Crítica | Andaimes revela personagem tentando se encaixar no mundo

por Rogério de Moraes

41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Filho do orgulhoso proprietário de uma empresa de andaimes, Asher (Asher Lax) parece enfrentar demônios internos que é incapaz de verbalizar. A violência, sua agressividade com o mundo, parece ser a única forma de expressão que conhece. Seu pai controlador, que despreza os estudos, se torna a força de um conflito silencioso que o filho encara ao demonstrar desejo de estudar.

Mas o desenvolvimento desse conflito vem aos poucos. De imediato, temos um Asher agressivo, que responde ao mundo da mesma forma que acha que o mundo o vê. Esse complexo de vira-lata só é amenizado por seu professor de literatura, Rami (Ami Smolartchik). Surge entre eles uma relação instável, muitas vezes tênue, mas que espelha a carência que Asher tem de ser compreendido.

O diretor Matan Yair insiste em intensificar esse mergulho nas reações explosivas de Asher, que só demonstra respeito pelo pai. Desse modo, somos levados a observar um personagem cujas ações precisam ser compreendidas pelo contexto, nunca por explicações didáticas. Um contexto que está na mãe ausente, no sentimento de inferioridade, no desejo encabulado de aprender, na pressão do pai para se focar no negócio da família.

Complexidade oculta

Andaimes (Scaffolding) constrói a partir disso um personagem complexo dentro de seu espírito aparentemente simplório. Ainda que em alguns momentos o roteiro pareça dar voltas sem avançar — seja na trama, seja na evolução das relações ou de seu protagonista — há nessa repetição um aprofundamento na alma de Asher. Uma mecânica que passa pelo próprio gestual do personagem, como quando nunca deixa de prestar reverência à tradição judaica quando entra em algum recinto, embora nunca se revele religioso.

Essa mecanização de gestos remete à sua dificuldade em pensar, em refletir e analisar a si mesmo. Seu universo é absolutamente reativo, nunca reflexivo, e sempre pautado por uma urgência.

Rumo indefinido

Asher é um jovem com nortes indefinidos, dividido entro o pai e o sonho de algo que não sabe bem o que é, muito menos se é algo possível. Quer sempre respostas imediatas, mas mal sabe como formular as perguntas.

Por isso, o que se vê ao longo de sua trajetória não é um acondicionamento de sua índole agressiva, mas um melhor entendimento dessa natureza.

Andaimes não quer ser uma resposta ou uma representação de saída para seu protagonista e o que ele representa. Não quer traçar um arco que o leve à cura de si mesmo. Sua elaboração dramática se presta muito mais a um despertar tênue, um primeiro olhar de seu personagem para si mesmo.

E é esse despertar sem respostas que faz ser tão bonito seu desfecho, quando Asher finalmente começa a fazer as perguntas certas. Perguntas que revelam, mesmo sem resposta, o início de uma compreensão a respeito de um possível lugar no mundo, sempre a partir daquilo que fez dele o que é.
- -
Gostou do texto? Então, compartilhe, recomende, comente e
leia outros conteúdos do Redação Crítica.
-
-
Trailer