O outro lado da rua

Antes de mais nada: Isso é uma história de amor (ou não) em cinco rápidos parágrafos. São, quase sempre, casos verídicos alterados de forma sutil para servir à proposta do blog. Os personagens e os ambientes são ou podem ser fictícios.

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Astolfo levou um pé na bunda pra nunca mais esquecer. Terminou um namoro bem no dia do seu aniversário, durante a festa. Foi um dos piores dias da sua vida. Ficou três anos evitando aparecer em aniversários, bares, eventos sociais. Não tinha mais coragem de olhar na cara de ninguém depois de tanta vergonha e nervosismo.

Viram Astolfo chutar cadeiras, quebrar uma vidraça e enforcar um indefeso garçom no bar que recebeu a comemoração. Ele nunca mais queria aparecer em público depois de protagonizar um verdadeiro caos no único dia em que a gente merece esquecer as desgraças da vida.

Durante todo o tempo em que esteve recluso, mergulhou em filmes românticos, comédias ruins e dramas, perdendo alguns litros de lágrimas entre um e outro. Aprendeu com a ficção a esperar um amor cair do céu, em uma redenção absoluta de todos os seus pecados, falhas, frustrações e pensamentos ruins. Esperou então aquela mulher que iria mudar o resto da sua vida. Por muito tempo.

Olhava a cada esquina como se aguardasse uma moça iluminada andar em sua direção, ensaiava até mesmo o discurso que faria para convencê-la de que o encontro deles era coisa do destino. Mas não saía às ruas o suficiente para que a roda gigante do desconhecido alinhasse o seu nome e o dela. Astolfo se manteve firme na sua convicção, mesmo que não conversasse com uma mulher nova em todos aqueles anos. Até que foi visitar a grande avenida da cidade para caçar um livro na biblioteca.

Chegando lá, apertou o botão do semáforo para atravessar e notou que ela estava ali, imaculada, brilhante, sorridente, maravilhosa e inalcançável. Ela era linda. E para a alegria de Astolfo, correspondeu ao olhar dele, já irremediavelmente apaixonado. Ela sinalizava “vem, vem, vem” com as mãos. Ele ficou paralisado por alguns segundos, tamanha alegria. Astolfo esperou tanto e estava sendo recompensado. Deu o primeiro passo e então foi brutalmente atropelado por um ônibus que vinha à toda velocidade. O sinal estava aberto e ele não viu.

FIM.

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