Uma descoberta inesperada

por Rogério de Moraes

Era janeiro de 1990 e a avenida Paulista ainda não tinha metrô. Para lá, só mesmo de ônibus. Do Jardim Brasil, periferia da zona norte de São Paulo, havia três opções de condução. Uma delas passava na rua da Consolação, bem em frente ao cinema Belas Artes. Foi lá que tudo começou, mesmo sem ter começado então.

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Eu era um adolescente acanhado, menino provinciano de bairro, e conseguira meu primeiro emprego ao participar de um programa de capacitação e encaminhamento de jovens da periferia para o trabalho. Deu que era na Paulista. Cruzar a cidade, cruzar o rio, ir além do centro histórico e descobrir aquela outra cidade, cheia de sofisticação, era uma descoberta ao mesmo tempo deslumbrante e opressora.

Se por um lado aquilo descortinava minha consciência para a amplidão das possibilidades do mundo, por outro começava a me tornar consciente das limitações que esse mundo impunha. E ele imporia muitas ao longo do tempo.

Já gostava de cinema. Porém, no meu provincianismo, esse gosto não ia muito além do universo de Hollywood que passava na TV e dos blockbusters dos anos 80 que passavam no centro. Naquela época, meu lugar de conforto cinematográfico estava nas poltronas já começando a mofar das salas de cinemas como o Paissandu, Marrocos, Olido, Ritz, Ipiranga, Marabá, Metro, Regina, Arouche. Quase sempre em sessões duplas e baratas de filmes de ação antigos, reaproveitados nos últimos suspiros daquelas salas.

Até que um dia, a bordo do clássico 701A — Vila Madalena / Pq. Edu Chaves, vi a fachada do Cine Belas Artes. Que diabos era aquilo?, me perguntei ao avistar os estranhos cartazes dos estranhos filmes que ocupavam as seis salas. Acostumado a ver Stallone, Schwarzenegger, Van Damme, Bruce Willis, Mel Gibson e cia. pintados (naquele tempo, era comum os cinemas exibirem na fachada reproduções ampliadas e pintadas a mão dos cartazes dos filmes), senti um estranhamento imediato com o que vi.

Um deles exibia uma mulher branca, vestindo um traje típico alemão, segurando um aspirador de pó diante de uma mulher negra em meio a um cenário árido de deserto (Bagdá Café). Outro, mostrava um chofer negro olhando uma idosa branca pelo retrovisor de um carro (Conduzindo Miss Dausy). Havia ainda um com uma mulher deitada com o rosto semicoberto por um chapéu com uma imagem dentro dele (A Insustentável Leveza do Ser).

Oi? A Insustentável Leveza do Ser? Que isso, fera?

Pois do estranhamento fez-se a curiosidade, e da curiosidade fez-se o fascínio. O simples contato visual com aqueles cartazes foi o princípio da percepção de que o cinema era algo maior do que imaginava. E eu queria muito conhecer aqueles filmes tão estranhos, saber de suas histórias, de seus personagens.

Levou muito tempo para descobrir aquele tipo de filme de forma mais ampla. Na época, sentia-me intimidado por lugares como o Belas Artes. Parecia não ser para gente como eu, sem muita grana. O povo ali me parecia de outro mundo e aquilo me intimidava. É a opressão do choque social, que afasta, mesmo que involuntariamente, quem não é daquele meio. Um tipo de gentrificação.

Anos depois, chegou em casa o primeiro videocassete. Mas as locadoras do bairro não ajudavam a sair da mesmice de Hollywood (que continuei vendo e adorando, explique-se). Já um aluguel na famosa (e hoje extinta) locadora 2001 Vídeo era inviável pelo preço, pela distância e pela mesma intimidação que aquele ambiente causava em mim.

Cresci, aprendi muita coisa, caminhei muito pela cidade. Descobri seus cinemas alternativos. Vi filmes. Comprei livros. Escrevi blogs, e até publiquei críticas em publicações e sites especializados.

Em 2006, fui à minha primeira Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Era a 30ª edição. Já conhecia, claro, o evento. Mas nunca tinha mergulhado nele de verdade. Aquilo me fascinou de um modo que eu não esperava. Sem grana, buscava sessões gratuitas ou a preços populares. Vi muitos filmes e até hoje acho a vinheta daquele ano a que melhor representa o espírito do evento.

Foi após uma sessão da Mostra do ano seguinte (31ª) que comecei a namorar com a mulher com quem me casei. Na 35ª, fui convidado para colaborar com críticas para um site recheado de pessoas que eu admirava (e ainda admiro) e também fiz uma cobertura completa do evento por conta própria. Na 36ª, como resultado da cobertura que fizera no ano anterior, a organização me concedeu uma credencial de imprensa. Houve anos em que fui todos os dias e anos em que quase não pude ir devido a compromissos profissionais ou falta de grana.

Este ano, completo dez anos de Mostra. Tenho mil implicâncias com ela. Dos elevados preços dos ingressos e dos pacotes de ingressos ao público muitas vezes afetado e afobado. Mesmo assim, todo ano estou lá, ansioso, seduzido por um clima, por uma atmosfera familiar — irritante, mas familiar. Em busca de novas experiências para os olhos e para o espírito. Aberto a descobertas, ao garimpo de bons filmes. Ainda fascinado e curioso. Como aquele menino tacanha que começava a descobrir o tamanho do mundo a partir do primeiro emprego e o tamanho da sétima arte a partir da fachada de um cinema.
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