Schwarzenegger e o faroeste do coreano

por Rogério de Moraes

Arnold Schwarzenegger é o maior ícone de uma geração de filmes de ação. No tempo dos homens durões, poucos astros do gênero ameaçavam seu posto. Hoje, todos foram atropelados (ou se renderam) por efeitos digitais de fundo verde e por heróis de rosto (e índole) delicado.

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No entanto, é dobrando o cabo dos 65 anos de idade — e com o rosto ainda menos delicado –, que o austríaco volta a protagonizar o tipo de filme que ele próprio simboliza.

Em O Último Desafio, ele é Ray Owens, xerife de uma pacata cidadezinha que faz fronteira com o México que trocou a vida de policial na cidade grande pela tranquilidade do interior. Comanda uma equipe de policiais que beira a ingenuidade, conhece os moradores pelo nome e passeia de bermuda em seus dias de folga.

A paz é quebrada quando um poderoso narcotraficante em fuga para o México, perseguido pelo FBI e apoiado por um exército de capangas bem aramados, se dirige para a cidade. Para impedir a travessia, o xerife e seu limitado efetivo vão recorrer à ajuda de um excêntrico colecionador de armas (Lewis Dinkum) e do namorado de uma policial local (Rodrigo Santoro), preso por bebedeira e baderna.

Os tiros e a pancadaria de O Último Desafio põem Schwarzenegger no seu lugar natural: a ação. Como se não bastasse, vai além e, com engenhosidade, insere o ator em um subgênero do qual ele nunca fez parte: o Western Spaghetti — popularizado no Brasil como “Bang Bang à Italiana”.

No entanto, a primeira metade do filme parece existir apenas para justificar a segunda, quando surgem os contornos de gênero e estilo. Até então, a narrativa sofre com um roteiro que é quase sem nexo, cheio de situações mal explicadas e personagens carregados de clichês. Tudo embaralhado em cenas de fuga e perseguição.

A espera pela segunda parte, entretanto, vale o sacrifício. É quando o diretor sul coreano Kim Jee-Woon — que tem na sua cinematografia ampla reverência ao Western Spaghetti e ao brilhante diretor Sergio Leone — mostra sua capacidade de articular e atualizar dois gêneros distintos entre si. Isso se dá por meio de uma atmosfera carregada de elementos reconhecíveis, que mistura cinema de ação dos anos 80 e faroeste macarrônico dos anos 60/70.

Estão lá a cidadezinha deserta, os bandidos forasteiros que vêm perturbar a ordem, o xerife altivo que se dispõe a enfrentar os foras da lei, mesmo estando em desvantagem. Tiroteios, telhados, metralhadora Gatling, Colt 45, saloon — e até um corpo a corpo com jeito de lucha libre — compõem, de modo real ou figurativo, um estilo que o filme trabalha com vigor e graça.

É um conjunto bem arranjado que traz a assinatura do diretor. Mais do que render homenagens em sua costura de gêneros, Jee-Woon mostra ter domínio das sequências de ação. Sabe posicionar sua câmera e emprestar tensão ao registro, controlando o ritmo e finalizando a cena no tempo certo.

O diretor também entende a importância da fisicalidade neste tipo de filme, especialmente quando se tem Schwarzenegger como protagonista. Essa é a combinação que melhor funciona, porque na hora do pau quebrar o coreano exige e o austríaco responde à altura. O resultado é um retorno à velha forma, mas sem o saudosismo autorreferente de Os Mercenários. O que se vê é a cristalina construção do herói de ação. Determinado, altivo. E que, mesmo velho, ainda dá no couro quando começa a pancadaria.

Mesmo com seu início sofrível, O Último Desafio revive durante boa parte de sua duração — e com bastante força — não apenas gêneros entrelaçados, mas também o carisma e o espírito do cinema que fizeram de Arnold Schwarzenegger um ícone. Atributo que, por ora, a idade ainda não conseguiu apagar. 

The Last Stand
Kim Jee-Woon
EUA, 2013
107 min.
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