O que pensam os outros 75%?

por Rogério de Moraes

Das muitas formas de se fazer mau jornalismo, uma das mais baixas é utilizá-lo para fazer campanha contra ou a favor de algo por meio de sutis distorções dos fatos. Um exemplo claro disso pode ser visto ao se analisar títulos de matérias envolvendo as medidas polêmicas da gestão Haddad em São Paulo.

Nada deixa isso mais claro do que a comparação entre os títulos das matérias e o conteúdo dos respectivos textos. Afinal, todos sabem que muita gente “se informa” lendo apenas os títulos e estes acabam sendo usados para passar uma ideia que a leitura atenta do texto não sustenta.

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Todos nós sabemos que a verdade pode ter muitas faces. A função do jornalismo é tentar encontrar a mais relevante e contextualizá-la com as demais. Porém, é fácil contar uma verdade sem contar a verdade. Para exemplificar, recorramos ao clichê da metáfora do futebol.

Digamos que num clássico entre Corinthians e São Paulo o resulta seja 5 a 3 para o Timão. Se no dia seguinte algum jornal soltar a manchete “São Paulo faz três gols no Corinthians”, ninguém poderá dizer que está mentindo. Mas, está claro, não está também dizendo a verdade mais relevante.

Embora o exemplo acima pareça absurdo, ele não está distante do que se pode ver no título da matéria publicada no site do Estadão, que diz:

“25% dos comerciantes são contra fechar Paulista para carros, mostra pesquisa” (clique aqui para ler)

Uma leitura desatenta deste título induz a pensar que há um percentual expressivo contra a medida. No entanto, uma leitura atenta, que reflita sobre essa informação, deveria levar imediatamente à seguinte pergunta: e o que pensam os outros 75%?

A resposta é: não são contra. De acordo com a pesquisa, 50% são favoráveis e 25% são indiferentes.

Então, porque o título dá destaque para a minoria, criando a falsa impressão de que o negativo prevalece? Por que não dizer: “75% dos comerciantes não se opõe ao fechamento da Paulista, mostra pesquisa”?

Porém, a coisa piora. Neste caso específico, não apenas o título é “equivocado” como também a estrutura do texto não parece ser a mais “adequada”.

Depois de reforçar o título no primeiro parágrafo e ainda ressaltar que a pesquisa foi feita por entidades favoráveis ao fechamento da Paulista aos domingos, o texto rasga o manual básico do jornalismo e faz um longo preâmbulo até dar os resultados definitivos.

Como quem tenta cansar o leitor antes que ele chegue à informação mais relevante e que mostra a manipulação do título, por seis parágrafos o texto relembra fatos velhos, conhecidos do grande público e sem nenhuma novidade. Somente no oitavo parágrafo — e mesmo assim depois de explicar como a pesquisa foi feita — chega-se à informação mais importante de toda a matéria.

Qualquer estudante relapso de jornalismo sabe que esta ordem de informações está errada pelos critérios mais básicos da construção do texto da notícia. Os porcentuais apurados na pesquisa deviam estar, pelo menos, no segundo parágrafo e todas as outras informações deveriam vir depois.

Este é só um exemplo de como há uma pérfida campanha por trás de notícias manipuladas para terem viés diferente da verdade apurada. A vítima disso não é apenas a gestão Haddad, que tem muitas falhas e precisa, sim, ser duramente cobrada, mas que também tem avanços pontuais muito bem-vindos para a cidadania. A grande vítima, na verdade, é você, leitor, que tem sua confiança desrespeitada e sua inteligência ofendida.
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