Ricardo Klass, Rômulo Zanotto, Marília Remes, Ana Maria Camargo e Celso de Bruns: o autor desta matéria e quatro dos contistas autores do livro "Torre de Papel", em uma brincadeira que não passava de uma entrevista. | (Foto: Lex Kozlik | Ilustrações: Márcia Széliga e Axel Giller)

Em Terceira Pessoa

"Torre de Papel" é um livro de contos quase-inéditos.
Quase, porque no livro os contistas entram nas obras de grandes escritores da literatura universal, dialogando com seus autores. Aqui, a melhor forma de falar do jogo seria jogar o jogo. Por isso, convidei quatro dos contistas para uma brincadeira que não passava de uma entrevista. Conheça as regras abaixo e divirta-se!

Rômulo Zanotto
Nov 14, 2016 · 12 min read

Quem joga?

No total, cinco pessoas participam do jogo:

Rômulo Zanotto, que é o autor da matéria, e mais quatro contistas do livro.

Como joga?

A regra é clara: cada jogador incorporará e dará voz ao escritor sobre o qual escreveu em Torre de Papel, falando de si mesmo somente em terceira pessoa.

Nas fotos, você conhece o rosto de cada um dos participantes e quem representa quem.

Quando joga?

O encontro aconteceu num dia 4 de agosto de quase 2020. Mas graças ao tempo, podemos ir pra frente e pra trás, regressando até o século XIV ou XIX. Quando voltamos para o futuro, continuamos não passando do terceiro milênio.

Onde joga?

O encontro aconteceu em volta de uma mesa, no escritório de criação de Ana Maria Camargo, idealizadora do projeto. Mas se as pessoas podem ser outras pessoas, por que é que os lugares também não podem ser outros lugares?

Sendo assim, esta mesma mesa pode ser, sem cerimônia, uma livraria, a Poetria, ou o bar do Leminski, o Pudim.

Muito prazer, Fernando Pessoa!

Como naquela brincadeira em grupo de colar nomes na testa e adivinhar, escrevemos cada um os nomes dos nossos autores em post-its coloridos e colocamos à mesa. Só que ali, não seria segredo nenhum quem seríamos e a única regra era clara: a partir daquele instante, seriam os autores homenageados que estariam ali, e não nós. E só falaríamos de nós mesmos em terceira pessoa, como se fossem eles, os escritores que nos conhecessem, e não o contrário.

Como os que invocam espíritos invocam espíritos, os que leem livros invocam livros e encontram eles: seus autores. Trazemos à mesa Dante Alighieri, Oscar Wilde, Umberto Eco, Marilyn Monroe e Fernando Pessoa. A partir de agora, eu não escrevo mais em primeira pessoa. Nem para mim, nem para Pessoa. Pessoa e eu, terceira pessoa.

LIVRARIA POETRIA

“Quantas pessoas cabem numa pessoa?”, é o que o repórter vem pensando pela rua enquanto vira a pé a esquina da Vicente Machado, em direção à Poetria para aquele encontro. “Engraçado”, pensa. Tem uma sensação de deja vu. Parece já ter vivido aquilo antes. Talvez no conto do professor Otto, publicado no livro?

Chega para o encontro, dá as cartas do jogo, terceiriza as pessoas e começa a brincadeira. Estão, agora, sentados em volta de uma mesa redonda, branca, no escritório da Ana. Mas você já sabe, já combinamos: podemos estar em outro lugar, e portanto estamos na Poetria.

Marylin — Ricardo

Na cafeteria da livraria, são oito e dez da noite. Marilyn interrompe o silêncio para dizer que naquele mesmo instante, em 1962, colocava o disco de Frank Sinatra na vitrola. Foi com este som que tomou seus barbitúricos.

— Hoje é o aniversário da morte dela — , anuncia Dante, consternado.

— Há exatos 53 anos, eu estava morrendo — , completa Marilyn.

Ricardo Klass, o contista que dá voz às falas de Marylin, escreveu sobre ela, em primeira pessoa, no livro Torre de Papel, quase como num transe. No conto, Marilyn se materializa para ele numa espécie de evocação e o ajuda a recontar a tragédia dela.

RICARDO KLASS — Arqueólogo | Autor do Conto "Marilyn Monroe", uma incursão espiritualizada à história da atriz, investigando as causas reais de sua morte | (Foto: Lex Kozlik | Ilustrações: Márcia Széliga e Axel Giller)

Não bastasse a coincidência da data, o repórter que encarna Fernando Pessoa não deixa de notar a semelhança entre a mesa branca e redonda em que o encontro acontece, a proposta de invocação dos autores no livro e a temática espírita do conto de Ricardo.

Para distrair Marilyn, tirando seu pensamento daquela data, Pessoa pede a ela que lhe apresente seu autor. “Ricardo é um servidor público com um carinho, um respeito e uma dedicação muito grande por mim”, explica a atriz. “Todo o carinho, o respeito e a admiração que eu não tive desde criança.”

— E como você se aproximaram? — Pergunta Pessoa.

— Todo mundo tem um pouco de vaidade. E ali, em todos os livros sobre mim que Ricardo juntou na casa dele — , conta Marilyn, referindo-se à biblioteca do contista — ele pôde descobrir a menina abandonada por trás das iniciais M.M. Sua obsessão por saber o que aconteceu comigo naquele outro 4 de agosto acabou levando-o a descobrir minha vida toda.

Dante — Marília

MARÍLIA REMES — Arquiteta | Autora do conto "Saindo do Inferno com Dante", em que ela desce aos Infernos de Dante para reavivar Beatriz e trazer "il sommo poeta" de volta aos céus (ou coisa quo valha) | (Foto: Lex Kozlik | Ilustrações: Márcia Széliga e Axel Giller)

Marília Remes, que na vida real é arquiteta e aqui é Dante Alighieri, olha impressionada para Ricardo. Ou para Marilyn, ela já nem mais sabe quem é.

— E você, quem é? — , pergunta Pessoa, dirigindo seu olhar para Marília, enquanto Walter, o atendente imaginário da cafeteria imaginária, lhe serve um café.

— Dante — , responde Alighieri. — E esta que me traz aqui, Marília, começou escrevendo uma carta à Beatriz e acabou virando ela própria minha amada (i)mortal, voltando no tempo para me tirar do inferno.

— E o que ela fazia permeando seu inferno, se você o vivera oitocentos anos antes? — , instiga Pessoa, enquanto o repórter que o sustenta sorve umas goladas do café servido por Walter.

— Porque minha história atravessaria séculos e séculos, saindo do meu e chegando no dela, embora eu nunca tivesse imaginado isto enquanto vivesse — explica, modesto, o escritor.

Wilde — Ana

Com a deixa, o repórter que encara Fernando Pessoa aproveita para atravessar uns séculos e chegar ao XIX, para falar com outro que, ao contrário de il sommo poeta, parecia pretender, desde o seu século, viver para sempre: Oscar Wilde.

ANA MARIA CAMARGO — Designer | Autora do conto "Volúpias e Palavras", em que a protagonista promove um encontro entre Flaubert, Baudelaire e Oscar Wilde | (Foto: Lex Kozlik | Ilustrações: Márcia Széliga e Axel Giller)

Quando perguntado como se sentiu ao ser abordado por Ana Maria Camargo para o conto dela, Wilde confessou que, no início, não gostou muito não.

— Eu a vi andando pelos meus livros, vasculhando minhas histórias, conversando com meus personagens, e no começo eu achei petulante quando ela me chamou para o terceiro milênio — , revela ele, enquanto Ana, anfitriã de corpo para a alma de Wilde, olhava para dentro. — O apelo só ficou irrecusável quando ela disse que conseguiria trazer também Flaubert e Baudelaire. Fiquei feliz. Não por que rimasse, mas porque sempre quis ter reencontrado os dois por estes séculos, fora das prateleiras das bibliotecas, onde já nos roçamos algumas vezes — , pisca, malandro, o dândi irlandês.

Umberto Eco — Celso

Quem ficou bravo mesmo, de início, foi Umberto Eco.

— Eu fiquei muito aborrecido de saber que lá no Brasil, aquele país de botocudos, tinha um cara entrando na minha história e querendo mudar tudo — , esbraveja ele, referindo-se ao conto do Celso de Bruns.

CELSO DE BRUNS — Agrônomo | Autor do conto "A Bengala e a Rosa", onde o alterego de Celso troca informações agronômicas com um herborista medieval dentro da obra mais popular de Umberto Eco, "O Nome da Rosa" | (Foto: Lex Kozlik | Ilustrações: Márcia Széliga e Axel Giller)

Eco reclama, reclama, reclama, mas parece estar chateado mesmo não é com o fato de o engenheiro agrônomo ter conversado com os personagens dele, mas sim com o fato de o contista não ter conversado com o próprio autor.

— Aposto que o Celso se desviou de me encontrar. — Palpita nosso contemporâneo italiano, que por aqueles dias ainda estava vivo — Este agrônomo sabia que se viesse atrás de mim eu dava-lhe um corridão, que ele não ia escrever coisa alguma, nunca mais — , esbraveja Celso, o eco do Umberto.

O italiano conta ainda à Pessoa sobre o pedido de licenciamento para o uso de obra que recebera. Só autorizou porque, através do conto de Celso, conheceu Leminski.

— Na verdade, já nos conhecíamos porque meus livros e o do paranaense já tinham se roçado também numas livrarias, como disse o outro — , proferiu Eco, cheio de aspas, se referindo a Wilde, que deu de ombros. — Quando meu editor disse que este bigodudo estava comigo, eu resolvi dar uma olhada e acabei perdoando a audácia de Celso — , finaliza Umberto.

— Quer dizer então que quem te salvou de mandar o agrônomo plantar batatas foi o Leminski? — , redargue o repórter por trás do Pessoa.

— O Leminski e o professor Otto, que também estava sentado com eles lá no Bar do Pudim, frequentado pelo bigodudo, no conto do Celso — , arremata Umberto, enquanto Pessoa sorve o último gole do café imaginário servido por Walter.

BAR DO PUDIM

O repórter, então, olha em volta e se surpreende com o que vê. O professor Otto continuava não existindo fora do seu pensamento, senão como um lembrança do conto que vivera chegando na livraria. Mas o lugar já não era mais o mesmo e, agora, o poeta Paulo Leminski também estava ali. Era o Bar do Pudim.

“Talvez tenha sido o café, como também acontece no conto daquelas pessoas que escreveram o livro”, pensa. Mas o fato é que Pessoa se via agora sobre uma mesa rústica, entre uma garrafas de vodca meio vazias e uns guardanapos de versos meio cheios. Era a letra que saía pelas pontas dos dedos do Leminski quando ele também estava vivo. Não estavam mais na Poetria. Como podia?

De início, o repórter estranha, mas logo pensa: “Se as pessoas podem ser outras pessoas, por que é que os lugares não podem ser outros lugares?” E liberta-se, assim, para outros pensamentos. Muda o lugar, mas não muda a pessoa.

Sinais dos tempos

Quando o repórter volta a si, embora nunca tenha saído, já encontra Umberto e Wilde numa acalorada discussão sobre as práticas e o uso das redes sociais.

— A internet é a terra dos imbecis — , vocifera Umberto. — Antigamente, para se escrever um livro, o indivíduo tinha que estudar no mínimo quatro ou cinco anos para ter uma opinião formada. Agora, em dez minutos, o cara se torna um imbecil com opinião.

— Imagina, Umberto! — Interjeita, afetado, Wilde. — Em que século você vive!? Eu estou DES-LUM-BRA-DO com o terceiro milênio: celulares, selfie, photoshop… — , pavoneia ele, finalizando ainda com os acordes em falsete de Forever Young, I wanna be, forever Young. — Isso é Freddie Mercury. Uma bicha contemporânea que eu adoraria ter conhecido, mas que eu já estava morto e enterrado quando ela nasceu.

— E pau de selfie? Você já pegou num pau de selfie? — , pergunta, capcioso, Umberto Eco, mais acostumado às malícias dos séculos XX e XXI.

— Deus me livre! Não quero ser preso de novo — , responde Wilde, ingênuo para os padrões atuais, sem se inteirar ainda de todas as liberalidades reprimidas de seu tempo que poderia liberar no nosso.

Para além do tempo

Retomando a questão levantada à Dante na Poetria, é a vez de Pessoa perguntar a Wilde se ele achava que chegaria vivo ao século de Ana, conversando também com o tempo dela.

— O tempo da Ana é pouco para mim — , responde o irlandês, com empáfia. — Eu sou imortal, de todos os tempos. Como você, como Marilyn, como Dante — , continua ele. — Já este outro… humpf! — , interjeita ele, reticente, com os olhos no Umberto Eco ainda vivo de Celso. — Não sabemos ainda, porque está no mundo dos vivos. Vamos ver se sobrevive quando chegar até aqui.

O que Wilde parecia querer dizer é que eles, que já se foram, tem a certeza que passarão. E nós, que ainda somos, talvez passarinho!?

As garrafas de vodca, que iam pela metade quando eles chegaram aqui, se esvaziam, enquanto Eco, neurastênico e ranheta, ainda remoe com Celso o porque de o contista entrar justamente em O Nome da Rosa e não Na Ilha do Dia Anterior ou do dia seguinte — ele já nem sabe mais qual é o título correto da própria obra — , sem entender que o coitado chegou na ilha naquele dia, qualquer que seja. E nem sempre, como agora, se pode ir e voltar para frente e para trás no tempo, para o dia anterior ou o dia seguinte.

Pessoa, romântico e boêmio, ao saber que Marilyn Monroe pedira ao seu ex-marido que depositasse flores sobre o túmulo dela todos os dias depois de morta, pergunta se a atriz considera as palavras que Ricardo escreve como flores oferecidas sobre sua lápide.

— É até mais que isso — , responde. — As flores precisam ser trocadas. As palavras ficam.

— E estas ainda são do lácio, incultas e belas — , finaliza, poético, Umberto, mostrando intimidade com a nossa língua.

Tabacaria

Mas um homem entrou no Bar do Pudim (para comprar Pudim?), e a realidade plausível caiu de repente em cima de mim. A gente se aprofunda no universo das outras pessoas, mas sempre chega a hora de voltar à primeira.

Semiergo-me enérgico, convencido, humano, e vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário, para mostrar que sou sublime. Quando a máscara não está apegada à cara, é sempre possível tirá-la e se ver no espelho, ainda que se tenha envelhecido.

Assim, o repórter se prepara para voltar, seja lá de que lugar e de que pessoa escreva. Mas antes, Umberto Eco ainda tem tempo de se lamentar mais uma vez. Por trás da pessoa do Pessoa, achava ele, deveria haver um repórter investigando como é que a arte, o ludismo e a criatividade podem alterar a vida de diferentes tipos de pessoas: uma arquiteta, uma designer, um antropólogo e um agrônomo.

— Eu ainda não vi a pergunta, nem a resposta à altura disso — , diz ele.

Ao que, parafraseando sua própria Pessoa, o repórter responde:

— É possível fazer a realidade de tudo isso, sem dizer nada disso. — Ao que quer dizer: é possível falar de tudo isso, sem falar de nada disso. Para mostrar o jogo, bastou entrar no jogo.

Tudo aconteceu numa noite qualquer, de um dia útil de semana, entre um expediente e outro, em volta de uma mesa, entre pessoas e livros. Uma história mais eloquente do que qualquer matéria.

Pontos de Fuga

É Marília, a arquiteta, contista, terceira pessoa de Dante, quem vem redundar e arrematar a questão, para quem ainda precisa:

— A vida nos põe na perspectiva. Pés na linha de terra, olhos na linha de horizonte. A arte te dá os pontos de fuga. A linha de terra é sempre a linha de terra. A linho do horizonte é sempre a linha do horizonte. Nada disso você consegue mexer — , explica ela, saindo do transe e voltando a si. — Só o que muda é a perspectiva, a localização dos pontos de fuga. Quanto mais você se afasta, mais campo se abre. Quanto mais longe estão os pontos de fuga, mais horizontes você tem.

Em outras palavras: fuja, horizonte-se, amplie-se. Ser uma pessoa só!?

Humpf! É para poucos.



Blog do Rômulo Zanotto

Literatura | Jornalismo Literário

Rômulo Zanotto

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Escritor e jornalista literário. Autor do romance "Quero ser Fernanda Young". Curitiba.

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