Emílio de Mello, Débora Bloch, Fernando Eiras e Mariana Lima, em foto para o espetáculo "Os Realistas" (Dir.: Guilherme Weber) | Foto: Christian Gaul

À Primeira Vista ou Quando Vi Você Me Apaixonei

Uma crônica para Mariana Lima

Rômulo Zanotto
Sep 16, 2016 · 11 min read

A primeira vez que eu vi a Mariana Lima foi quando a vi fazendo “a filha do senador Caxias”, em O Rei do Gado. “A namoradinha do Fábio Assunção”, que era um Mezenga ou um Berdinazzi, não me lembro. Lembro dela. Eu era um “pobre adolescente do interior”, daquelas 90% de cidades pequenas onde não havia nem teatro, nem cinema, nem internet, e só restava a TV aberta como opção de entretenimento ou “cultura”.

O ano era 1996, eu não tinha ainda o mínimo esboço do repertório artístico e cultural que viria a adquirir depois, mas já me chamava atenção o estilo de interpretação daquela “moça surgida do nada”, que interpretava de modo um pouco mais dramático, um pouco mais rascante, um pouco menos naturalista do que o restante do elenco (daquela ou das outras novelas).

Gostava, sobretudo, do tom da voz. A memória auditiva dela chamando “Marcos”, o nome do namorado, me acompanha até hoje. Até hoje, também, é sempre a atriz que me vem à mente quando ouço os primeiros acordes da música À Primeira Vista, na versão de Daniela Mercury, trilha sonora da personagem.

Alguns poucos anos depois, já morando em Curitiba e estudando Artes Cênicas, assisto ao espetáculo Apocalipse 1,11, do grupo paulistano Teatro da Vertigem, no Festival de Teatro. O ano era 2000 ou 2001, o grupo era o hype da linguagem teatral no momento, a peça era encenada no presídio do Ahú e foi a primeira vez, até onde eu me lembro, em que eu vi, senti e vivi o que se chama de “fenômeno teatral”: uma profusão de sensações, sentimentos, pensamentos, sinapses e conexões, originados pelo que se vê — ou vive — em cena. Imagens, flashes de cenas e sensações (físicas, sensoriais, psicológicas, intelectuais) que me acompanharam, acompanham e acompanharão para sempre.

O público itinerava por diferentes lugares do presídio, onde as cenas iam acontecendo: policiais, cães, boates, deuses, bestas, prostitutas, sexo explícito, programa de auditório, sexo explícito no programa de auditório, purgatório, inferno na terra, juízo final. Eu desconhecia o elenco e os personagens iam desfilando, um a um, arrebatadores, na minha frente. Nos corredores e nas celas dos presídios.

Lá pelas tantas, vem uma prostituta, Babilônia, e ouço aquela voz pela qual me apaixonei na televisão, anos antes, à primeira vista, quando tudo era ausência e eu esperava. Esperava por algo como aquilo que vivi naquele presídio: pelo teatro, pela vida, por uma sensação como aquela, que me atingisse o estômago e outras vísceras. Me apaixonei! Entendi que as pessoas podiam fazer no teatro coisas ainda mais interessantes do que faziam na TV.

À segunda vista, aquela mulher era ainda mais interessante do que à primeira. Sua voz continuava indefectível, mas dizia e fazias coisas que jamais diria ou faria na televisão.

A partir daí, eu me mudei para o Rio de Janeiro e Mariana Lima, paulista, também. Entre lá e cá (eu voltei a Curitiba três anos depois), assisti Mariana sempre que possível. Seja fazendo Tchekov ou Clarice, seja encenando com o marido ou com diretores curitibanos, seja “contracenando” sozinha ou com Drica Moraes. Peças em que seu nome figurava no elenco sempre foram obrigatórias: A Paixão Segundo G.H, Gaivota, Nômades… E a última vez que eu a vi no palco, veja você: a peça se chamava À Primeira Vista. Quando dei por mim, estava lá, na plateia.

Mesmo novelas, que deixei de assistir pouco depois de O Rei do Gado, voltei a ver só para ver Mariana Lima. Com o advento do on demand, livre da publicidade e da obrigatoriedade do horário, me joguei no rebuceteio d'O Rebu. Seu estilo de interpretação continua marcante. Sua voz, inconfundível. E tão eterno na minha memória auditiva quanto Liliana chamando Marcos, será Roberta chamando “Brandão” e pedindo ajuda enquanto tira o morto da piscina no primeiro capítulo. Um desbunde! De novela e de atriz.

Voltando aos palcos… Recentemente o Guairinha teve o privilégio de receber de novo Mariana Lima (foi lá que eu a vi em À Primeira Vista, com Drica Moraes), desta vez ao lado de Débora Bloch, em Os Realistas. “Acho o público curitibano exigente, bem formado, crítico, mas sempre muito generoso e curioso. Fico feliz sempre que tenho a chance de apresentar trabalhos em Curitiba”, conta a atriz em entrevista por e-mail.

“Acho o público curitibano exigente, bem formado, crítico, mas sempre muito generoso e curioso. Fico feliz sempre que tenho a chance de apresentar trabalhos em Curitiba.” (Mariana Lima)

Neste intervalo de duas décadas que separam a estreia de Mariana Lima na TV e a minha adolescência no interior, entre idas e vindas, peças e novelas, trilhas e livros, abandonei as artes cênicas e me tornei escritor e jornalista. Para ser um grande ator — fui entendendo conforme vivia — era preciso ser como Mariana: ter uma entrega emocional que eu não tinha, uma disponibilidade corporal que eu também tinha, e um despudor que eu nunca teria. Era preciso utilizar minhas emoções em horas que eu não quisesse, não discutir com os meus personagens, e deixar que mijassem em mim se fosse preciso (sim! tem uma cena de Apocalipse em que um colega de cena mija em Mariana).

Menos que isso: se eu fosse a Roberta, por exemplo, seja como ator ou personagem, talvez não estivesse disposto a me jogar na piscina atrás do corpo, analisando antes dezenas de "veja bem". “Veja bem, Vilamarim… o morto já está morto mesmo, a água está fria demais, chove às pencas, pode cair um raio, atingir o outro personagem e então, ao invés de apenas um morto, teremos dois”… Ou “veja bem… não seria melhor chamar o Brandão do lado de fora da piscina ou então esperar a chuva passar, empurrar o cadáver até a borda com o bastão de limpeza, para então içá-lo seguramente até à margem?” Fui para a literatura, onde eu podia recolher o cadáver a hora que eu quisesse. "Quando lhe achei, me perdi." Saí de cena, entrei na palavra.

Do ponto de vista literário, nunca é preciso um pretexto para uma boa conversa. Do ponto de vista jornalístico, sim. Uma peça na cidade, portanto, é sempre um bom motivo para conversar com a atriz que está no elenco, certo? Errado!

Quando eu terminei meu primeiro livro, sobre Fernanda Young, liguei para a editora dela, perguntando o telefone da sua assessoria. Deram-me, de cara, o telefone da própria escritora. A partir da relação que construí com Fernanda desde então — e também pela frustração de boa parte dos encontros jornalísticos que eu viria a ter depois com outras pessoas que eu admirava — aprendi na prática o que ela, FY, já me ensinara pela literatura: “Se você quer que seus artistas prediletos continuem tocando seu coração, não tente conhecê-los”.

Por causa disso, sempre que o jornalismo me traz este pretexto de entrar em contato com gente que eu gosto e faça parte do meu imaginário, fico reticente. E a despeito de detestar também algumas idiossincrasias do jornalismo — como entrevistas por e-mail — , frequentemente acabo dando graças a Deus (ou coisa que o valha) quando a entrevista acontece por e-mail. É uma forma de manter as coisas como estão. Como pela primeira vez.

Só que, mesmo por e-mail, continuo ficando nervoso, suo, respiro, transpiro. Confundo esquerda com direita, o certo com o duvidoso, escrevo maciço sem “C” e abrasso com dois esses. Um desastre. O motivo é o mesmo: a empolgação de me saber em contato com alguém que eu gosto, que frequenta minha mente desde sempre, todos os dias, há 20 anos. Chego a confundir o inconfundível: me refiro ao Teatro da Vertigem, do qual ela fez parte, como o Teatro da Resistência, que ela nem conhece. E faço do marido, Enrique Diaz, por quem já foi dirigida, a Cia. dos Atores inteiras, que ele já dirigiu.

"O que continua consigo, o que você traz de suas experiências marcantes que continuam ainda, especialmente desde o Teatro da Resistência e da Cia. dos Atores (ou de sua parceria com o Enrique Diaz) até hoje?", pergunto eu, por e-mail, como um jornalista qualquer.

“Eu não trabalhei no Teatro da Resistência (que não conheço) e não fui da Cia. dos Atores”, responde ela. Poxa! Logo eu, que a conheço tão bem, passar assim, por desinformado ou desconhecido!?

As perguntas foram chatas, erradas e assépticas, como em geral são as perguntas do jornalismo. As respostas, igualmente chatas e assépticas como só poderia ser, tendo em vista as perguntas a que se referiam.

Em homenagem à atriz, e aproveitando sua estada na cidade, eu deveria simplesmente ter-lhe escrito esta crônica e publicado, ao invés de ter inventando estas perguntas sob pretexto de "falar" com ela. E você, por sua vez, querido leitor, deveria ter deixado esta crônica de lado e corrido ao Guairinha para vê-la. Certamente teria entendido muito melhor vendo, tudo isso que eu tento dizer escrevendo. Certamente seria amor à primeira vista.

Fernando Eiras e Mariana Lima, em cena, em primeiro plano | Foto: Leo Aversa

Em homenagem à atriz, eu deveria simplesmente ter-lhe escrito esta crônica e publicado, ao invés de ter inventando estas perguntas.

Eu— Você tem, no repertório teatral, um currículo invejável de bons espetáculos. Vou citar apenas os que eu tive o privilégio de assistir, para falar apenas do que eu conheço: Apocalipse 1,11, A Paixão Segundo G.H, Gaivota, Nômades, À Primeira Vista e, agora, Os Realistas. Em todas as produções que você se envolve, sempre muita antenada com o fazer teatral de seu tempo. O que mudou no fazer teatral, em seus diferentes aspectos (estéticos, de produção, de público, seu próprio repertório humano e profissional), nestes 16 anos que separam Apocalipse de Os Realistas?

Ela— Acho difícil falar de um arco de tempo tão grande como esse, seria uma análise extensa demais pra fazermos aqui. Mas fui agraciada por parcerias sólidas, por encontros que proporcionaram diferentes e profundas experiências teatrais. Desde o Teatro da Vertigem, passando pelo monólogo com o Enrique e as peças do Daniel Macivor, a projetos mais pessoais, como Nômades. Eu tenho me flexibilizado bastante para não estar no teatro fazendo algo que eu não acredite profundamente, tanto do ponto de vista do meu trabalho de atriz, como do trabalho de criação, envolvendo sempre a parceria. Cada projeto tem um porquê de ser feito naquele momento. Eu criei todos esses trabalhos junto com os outros artistas e com todas as implicações pessoais, estéticas e políticas de cada momento tangenciando as escolhas.

Eu— E ao contrário: o que continua consigo, o que você traz de suas experiências marcantes que continuam ainda, especialmente desde o Teatro da Resistência e da Cia. dos Atores (ou de sua parceria com o Enrique Diaz) até hoje?

Ela— Eu não trabalhei no Teatro da Resistência (que não conheço) e não fui da Cia. dos Atores. Eu fui do Teatro da Vertigem durante quase dez anos e depois fiz projetos com atores e diretores como Enrique Diaz, Marcio Abreu, Malu Galli, Felipe Hirsch, Guilherme Weber. Em todos esses trabalhos guardo a experiência de mergulho em regiões perigosas, pantanosas da criação, que demandam coragem, persistência, paciência e capacidade de enfrentar as diversidades.

Eu — Qual é o tipo de teatro que te agrada?

Ela— O Teatro feito a partir de indagações contemporâneas, de coragem estética, que quebre paradigmas conhecidos e te levem pra regiões menos confortáveis. O teatro onde o ator é criador e pela sua força nos transporte pra dentro de nós mesmos ao mesmo tempo que questione o mundo que estamos vivendo.

Eu — Fala-se ou vende-se muito, Brasil à fora, o mito da “exigência” ou do “padrão de excelência do público curitibano”. Você percebe alguma diferença, sente alguma expectativa ou nervosismo diferente em se apresentar para uma plateia curitibana?

Ela — Eu sempre adorei me apresentar em Curitiba. Acho o público Curitibano exigente, bem formado, crítico mas sempre muito generoso e curioso. Não fico nervosa, fico feliz sempre que tenho a chance de apresentar trabalhos em Curitiba.

Eu — O que você conhece ou ouve falar da produção artística curitibana, em qualquer linguagem (literatura, audiovisual, teatro, dança, etc…)?

Ela — Assisto muito o trabalho de atores e diretores Curitibanos. Márcio Abreu, Gui Weber, Simone Spoladore, Felipe Hirsch, Luis Mello, são artistas que sempre me inspiram.

Eu — É a terceira vez que você trabalha com um diretor “curitibano” (vai assim, entre aspas, porque Felipe Hirsch não é propriamente curitibano mas, antes de atuar no Rio, formou seu repertório artístico em Curitiba). Você consegue perceber com clareza alguma diferença na forma destes diretores (Márcio Abreu, Hirsch e Weber) trabalharem, que os diferencie de diretores do eixo Rio-São Paulo (especialmente em aspectos estéticos e de linguagem, mas também quaisquer outras percepções, inclusive de métodos e forma de produção)?

Ela— Não sinto essa diferença regional. São artistas comprometidos com a descoberta da sua própria linguagem teatral, com marcas muito singulares, muito diferentes entre si, no método de direção, nas escolhas dramaturgicas, estéticas. Nenhum deles se parece.

Eu — Em Os Realistas, têm antigos parceiros de vida e cena (Fernando Eira, Emílio de Melo), como sempre, e novos parceiros de palco (Debora Bloch, Guilherme Weber), que não sei se são de vida. Facilita o fazer teatral uma certa intimidade no convívio, ou uma certa compreensão do que eles pensam artisticamente, como deve acontecer com os dois primeiros atores? Como é essa mistura, de gente que vem contigo, próximo desde sempre à sua linguagem e ao seu fazer teatral, e gente “nova” quem vem chegando?

Ela — É sempre melhor quando trabalhamos com pessoas que amamos e admiramos. O Guilherme e a Débora também são parceiros de longa data de trabalhos em teatro e também cinema e TV. Teatro sem essa larga porção de afeto não é possível pra mim. Ficamos tão expostos, desamparados num processo de criação, que a amizade é nosso porto seguro. Pra mim, sempre foi. Amo todos eles, como irmãos que a vida foi me dando. Isso não significa que não haja crise ou confronto. Trabalho de criação sem crise não funciona. E também nada disso significa que eu não goste de descobrir novos parceiros. Eu adoro quando um trabalho traz novos afetos, novas amizades.

Eu — E por fim: quando você surgiu na TV, em 1996, se destacou por seu estilo “diferente” de interpretação, destoando (positivamente ou negativamente, dependendo do observador) do padrão usual do veículo. Hoje em dia, sua interpretação continua sendo diferente do naturalismo usual, mas a organicidade é maior. Como isso veio acontecendo? Passou a escolher trabalhos em que sua estética sejam cabíveis? Foi, empírica e tecnicamente, entendendo como encaixar seu estilo à linguagem do veículo? As próprias produções televisivas foram se enriquecendo e distanciando do “papai-e-mamãe” de O Rei do Gado?

Ela — Acredito que escolhemos trabalhos mas que também os trabalhos nos escolhem. Fui escolhida pra maior parte dos trabalhos que fiz na TV por pessoas que me viram no teatro, ou no cinema. E desses experiências ganhei confiança e inspirei confiança em artistas que dedicam suas vidas ao trabalho audiovisual. Tive que me tornar mais flexível às demandas e acho que cresci muito ao passar de trabalhos em novelas com Amora Mautner e Licia Manzo, Luis Fernando carvalho, Duca Rachid e Thelma Guedes, pra comédias com Jorge Furtado e pra dramas como O Rebu, de José Luis Villamarim. E tenho feito muitas séries e filmes fora da Globo, com artistas que admiro. Esse ano rodei uma série com o José Henrique Fonseca, para o GNT, fiz o Sessão de Terapia, com o Selton Mello, fiz um filme com a Daniela Thomas, tenho duas séries lindas na HBO. Posso dizer que em todos eles tive que me adaptar à estética proposta, ao estilo de dramaturgia, à épocas muito diferentes e isso só me fez crescer e aprender mais sobre o meu ofício. Nunca é uma linha reta, nunca é só escolha pessoal, é sempre no fio da navalha, é sempre arriscado e perigoso.

Mariana Lima | Foto: divulgação

Blog do Rômulo Zanotto

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Rômulo Zanotto

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Escritor e jornalista literário. Autor do romance "Quero ser Fernanda Young". Curitiba.

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