Crônica | Mas acontece que é Carnaval

É claro que, quando criança, queria ser astronauta. E depois também bombeiro, médico, Batman. Depois vieram os livros, muitos livros, e decidi que queria fazer aquilo: escrever. Deu no que deu.

Hoje, como na infância, ainda quero ser muitas coisas que — também como na infância — nunca serei. Como, por exemplo, folião.

Lembro do meu primeiro baile de carnaval. Tinha entre sete ou oito anos. Meu tio me levou a uma matinê de salão. Gostei dos confetes e das serpentinas. Fora isso, lembro de ficar olhando em volta e achar tudo muito chato e meio constrangedor. Ainda sem dar por isso, iniciava-se ali meu recorrente sentimento de vergonha alheia. Fiquei paralisado no meio do salão.

De tempos em tempos, meu tio (sempre muito animado e festivo) se aproximava e tentava me entusiasmar: “vamos lá, pula, se diverte”. Mas eu não via muita diversão naquilo não.

Grossa pancadaria

Desde então, não mudou muito. Tive, no começo da vida adulta, algumas aventuras de carnaval. Duas, basicamente. Uma ida ao baile da extinta casa de shows Olympia, na Lapa (eu conhecia um cara, que conhecia um cara, que conhecia um cara), e o envolvimento em grossa pancadaria do lado de fora do Sambódromo do Anhembi.

No primeiro caso, a intenção era ver de perto toda a abençoada safadeza que sempre via pela TV (na época, misteriosamente acomodado sob o cobertor, apesar do imenso calor que faz nessa época do ano). No segundo, era só arruaça mesmo. De resto, não me animo nada com folia de carnaval. Porém, não queria que fosse assim.

Hoje, só me resta a inveja

Sou, antes de tudo, um introvertido. E a despeito de tudo que esta condição me trouxe de intelecto e sagacidade, no fundo melhor seria não sê-lo.

Hoje invejo honestamente os amigos que estão na folia. Queria ser esse tipo de gente feliz, animada, festiva, amante do verão, do uhuuu!, do sair sorrindo em foto! Só que não sou.

E digo isso com a mesma frustração de quem nunca foi ao espaço, nem apagou um incêndio, nem curou um paciente, nem saiu à noite para combater o crime usando uma roupa de morcego. Ou seja, um misto de conformação por a vida ser como é e lamento pelo que a vida nunca será.

Calor demais

Penso (me iludo): e se o Carnaval fosse no inverno? Talvez me animasse. Porque se estar obrigatoriamente feliz já é bem chato (e constrangedor) pra mim, fazer isso no calor é ainda mais insuportável.

Porque Carnaval é sempre gente demais (no calor), barulho demais (no calor), cerveja quente e cara demais (no calor) e uma necessidade de estar feliz demais (no calor). Sério. Não dá. Prefiro uma dor de dente.

Fosse tudo isso no inverno (mas um inverno de verdade, não esta pouca vergonha de frio que faz por aqui) eu talvez me animasse. Ou não.

A verdade é que olho e invejo todos vocês que são felizes no Carnaval. Queria mesmo ter essa disposição para o caos, o sol quente, a música alta. Mas acho tudo muito, muito chato. Vejo de longe, aceno com sincero entusiasmo e prazer de ver todos felizes, mas logo me recolho ao ventilador e ao sofá.

Agrada-me, claro, o feriado. O tempo que posso passar com a Fernanda, os filmes que posso colocar em dia, as leituras que poderei ter longe da folia. Mas, de certa forma, nalgum canto desta alma precocemente envelhecida, há um Raul Seixas dizendo:

Mas ora, vejam só, já estou gostando de vocês
Aventura como essa eu nunca experimentei!
O que eu queria mesmo era ir com vocês
Mas já que eu não posso
Boa viagem, até outra vez

E como já não tenho mais a estupidez juvenil de criticar negativamente tudo aquilo de que não gosto ou com que não me identifico, bendigo a alegria de todos neste Carnaval.

Bendigo a fé na alegria de quem o celebra e se consagrada no orgasmo da multidão na festa pagã. Reverencio sinceramente esta disposição para o caos, para calor, para a festa, para as fotos sorrindo. Reverencio, sobre todas as coisas, o estar na rua, ocupando os espaços da cidade, apesar de transtornos eventuais e da má vontade de gente que não entende o que não entende.

Assim, mesmo que eu, como no poema Dialética, não me consagre nesse júbilo, feliz me torno por aqueles que o fazem em nome do direito sagrado de, ao menos uma vez por ano, sair para fora de todas as lógicas e ir ser feliz entre coros retumbantes e multidões dissonantes.
Viva o Carnaval!
 —
Dialética
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
E em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste…
 — 
Vinícius de Moraes