Rômulo Zanotto conversa sobre Shakespeare e Macbeth com Thiago Lacerda, no Festival de Teatro de Curitiba.Dan Stulbach | Solar do Rosário | Festival de Teatro de Curitiba | 2016 (Foto: Helio Mar Karger)

Meu encontro com Dan Stulbach

Rômulo Zanotto
Nov 5, 2016 · 6 min read

Dan Stulbach também esteve em cartaz no Festival de Teatro de Curitiba com Morte Acidental de um Anarquista na Ópera de Arame, um dos teatros mais excêntricos e charmosos do Brasil. Foi um momento muito único e espetacular para o ator. Uma coroação em sua trajetória artística.

Raro porque, primeiro, a utilização da Ópera como espaço de teatro, no Festival ou fora dele, trata-se de uma rara exceção. Inicialmente programado para o Guairão, o espetáculo de Dan Stulbach, com texto de Dario Fo, foi transferido para o teatro transparente quando o Guaíra literalmente fechou suas portas para o Festival.

Desta forma, se configurou uma possibilidade rara para Dan e seus colegas de elenco: estrear no Festival de Curitiba, no teatro que deu origem ao evento (a Ópera foi construída especialmente para o primeiro Festival de Teatro de Curitiba, em 1992).

Depois que, para um homem — Dan — que chegou pela primeira vez atrasado à Ópera de Arame como estudante de teatro na primeira edição do Festival, de ônibus, para ver a peça The Flash and The Crash Days, de Gerald Thomas, depois que a peça já tinha acabado, voltar a Curitiba 25 depois como ator consagrado, conduzido pela van do Festival, para estar no centro do palco, sem perigo de atraso, para uma sessão do seu espetáculo, é sim uma coroação.

Dan Stulbach e eu, de costas | Solar do Rosário | Festival de Teatro de Curitiba | 2016 (Foto: Helio Mar Karger)

Mas bem longe de ser muso, divo ou astro moderno, a excitação, a satisfação e o entusiasmo de Dan Stulbalch com o teatro continuam os mesmos da época em que era estudante. Para além de protagonista, ele se sabe um agente do teatro e entende o Festival pela importância sistemática e abrangente que tem: ponto de encontro, reflexão e discussão sobre o fazer teatral. São dez dias em que o teatro se estende para fora dos palcos, em Curitiba.

Simpático, o ator se entrega ao papo pelo prazer do encontro, pelo prazer de estar ali, pelo prazer da conversa. “É bom conversar com o jornalista, com o crítico, com o outro ator", comenta ele. "Nós geralmente nos encontramos muito pouco. É bom estar aqui, fazer parte disso, encontrar as pessoas. Não só pela experiência prazeirosa de estar em cartaz no Festival, mas de fazer parte da festa, poder conversar com todo mundo que faz teatro. A gente precisa rediscutir algumas coisas, precisa ouvir, melhorar, entender.”

Junto com amigo de vida e companheiro de cena, Henrique Stroeter, os dois conversaram conosco de forma tão despretensiosa quanto pertinente.

Henrique Stroeter e Dan Stulbach. Os dois atores estiveram em cartaz na última edição do Festival de Teatro de Curitiba com "Morte Acidental de um Anarquista", de Dario Fo. | Solar do Rosário | Festival de Teatro de Curitiba | 2016 (Foto: Helio Mar Karger)

"É bom estar no Festival, não só pela experiência prazeirosa de estar em cartaz, mas de fazer parte da festa, poder conversar com todo mundo que faz teatro." (Dan Stulbalch)

Na peça, Dan Stulbach é um louco disfarçado de juiz para revisar o processo de suicídio de um anarquista. O texto, escrito pelo Nobel de Literatura Dario Fo no início dos anos 1970, pode ser visto sob a ótica do uso abusivo do poder (bastante oportuna e que encontra paralelos facilmente identificáveis no Brasil de hoje). (março/2016)

Embora tenho estreado no ano passado, a idealização do projeto começou cinco anos antes. Anterior, portanto, aos escândalos desenhados na política a partir de 2015. Até por isso, a montagem protagonizada por Stulbach e dirigida por Hugo Coelho não se preocupou, em momento algum, em estabelecer paralelos diretos entre o texto e nosso atual contexto político.

“Quando o texto é fácil, ele é atual e você sempre acha um jeito de direcioná-lo para a contemporaneidade”, afirma Henrique, entrando na conversa. “Ele foi montado na Inglaterra há quatro anos atrás, inspirado na morte do brasileiro Jean Charles, que morreu no metrô”. E, “nos Estados Unidos, foi inspirado em Guantânamo”, completa Stulbach.

“E não é que eles fizeram inspirado naquilo, mas o público começa a ver paralelos e estabelecer correlações entre o texto e a sua realidade”, retoma Henrique.

Ao que Dan completa: “Aconteceu de a peça ganhar um ar mais corajoso e de maior altitude do que a gente imaginava, graças à realidade política. A satisfação de estar no palco dizendo algo, de alguma maneira, só me traz mais felicidade. Não no sentido panfletário, mas no sentido discutir, de refletir. Isso, hoje em dia, é algo raro, porque as pessoas trazem, vendem e compram certezas.”

Henrique Stroeter, Dan Stulbach e eu | Solar do Rosário | Festival de Teatro de Curitiba | 2016 (Foto: Helio Mar Karger)

"A satisfação de estar no palco dizendo algo só me traz felicidade. Não no sentido panfletário, mas no sentido de discutir, refletir. Isso, hoje em dia, é algo raro, porque as pessoas trazem, vendem e compram certezas." (Dan Stulbach)

“Muda o entendimento da peça a cada semana, quando determinada coisa aconteceu”, conta Henrique. “Há uma cena com a polícia, por exemplo”, continua Dan. “Houve uma época em que São Paulo teve uma cena de violência policial. As pessoas pensaram que a gente colocou a cena na peça por causa do fato, e não era. Depois esta interpretação passou, porque o escândalo também passou. A plateia está mais ou menos atenta para determinados acontecimentos. E isso muda.”

O que dizer então da ironia de vir interpretar, em plena “República de Bumbumritiba”, um juiz protagonista, louco, julgando um anarquista, durante o maior Festival de Teatro do país?

“Pois é. E quando é que você imaginou que um juiz teria tanta importância? Que a gente ia saber o nome dos juízes?”, redargue Dan.

Como tenho feito em todos os encontros durante o Festival, pergunto sobre a questão da brasilidade definida pela curadoria como um dos vetores da mostra. Onde estaria — se é que estaria — a brasilidade da montagem de Dan, nos moldes discutidos por Guilherme Weber nestes encontros.

“Há uma encenação profundamente brasileira no nosso caso”, defende Dan. “São atores brasileiros que se juntaram para fazer teatro do seu jeito. No encontro, no improviso, na brincadeira, na curtição. Há uma certa dança, uma certa música absolutamente brasileira. E não somos nós que falamos, mas pessoas que viram a peça, como o Antônio Fagundes. As pessoas falam: essa é a montagem mais brasileira, mais autêntica, mais nossa", finaliza o autor, procurando as palavras.

Ainda depois, cruzaria novamente com Dan pelos corredores do café e, inquieto como todo bom artista, ele diria: “acho que ainda não consegui responder sua pergunta.”

(Foto: Helio Mar Karger)

“São atores brasileiros que se juntaram para fazer teatro do seu jeito: no encontro, no improviso, na brincadeira, na curtição. Há uma certa dança, uma certa música absolutamente brasileira." (Dan Stulbach)

Dan Stulbach virou escândalo teatral — no sentido de virar notícia, virar fenômeno — no início dos anos 2000, quando atuou ao lado de Tony Ramos no espetáculo Novas Diretrizes em Tempos de Paz.

Antes disso, já tinha estado do Festival como plateia (naquela ocasião do ônibus atrasado e do espetáculo perdido) e como operador de luz.

Depois do sucesso, veio novamente, também com Henrique, numa participação que ambos definem como inesquecível no Guairão: “Nós temos um vídeo disso, uma ovação, as pessoas não paravam de aplaudir, um aplauso celebratório”.

“Desta vez, assim que terminou a temporada do espetáculo em São Paulo, mandei um e-mail para a produção do espetáculo: Precisamos participar do Festival de Curitiba”, conta Henrique.


Literatura | Jornalismo Literário

Rômulo Zanotto

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