depp, capaz de expressar a frieza e a crueldade implacável de seu personagem. Implicado em quase duas dezenas de assassinatos, Whitey é o tipo de criminoso que tem no medo seu maior aliado.

A brutalidade — e até a gratuidade — dos gestos de violência presentes no filme, assim como alguns elementos narrativos, sugerem uma aproximação com a temática, a estética e a narrativa de Martin Scorsese. Remete, por exemplo, a Os Bons Companheiros e Os Infiltrados. Uso da trilha sonora, narração off, a força da violência para se firmar, a relação com o bairro de origem, a lealdade como laço de honra e o desprezo pelo delator, são alguns exemplos.

No entanto, todos esses pontos de contato não são suficientes para dar à trama e aos personagens o peso histórico-cultural — de representar uma tradição violenta na formação da América — que Scorsese tão bem desenha e desdobra em camadas nos seus melhores filmes.

Entretanto, Cooper também trabalha camadas interessantes, especialmente na nebulosa ética de seus personagens centrais. Não por acaso, logo de início cria-se um borrão quanto aos limites turvos dessa ética. A primeira imagem que vemos é a de um gravador sendo ligado para a coleta de um depoimento. Ouvimos, então, um delator fazer questão de registrar que ele não se vê como um delator: “I’m not a rat” (“Eu não sou um rato” — gíria para se referir a delator, cagueta, dedo-duro).

É a partir desse início que a zona cinzenta se desenha, instalada na contradição. E isso vale para a outra face da moeda, na figura do agente do FBI e sua relação com o crime como forma de ascender na carreira.

Mas a melhor qualidade de Aliados do Crime é não se deixar levar pela estetização da violência, que muitas vezes contamina filmes do gênero. Não há glamourização do crime e de sua brutalidade, o registro é quase sempre frio e objetivo.

Convencional, mas suficientemente intenso para prender a atenção, Aliados do Crime se coloca em uma posição confortável dentro do gênero. Não arrisca, mas também não erra feio. E se no final tudo mais falhar, resta a presença de Johnny Depp inspirado. Algo cada vez mais raro.
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Black Mass
Scott Cooper
EUA, 2015
122 min.
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