Análise | The Handmaid’s Tale: a série de TV que desperta o medo mais real

por Rogério de Moraes

No terceiro episódio da série de TV “The Handmaid’s Tale”, um dos flashbacks da trama mostra o momento em que a protagonista, interpretada por Elisabeth Moss, perde seu emprego. Na verdade, mais do que trabalhar, ela e todas as mulheres dos Estados Unidos perdem o direito à propriedade. Suas contas bancárias, por exemplo, passam automaticamente a serem administradas pelos familiares homens mais próximos, como maridos, pais e irmãos. É o início do que ficará conhecido como a República de Gilead.

Produzida pelo serviço de streaming Hulu — concorrente da Netflix nos EUA e ainda indisponível no Brasil –, “The Handmaid’s Tale” é uma adaptação do livro homônimo da escritora canadense Margaret Atwood, lançado em 1985. Por aqui, o livro recebeu o título de O Conto da Aia.

A história se passa em um futuro próximo no qual os EUA se transformaram em uma teocracia totalitária cristã, denominado República de Gilead. A sociedade passa a ser dividida em castas e a seguir rígidos códigos de comportamento. Qualquer desvio das normas cristãs é punido com prisão, tortura e execução. Muitas vezes, em público; muitas vezes, com a participação do público.

A democracia em risco: estamos também adormecidos?

Na série, Elisabeth Moss interpreta Offred, uma aia que, como todas de sua casta, tem a única função de gerar filhos para seus senhores, cujas esposas são inférteis. É a partir da história dela que acompanhamos a rotina opressiva à qual as aias são submetidas e, por meio de flashbacks, vamos descobrindo como a sociedade chegou àquele ponto.

A frase que abre o trailer (veja abaixo) fala de um estado de adormecimento que permitiu a destruição da democracia e a ascensão da tirania. Estar adormecido para a realidade, rejeitar os sinais e as evidências, negá-los em uma atitude de autoengano (ou pura alienação) são sintomas que precederam regimes totalitários ao longo da história do século 20. A Alemanha nazista e o Holocausto é o exemplo mais conhecido disso. Daí a pergunta: teríamos adormecido de novo?

Ataques terroristas, endurecimento de leis, penas mais duras, suspensão de direitos, linchamentos, conservadorismo radical, perseguição e criminalização de minorias. Esses são alguns elementos que construíram, dentro desta ficção futurista, a República de Gilead. Porém, cada um desses elementos pode ser visto hoje ou como uma ameaça real ou como algo que já está acontecendo em diversos países da Europa, nos EUA e, em menor escala — mas igualmente perigoso –, no Brasil.

O medo e o espírito do tempo no cinema e na TV

Não é novidade que a ficção no cinema e na TV espelha e explora medos e ansiedades de cada época. O expressionismo no cinema alemão dos anos 20 refletia o espírito pessimista e sombrio de uma nação humilhada pela derrota na Primeira Guerra Mundial, o neorrealismo italiano surge como retrato de um país destroçado pela Segunda Guerra. Algumas obras chegam a alcançar a façanha de serem marcos definitivos e representativos do fim de um período e início de outro.

Na Mira da Morte (Targets), 1968

Em “Na Mira da Morte”, de 1968, o diretor Peter Bogdanovich, em parceria com sua esposa Polly Platt, cria a perfeita representação do medo que marcaria as décadas seguintes dos EUA. Com aguda percepção, eles criaram a metáfora definitiva para aquele momento de transição das inquietações de uma nação e, principalmente, a perda da inocência de seus medos.

A trama enfoca dois personagens que vão simbolizar o momento. Byron Orlok é um ator decadente de filmes de terror que se prepara para a aposentadoria ao lançar seu último filme. Ele é interpretado por Boris Karloff, um ícone do cinema de horror entre os anos 20 e 50 que praticamente interpreta a si mesmo. Já Bobby Thompson (Tim O’Kelly) é um cidadão comum que, depois de assassinar a família, passa a matar pessoas aleatoriamente na rua.

Obviamente, o personagem de Orlok representa o fim de uma era de inocência, quando a ficção fantasiosa já não assusta mais. O medo real, o medo mais profundo, agora é aquele que está à porta da realidade, aquele que está nos noticiários. Apenas dois anos antes, Charles Whitman, um estudante de 25 anos, subira no relógio da torre da Universidade do Texas e matara a tiros 16 pessoas. Desde então, os EUA viram isso acontecer muitas vezes.

O medo distópico e o medo real na construção de The Handmaid’s Tale

Obras de ficção distópicas normalmente se apoiam em temores reais da sociedade e têm como um de seus elementos frequentes o totalitarismo. Servem, muitas vezes, à reflexões sobre os rumos que estamos tomando. A série “Black Mirror” é um ótimo exemplo disso. Porém, enquanto ela questiona e problematiza comportamentos diante da tecnologia futura, “The Handmaid’s Tale” trabalha com um material político e social muito mais próximo à realidade. E isso não é apenas uma impressão.

Tanto o livro como a série seguem a regra de que, para estar na trama, alguns acontecimentos precisam ter um antecedente histórico. O código de vestimenta, o estado que decide a quem pertence um bebê e, sobretudo — e de forma acachapante –, o machismo, são alguns exemplos. Dessa forma, o horror dos acontecimentos da trama extrapolam a fantasia a chutam a porta da nossa realidade, exatamente como fez “Na Mira da Morte”.

Mais do que o pé no futuro possível, essa é uma ficção futurista que tem o pé no presente. O que para alguns pode parecer exagerado e brutal, nalgum lugar do mundo pode ser apenas cotidiano e natural. Por isso, o que senti no terceiro episódio, quando a trama mostra a perda de direitos de forma abrupta, não foi o medo da ficção, foi o medo da realidade. E ele estava apenas começando.

Naquele momento, “The Handmaid’s Tale” não era mais uma obra de fantasia distópica distante. Era uma ameaça real. Tão real quanto as que tramitam às escuras no nosso Congresso, como as que são assinadas pelo presidente eleito dos EUA, como a que quase se elegeu na França, como a que tirou o Reino Unido da União Europeia, como a que governa a Rússia, como a que amarra pessoas em postes, como a que tatua pessoas na testa, como a que subjuga, acusa, culpabiliza, discrimina, oprime e mata mulheres todos os dias.

A República de Gilead talvez não esteja tão no futuro assim. Talvez ela já seja uma realidade entre nós.
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