Homem traído mancha de vermelho a neve curitibana

Por Nelson Rodrigues (mentira!)

Rômulo Zanotto
Dec 16, 2016 · 5 min read

Foi no dia 23 de julho de 2013. Lembro-me disso não porque fosse um destes aficionados por nomes, datas e horários, ou porque tivesse um calendário às mãos quando isso aconteceu. Mas sim porque foi a neve a primeira coisa que senti bater em meu rosto depois disso, depois que Ana me deixou.

Ilustração: Nicholas Pierre — "Cândido"

Nos dias que se antecederam a este, eu havia andado querendo sair às ruas e encontrar inspiração para escrever alguma coisa definitiva como uma música de Chico Buarque ou uma crônica de Nelson Rodrigues. Mas como, sendo curitibano?

Eu não tinha, como Chico e os cariocas, uma mulher sacudindo às seis horas da manhã e fazendo tudo sempre igual e estas coisas que diz toda mulher. Curitiba só oferece a atmosfera mofada de seus dias nublados. O máximo que pode acontecer é tropeçar-se nos poemas de Leminski, nas canções de Alice, nos cenários de Dalton, nos livros de Cristovão e nos Jabutis dessa gente.

Depois de oito anos, eu havia me tornado um estanho para Ana. E como Ana não falava com estranhos, no final já passávamos a maior parte do tempo calados. Até que. Dia 23 de julho, foi do céu e desta eterna nuvem cinza que me veio esta história. Definitiva, como eu queria. Definitiva como uma música de Chico Buarque ou uma crônica de Nelson Rodrigues.

A cidade era Curitiba, o ar era frio, o ano era 2013 e as horas em oito. Eu sentia sabia queria que nosso casamento estava para naufragar, embora não quisesse. Há alguns dias vinha me preparando para o pior. Eram na hora de dormir e de acordar os piores momentos. No primeiro, com medo que fosse abandonado. No segundo, com medo que já tivesse sido.

A previsão de neve para aquele dia era para as oito. Coloquei o relógio sete e quarenta e cinco porque não queria perder o início. Deixei a cortina aberta, para o caso de já ter começado quando eu despertasse. Às 7:45 pude ver, pela fresta da janela, uns finos pingos frios de água gelada, congelada, que já se confundiam com minúsculos flocos de neve. Mas o protagonista seria eu.

Ainda sem olhar para o outro lado, o lado de Ana na cama, entornei o braço para trás e apalpei o lado de lá. O lado dela. O lado de Ana na cama. Desde pequeno, sempre tive esse medo absurdo de ser abandonado durante a madrugada por aqueles que amava. Primeiro a mãe, depois as outras, agora Ana.

E naquela manhã de 23 de julho, meu coração palpitou mais forte ao entornar o braço. Ana não estava lá. Eu acordei. Não tem ninguém ao lado. "Adriana Calcanhotto", pensei. Virei-me rapidamente, esqueci os flocos da neve que via pela janela e comecei a procurar por entre as dobras do lençol. Algo, alguma coisa, alguém que desse conta daquele sumiço. Revirei, revirei e revirei. E ao revirar, percebi que os lençóis estavam quentes. Fosse o que fosse que tivesse acontecido — um abandono, uma morte, uma angústia — , ela não teria ido muito longe.

“Os lençóis estão quentes”, repeti antes de sair procurando no banheiro: não estava. Na cozinha, não estava. Nos outros cômodos, não estava. Saí porta afora, desci as escadas do apartamento correndo e chorando, correndo e chorando, correndo e chorando, correndo e chorando. Perguntei ao porteiro cadê Ana? Ele disse: Ana está nevando. Ele queria dizer que Ana estava olhando a neve, mas ao invés disso disse "Ana está nevando". Ri. Achei graça. Era de uma poesia aquilo, “Ana está nevando", mas não havia tempo para isso. Saí correndo prédio afora, subi correndo a rua procurando— o que era mesmo que ele procurava? — Ana!

Até que. Na esquina com a Brigadeiro Franco, encontrei. Ela pegava um punhado de neve, jogava para o alto, deixava cair no próprio rosto e ria. Ria, ria, ria. Ria com um sorriso lindo que só ela tinha. Pegava um punhado, jogava, caía e ria. Eu olhei para aquilo, para a imagem daquela mulher linda brincando na neve feito criança, e meu ideal de vida perfeita novamente sorriu para mim.

Me aproximei.

Ela continuava me olhando e rindo. Até que, de repente, parou. Se aproximou e parou. A esta altura, estávamos em frente à Tabacaria. Come chocolates, pequena, como chocolates, pensei. Mas não falei. Antes que eu concluísse o poema em pensamento, a voz de Ana cortou o ar, mais fria que a neve:

— Está vendo esta neve? — Era uma pergunta retórica, não precisava de resposta. Era claro que eu estava vendo, eu não era cego nem nada e ambos sabíamos disso. — Se ela for farta, contundente e robusta como deve ser o amor, caindo tanto a ponto de tornar só branco o preto e o branco destas pedras portuguesas, eu fico com você para sempre. Mas se ela continuar assim, parca, miserável, sofrível como nossa relação, eu vou para não mais voltar.

Eu não podia acreditar no que meus lábios ouviam — sim, a essa altura era com os lábios que eu ouvia. Nem Dalton seria tão vil.

"Ora, onde já se viu", se indignava ele, "condicionar um relacionamento a uma intempérie climática, fazendo nisso uma analogia miserável com o amor?" Quanta banalidade, meu Deus! Quanta superficialidade! Quanto desprezo por uma história!

Ela sabia que nevaria tão pouco e, querendo partir, aproveitou a deixa ou, ao contrário, não sabia o que fazer e, como não soubesse, ligou uma roleta russa antroposférica?

Fosse como fosse, eu queria matar aquela mulher, socar com gosto sua cara na neve, deixando que miolos e sangue e pedaços mutilados de seu corpo escorregassem depois pelos bueiros da cidade, limpando para sempre a vida e a cidade de uma mulher tão miserável, capaz de condicionar seu amor à neve.

Neste momento, uma bola de neve cresceu dentro do peito, transformando-me de vítima em algoz: parti para cima de Ana, agarrei-a pelos cabelos e, como um louco lazarento, parti sua cabeça de encontro ao meio-fio com sucessivos golpes de ódio, manchando para sempre de vermelho o preto e o branco daquelas pedras portuguesas.

No dia seguinte, A Tribuna trazia a manchete, no melhor estilo Nelson Rodrigues: "Homem traído mancha de vermelho a neve curitibana". Assinava, Nelson Rodrigues.



Originally published at www.candido.bpp.pr.gov.br.

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Rômulo Zanotto

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Escritor e jornalista literário. Autor do romance "Quero ser Fernanda Young". Curitiba.

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