O dia em que fui assaltado pela liberdade


Dia desses, me ocorreu isso.
Tinha saído do trabalho. Normalmente, percorro a pé os cerca de 2,5km até a estação de Metrô. Naquele dia, excepcionalmente, decidi tomar o ônibus para fazer esse percurso, pois havia chovido e parecia que ia chover mais.
Em pouco tempo dentro do ônibus lembrei que chuva, São Paulo e trânsito formam uma equação óbvia. Faltava mais de um quilômetro até meu destino e o ônibus não se movia há alguns minutos. À frente, mar de lanternas vermelhas. O povo pediu para descer e o motorista, mesmo fora do ponto, abriu as portas. Não chovia naquele momento.
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Fui caminhando pela avenida, olhando para os carros parados que iam ficando para trás.
Na mitologia de consumo, carro sempre foi visto como uma conquista de liberdade, de independência e também de sucesso. A imagem é potente. Você, cabelo ao vento, estrada livre, dia de sol, rumo a qualquer lugar que lhe dê na telha. Ah, a liberdade…
No dia a dia, a realidade é outra.


Ao caminhar, olhava aquelas pessoas em seus veículos. Entre sombras avermelhadas por luzes de freio, podia imaginar seus rostos: desesperados, ansiosos, impacientes, furiosos, conformados. De repente, cada carro tornava-se, no meu modo de ver, uma gigantesca bola de ferro presa ao tornozelo de seu dono/motorista. Naquele momento invertia-se toda a lógica que sustenta por décadas o imaginário em torno do carro como símbolo de liberdade. Naquele momento, livre era quem estava a pé.
Qualquer um naquela avenida que não estivesse de carro tinha incontáveis possibilidades. Podia tomar o metrô, podia tomar um café, podia tomar uma cerveja, podia tomar qualquer rumo.
Já os outros não. Não podiam deixar ali seu bem precioso largado à imobilidade de uma lógica sem lógica. Não podiam ir e vir, apenas esperar. Apenas permanecer presos à sua liberdade, na esperança de moverem-se um metro a mais.


Ao construir no pensamento essa noção simples, fui tomado por uma imensa sensação de independência. Fui assaltado pela liberdade e pelo sentimento de estar vivo, de estar em movimento, de ter escolha.
Acima de tudo, tive a certeza de que as escolhas que fiz na vida, e para a vida, estavam certas. Eu era livre por não ter alcançado o “sucesso” que tantos outro pensam ter alcançado. Meu sucesso era um bilhete único no bolso e um livro na mochila. Aquilo era minha felicidade, custava pouco e valia muito.
Caminhei até a estação. No trem, ajeitei-me em pé mesmo, abri um livro e mergulhei na leitura. Logo estaria em casa.
P.S.: Quem me conhece sabe que não sou fã de carros como meio de mobilidade urbana, portanto é evidente que este texto é tendencioso. Além disso, é também simplista ao desconsiderar fatores diversos que minam essa liberdade de quem, como eu, usa sempre transporte público. Ele é só uma reflexão sobre um momento e o sentimento desse momento.
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