Um ano para comics

Fui ver Glass e é incrível como realmente é uma sequência de dois filmes tão diferentes. No final as coisas se amarram demais, mas eu gosto tanto das ideias em Unbreakable que achei interessante mesmo assim. Ouvi esses dias que o M. Night Shyamalan é vítima de se achar experto demais para melhorar os filmes dele. Ou seja, ele é um nerd como nós. Aliás, vale a pena ver essa entrevista dele sobre como encontrou o James McAvoy um dia por acaso para fazer o papel de 24 personalidades de Split.

Foram 19 anos, mas ele diz que esse final já estava pensado desde o começo de Unbreakable. Só que ele diz que teve de cortar quase uma hora do filme no produto final. Talvez por isso o filme pareça recortado às vezes. Tipo, os personagens secundários (a mãe, o irmão e a sobrevivente) não têm muito tempo na tela, e por isso a gente não entende bem por que eles estão ali.

Mas é um bom filme, uma boa trilogia, e um olhar tão real sobre o que seriam super-poderes de verdade: broken people, segundo Shyamalan. Acho que apesar do sucesso dos filmes da Marvel e de os filmes da DC abandonarem o universo compartilhado agora, os filmes do Shyamalan são o que o cinema fez de melhor com super-heróis. Quadrinhos de supers se deixam ser mais bobos às vezes, e essa permissão é difícil no cinema. Por isso eu acho que nunca consegui jogar muitos RPGs de Supers, e a única vez que tentei era Hellboy, primeiro ambientado em Mutantes e Malfeitores, e depois em FATE. Mike Mignola é fã de Gurps, por isso ele quis fazer esse suplemento. Só que não gosto do sistema, ele sempre é melhor como fonte de pesquisa. Mas me interessa muito essa atmosfera do herói por acaso, mais que do herói com powertrip e diálogos espertinhos (eu sei, combina com o homem-aranha, mas já viram que hoje é de todos os heróis?).


Também estou vendo Star Trek Discovery, a única série que não consegui ficar sem ver sequer um episódio exatamente quando sai. E quando a Enterprise apareceu e aquela música tocou no final da primeira temporada, se você não ficou curioso com qualquer história que venha em seguida, foi mal, você não gosta de Star Trek. Desde o final da primeira temporada eu estou esperando isso, e é simplesmente genial ver o que arranjaram para esses poucos anos que separam Discovery da linha do tempo da missão original de Jornada nas Estrelas.

Digam o que quiserem, Discovery trouxe de volta a parte sci-fi da Jornada nas Estrelas, que os filmes novos esqueceram. Era a mesma coisa em Enterprise, e é isso que as pessoas não entendem, que talvez essas sejam as séries mais Jornada desde Next Generation. Nada contra o que veio depois, mas DS9 e Voyager eram sobre outras coisas, não problemas a serem resolvidos com ciências e boldness.

Um dos meus problemas é que tem RPGs demais que eu quero tentar. Star Trek Adventures foi a coisa mais brilhante que eu fiz entre 2017–2018. Cada vez que fiz personagens foi interessante, e se você quiser pode fazer um apenas para entender. O processo, como em muitos RPGs modernos, vai te guiando por uma vida toda de background. E fazer a sua nave, um personagem como os outros, faz parte do processo e monta também o grupo todo.

Assim que eu comecei o playtest desse novo Star Trek eu comecei a imaginar uma aventura no período que eu acho mais interessante e inexplorado, e que por coincidência fica entre Enterprise e Discovery: a guerra entre a Terra e o Império Estelar Romulano, que culminou na formação da Federação Unida de Planetas.

Minha aventura faria com que uma nave em missão fosse sugada para dentro da guerra. Não me agrada uma história militar, mas alguns personagens poderiam ser da força que ainda ocupava as naves após as guerras com os Xindi. Esse tempo ainda é aventuresco como a série original, mas sem repetir a fórmula de estar perdido num canto da galáxia. Minha ideia era colocar os personagens contra espiões e bandidos espaciais nas bordas do conflito, tentando achar vantagens para ajudar, ou realizando pequenas missões apesar da guerra.

Como muitas das aventuras que eu planejei, essa eu fiz tanta coisa que estou agora satisfeito, já joguei ela na minha cabeça, e talvez ela nunca veja a luz de uma mesa com jogadores de verdade. Mas ah, como eu queria estar no século 22!