Por Diego Santos Oliveira*

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Jun 28 · 4 min read

Aquele que se atrever a dizer que conhece a cidade de São Paulo está
imediatamente equivocado e precipitado. Afinal quantas são as cidades que
estão presentes apenas na Praça da Sé, na Rua Augusta, na Praça Roosevelt ou mesmo na região da Avenida Paulista? A cidade está repleta de palcos, que estão constantemente sendo disputados por diferentes atores, públicos e plateias. Neste sábado (15/6), pós-greve nacional, eu fui o ouvido de várias figuras e moradores da região da Sé, no centro histórico.

Praça da Sé. Foto escolhida pelo autor.

Leandro, 38 anos, pescador, negro e morador de rua. Nos encontramos na praça que faz frente com o Tribunal de Justiça de São Paulo lavando suas roupas em uma fonte. Na hora não entendi muito bem a ocupação de pescador de Leandro — como pode um pescador morar em uma cidade que está a 250 quilômetros de distância do mar? É o que Leandro também quer saber. Há 3 meses morando na rua, o pescador me informou que está de passagem, e aguarda a liberação de documentos para voltar para casa. Alegou que, por pescar em uma data de pesca interdita — da qual ele não tinha conhecimento — , fora preso em Santos, litoral Sul do estado. Como disse, ele está de passagem, e tem volta marcada para sua casa.

No mesmo grupo em que encontrei Leandro havia mais três rapazes. Estavam juntos revezando a guarda de seus poucos pertences. Um deles é Claudino, 28 anos, negro, autoproclamado usuário de drogas e vagabundo. Claudino não tem vergonha — e quem dirá — culpa por sua atual situação. Antes que respondesse minhas perguntas me fez explicar o que um rapaz branco de roupas limpas fazia junto a eles. É sério! Ele me perguntou com essas mesmas palavras. Me dispus a esclarecer o contraste social presente na conversa.

Expliquei ao grupo que estava fazendo um trabalho universitário de geografia pela UNESP, e queria enxergar da visão deles os processos e causas de suas permanências na rua. Claudino me abriu um sorriso (sem uma porção dos dentes) e me disse alegremente que ele era vagabundo, usuário de drogas e usava o lixo reciclável para sustentar sua permanência e seu vício. Rapidamente interrompi sua fala, para que ele me explicasse o que era vagabundo. No momento ele não soube dizer e me pediu ajuda, e então informei que, para mim eles não são vagabundos, mas sim produtos de um sistema financeiro falho. Claudino interrompeu minha fala rebateu dizendo que eu não poderia falar aquilo por que eu não sei o que é ser negro. Contudo, ele concordou comigo em dizer que ele não era vagabundo, afinal, não era parasita. Nesse momento eu tive que pedir ajuda para entender o conceito (de parasita). Claudino me informou que entre eles existe uma diferença entre aqueles que somente são usuário de drogas e moradores de rua, e que, de todos, os denominados parasitas são os piores, porque são agressivos e roubam até mesmo os outros moradores de rua, e por isso eles revezavam a guarda de seus objetos.

O último personagem desse imenso palco que foi a Praça Clóvis Bevilacqua, foi Claurios, 32 anos, negro, natural de Mariana (MG). Claurios está em São Paulo há 10 anos, tendo vindo com o sonho de uma vida melhor e oportunidade de emprego. Contudo, acabou se deparando com a miséria e a vida urbana o abraçou. Perguntei se ele soube sobre a catástrofe que pairou sobre Mariana com a queda da barragem em 2015. O mesmo respondeu que ficou ciente pela televisão, mas não sabe da atual situação de sua família, se sobreviveram ou morreram.

Antes de saída da praça, _erinhoos, um jovem rapaz universitário, facilitador do Rolê Antropológico, me informou que a Praça da Sé, especialmente aos domingos, era historicamente um ponto de encontro entre familiares e imigrantes das macrorregiões Norte e Nordeste do país. Em São Paulo cada experiência é única. O momento e hora em que a conheci sob um olhar antropológico, é um fragmento do tempo e do espaço que condicionaraam minha visão. Portanto, ainda que eu volte, é impossível rever a mesma São Paulo de dias atrás.

*Diego Santos Oliveira é aluno de Geografia da UNESP Rio Claro, e este texto nasceu de uma ida ao Rolê Antropológico.

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Rolê Antropológico

O Rolê Antropológico é um evento no qual os participantes experimentam um roteiro pela cidade atentando para suas referências socioculturais, políticas, arquitetônicas e urbanísticas.

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_antropólogo, barista informal, errante incorrigível, cantor de karaokê, sérião nas horas vagas

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