Por que falamos mal do jogos dos amiguinhos

Estou aqui no final de semana, o trabalho realmente recomeçou e fiquei uma semana atrás nas atualizações. Não que os três leitores estejam ávidos por mais resmungos, mas porque eu quero colocar as ideias em ordem, por isso esse diário…

Ouçam esse podcast, ficou muito legal nosso bate-papo com essas pessoas legais.


Me sobrou ser administrador de uma comunidade no Whatsapp. Não importa que tenha vários amigos lá com a mesma função, eu tenho de ir apagar incêndios ou me escrevem reclamando uns dos outros frequentemente… eu que já tenho problemas não sabendo não me responsabilizar pelas coisas, virei um bombeiro sempre com o mesmo mantra: sejamos positivos ao comentar em grupo.

Acontece que a treta mais recorrente é falar mal de algum sistema de RPG, geralmente os mais populares, de um estilo de jogo, da forma como jogam, ou até mesmo do jogo que o colega escolhe falar/chamar/questionar. Mas por que a gente faz isso? Então, a resposta é bem complexa, mas você vai se identificar.

“Nossos inimigos são menos aqueles que não compartilham de nossas opiniões políticas que aqueles que não compartilham de nosso gosto literário.”
— Nicolás Gómez Dávila (para citar um conservador).

Sabe quando as coisas degringolam no grupo de família que reune visões políticas opostas? É o mesmo princípio. Se você não está jogando o meu RPG, você só pode estar errado, ou arrisca de você estar dizendo que EU estou errado, e isso simplesmente não é possível… nesse esquema de pensamento.

Já faz muito tempo, mas o que os políticos utilizam para nos mobilizar é uma coisas bem mais básica: tenha uma opinião, porque é isso que te define.

No RPG não poderia ser diferente, e isso fica travestido dentro da gente, como se fosse desde um gosto pessoal até uma opinião muito bem estudada… mas no fundo é a mesma coisa. Você já tentou falar de Star Trek sem alguém citar Star Wars? Ou comentar um herói da DC sem que alguém te conte porque a Marvel é muito melhor?

As pessoas se organizam em torno dessas "opiniões" porque no mundo contemporâneo nós não sabemos mais o que nos define, e no lugar colocamos essas coisas. As pessoas são capazes de se matar por times de futebol, no mundo todo, por que nós nerds seríamos diferentes?

O que deixa tóxico é o comportamento em fóruns ou grupos de WhatsApp, que tem um efeito potencializador. Quando escrevemos algo e alguém responde, é quase impossível não querer responder… e assim nascem as tretas sem fim sobre que o seu é pior que o meu, e pronto.

A mesma coisa acontece em música, cinema e literatura (para quem ainda lê, claro). Afinal, nós aprendemos a separar tribos com isso, a valorizar uma pessoa pelos gostos dela: quão parecidos, exóticos ou únicos eles são… e isso aparece na nossa comunidade. Há os diferentões, os saudosistas, a vanguarda, a velha-guarda, os exclusivos e os que topam qualquer coisa.

Mas, afinal, qual o problema se uma pessoa gosta de Tormenta? Ou de Gurps, D&D, Fiasco, Empoderados pelo Apocalipse… ou se as pessoas não gostam de nada disso?

O problema é que se a pessoa diz que não gosta do MEU RPG, da coisa que EU gasto tanto tempo lendo/preparando/jogando, eu me sinto atingido na minha pessoa, no que eu sou no meu íntimo. E sair dessa armadilha sociopsicológica é mais complicado do que pode parecer.

O primeiro cadafalso é o coletivismo, nosso senso de grupo, e a vontade de defender a "nossa tribo". Uma vez que a gente tenha desenvolvido o gosto por um RPG, a gente tende a querer defender ele de qualquer forma… Seria lógico, só que um RPG é apenas uma ideia, e ideias deveriam poder ser discutidas sem qualquer problema.

“They are most susceptible to a process of masochistic adjustment to authoritarian collectivism. The type is not restricted to any one political attitude. The adjustment to anthropophagous collectivism is found as often among left-wing political groups as among right-wing groups. Indeed, both overlap: repression and crowd mindedness overtake the followers of both trends. The psychologies tend to meet despite the surface distinctions in political attitudes.”
On Popular Music — Theodor W. Adorno.

Quando você vê, já trocou 47 mensagens atacando ou defendendo algum sistema de RPG… simplesmente porque não conseguimos deixar em paz quem ama/odeia o MEU RPG. Esse Fla x Flu da política é o mesmo, você acha que quem pensa diferente só pode estar de sacanagem.

Quem fala mal do MEU RPG comete essa falta dupla: ao mesmo tempo está me desqualificando e ameaçando meu grupo todo. Quer dizer que eu não sou bom o suficiente para escolher um RPG? Quer dizer que seus amigos são melhores que os meus? Como você se atreve?

E no fundo podemos falar de coisas que são boas ou ruins em um RPG sem estar fazendo nada disso. Ou pelo menos deveríamos. Se alguém disser que seu RPG é complicado, você pode explicar como usa de forma a ser menos complicada, e não chamar de burro quem não entendeu… ou pode chamar a pessoa que acha que seu jogo é infantil para jogar com você e tirar essa impressão errada.

É uma escolha fácil essa de escrever respostas e apertar send. É o meio que usamos, e ele define muito COMO usamos. Não é à toa que o Facebook comprou o WhatsApp, nem é à toa que as eleições no mundo todo estão sendo disputadas nessas plataformas…

“The medium is the message because it is the medium that shapes and controls the scale and form of human association and action. The content or uses of such media are as diverse as they are ineffectual in shaping the form of human association. Indeed, it is only too typical that the “content” of any medium blinds us to the character of the medium.” 
Understanding Media: The Extensions of Man — Marshall McLuhan

Além da escala, a rapidez define a conversa de internet. A gente inclusive não sabe mais discutir e passa muito tempo repetindo o mesmo argumento, pensando que o interlocutor não entendeu da primeira vez. O próprio meio não parece ajudar no diálogo, primeiro porque são várias pessoas, e depois porque nós só respondemos para continuar a conversa, sem ler o argumento contrário e pesá-lo contra os nossos.

Claro que ainda assim a pessoa do outro lado pode estar errada, mas o que mais vejo é nossa incapacidade de comunicar isso de forma a criar um diálogo… geralmente criamos ruído.

A parte psicológica acho mais difícil. Primeiro que eu não entendo bem ela. Acho que temos uma alta concentração de pessoas com personalidades problemáticas, como passivo-agressivos ou com déficit de atenção… e disso eu não entendo mesmo.

O mais fácil tem a ver com os problemas sociais que a gente cria, é um certo egocentrismo. Não sei até onde essa nossa vontade de estar certo vem de uma ameaça ao nosso umbigo nerd, e até onde vem de um egocentrismo mesmo, de querer derrotar as pessoas em discussões, pelo prazer de discutir.

Quero crer que se isso é real mesmo, é mais um produto conjugado dos três problemas que eu descrevi. O coletivismo dos gostos, a ameaça de ver MEU jogo derrotado, e o meio em que discutimos, a internerd.

Mas tudo isso é pra gente tentar entender a coisa. Não é que devia ser proibido resmungar e brigar com os outros sobre o MEU ser melhor do que o SEU, mas talvez haja outra saída… discutir RPG de forma mais positiva, falando da sua experiência e PRINCIPALMENTE dando ouvidos à experiência do amiguinho.

A gente podia ter atitudes diferentes, com tudo na vida, eu diria. E talvez a gente consiga discutir melhor as coisas. Enfim, é só um joguinho…