Crítica | Vencedor de Cannes, ‘Eu, Daniel Blake’ é filme ruim que todos deveriam ver

por Rogério de Moraes

Eu, Daniel Blake é o tipo de filme que faz as pessoas odiarem os críticos de cinema. Ou melhor, odiarem mais ainda. Isso porque para qualquer crítico que tenha um mínimo de empatia pelo sofrimento humano, e de indignação pelas injustiças do mundo, é inquestionável que este é um filme importante. Essencialmente, pela denúncia arrasadora que faz de um sistema perverso a que todos estamos sujeitos. A crítica, porém, deve sempre ser um equilíbrio entre a paixão e a lucidez, e esta última não me permite deixar de dizer que o atual vencedor da Palma de Ouro de Cannes é um filme ruim.

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Na cidade de Newcastle, na Inglaterra, Daniel Blake (Dave Johns) é um homem preso em uma teia de burocracia. Tem na bagagem de vida o trabalho como carpinteiro e se recupera do ataque cardíaco que quase o matou. Os médicos onde é atendido dizem que ele está proibido de trabalhar. Porém, os analistas do governo responsáveis por aprovar seu pedido de auxílio-doença dizem que ele deve trabalhar. Enquanto luta para mudar essa decisão, precisa solicitar auxílio-desemprego, mas para recebê-lo tem de provar que está empenhado em procurar trabalho, embora não possa trabalhar.

Isso é só uma parte da trama absurda na qual Blake se vê enovelado, enquanto é atirado de um lado para outro. São esperas intermináveis em chamadas telefônicas, grosserias em repartições públicas e a insistente exigência do uso da internet, com a qual ele não tem a menor familiaridade. No meio do caminho, conhece Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira, e seus dois filhos. Eles viviam em Londres, mas tiveram de se mudar por exigência de um serviço do governo que aloca famílias pobres. Bom em consertar coisas, Blake passa a ajudar a família, desenvolvendo por eles um carinho paternal.

Cena após cena o filme vai revelando camadas de absurdos e injustiças, expondo as entranhas de um sistema que, como afirma o diretor, parece existir com o único propósito de humilhar e dificultar o acesso das pessoas pobres a seus direitos. Por isso, é difícil não se emocionar ou se indignar em alguns momentos. O novelo burocrático britânico não parece diferente do nosso, assim como a rispidez de quem atende e a indiferença de quem gerencia.

O diretor Ken Loach, cujos filmes sempre enquadram com olhar humanista as classes menos favorecidas, faz aqui um discurso agudo contra um sistema opressor. Porém, ao fazê-lo, abusa do maniqueísmo e exagera na dramaturgia artificial. Cria personagens rasos, diálogos improváveis e situações forçadas. Assim, gera um conjunto de excessos que tem como principal objetivo manipular as emoções do público, fazendo-o se emocionar e aderir ao filme de forma incondicional. Loach infla nossa paixão humanista de forma exagerada e para isso utiliza momentos totalmente apelativos.

Pelo menos três desses momentos são protagonizados pela filha mais velha de Katie. Cabe a ela explicar de forma didática e quase em termos médicos o comportamento do irmão caçula (reativo a como o mundo o trata), ou dar uma pequena lição de humildade em Blake. São duas falas absolutamente artificiais e incompatíveis com a idade da personagem. É também ela a portadora de uma situação desnecessariamente apelativa, quando revela para a mãe coisas que estão ocorrendo na nova escola. Há outros momentos forçados, que culminam com a cena final, num discurso piegas.

Para demonstrar seu ponto e sensibilizar a plateia, Loach não precisava usar de artifícios tão rasos. Se seu estilo de direção sóbrio, objetivo e simples funciona bem na dinâmica de conduzir histórias, desta vez há um desencontro causado pelos excessos que assolam a trama. Isso faz de Eu, Daniel Blake um filme essencialmente ruim em muitos aspectos. Cabe então a cada espectador assisti-lo e decidir se isso invalida ou não a força e a relevância de sua denúncia contra um mundo cada vez mais indiferente às injustiças. A mim, parece que não. Portanto, apesar de tudo, é um filme que deve ser visto.
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