Maria Alice Vergueiro | Palco do Teatro da Reitoria | Festival de Teatro de Curitiba | 2016 (Foto: Lex Kozlik)

Meu encontro com Maria Alice Vergueiro

Rômulo Zanotto
Nov 8, 2016 · 8 min read

Queria começar este texto com algum adjetivo ou qualidade para Maria Alice Vergueiro: “A maravilhosa Maria Alice Vergueiro” ou “A estupenda Maria Alice Vergueiro” ou “A diva Maria Alice Vergueiro” ou “A não-sei-quê-lá Maria Alice Vergueiro”, mas nenhum adjetivo cabe na atriz. Maria Alice é icônica e inominável.

Em 2016, fez sua participação antológica no Festival de Teatro de Curitiba. Iconoclasta até o fim, continua ultrapassando e transcendendo todos os limites: da vida, da morte, do teatro. Em duas sessões seguidas de Why the Horse? — teatro também inominável como ela, mas ao qual as pessoas chamam de happening pela necessidade de chamar de alguma coisa — a atriz encenou o próprio velório.

Se você acompanhou o Festival pela Revista One, sabe que aconteceu todos os dias, no Solar do Rosário, um encontro entre jornalistas, artistas e gente de teatro. Como sempre acontece em todo grande encontro, algumas figuras fundamentais não puderam comparecer. Maria Alice Vergueiro foi uma delas. Mas se a montanha não vai até à One, a One vai até a montanha.

Fomos atrás da atriz para um encontro exclusivo. E onde mais ela poderia estar, senão no palco?

Encontramos com ela no palco do Teatro da Reitoria, minutos antes de "sua morte" (da encenação dela). Maria Alice falou com muito carinho e deferência sobre Vera Holtz (capa da nossa edição que estava nas bancas), sobre a resiliência em fazer o espetáculo e sobre o suposto AVC que sofreu. Mas, sobretudo, fez muito silêncio.

Acompanhamos com exclusividade o ensaio que antecedeu as duas sessões seguidas do espetáculo, na última edição do Festival, e fomos gentilmente recebidos por Maria Alice e parte da companhia: o dramaturgo Fábio Furtado e o mais longevo amigo da atriz, o também ator Luciano Chirolli.

Os três nos receberam pronta e gentilmente no mesmo palco onde, duas horas mais tarde, a atriz daria as mais consistentes provas de se reinventar até a morte, fazendo, até hoje e até o fim, apenas isso: teatro.

Da esquerda para a direita: Maria Alice Vergueiro, eu, Luciano Chirolli (ator) e Fábio Furtado (dramaturgo), no palco no Teatro da Reitoria, antes das duas sessões seguidas de "Why the Horse?" no Festival de Teatro de Curitiba | 2016 (Foto: Lex Kozlik)

Maria Alice fez do teatro sua vida e, agora, faz da sua morte, teatro. Cúmplice e voyeur, assisto, da terceira fila da plateia, na poltrona C7, o ensaio. Não escolho o lugar aleatoriamente. É o lugar marcado no meu ingresso, logo mais à noite. Assim como Maria Alice ensaia a morte, também eu ensaio o futuro.

Enquanto assisto ao ensaio, revisito a trajetória da atriz: Maria Alice esteve em cena na histórica montagem de O Rei da Vela, de Zé Celso, em 1967. De lá para cá, participou também de boa parte da história do teatro brasileiro, especialmente aquelas mais vanguardistas.

Guilherme Weber, no encontro que tivemos, a descreve como "uma atriz anárquica, vanguardista, revolucionária, que dedicou a carreira a abrir portas para que artistas como nós tenhamos hoje liberdade estética, de pensamento, de expressão, de opinião. Ela é a concretização de todas as metáforas.”

Mas, se você é mais jovem, também conhece Maria Alice Vergueiro como “a mulher do Tapa na Pantera, lembra? "Senta aqui, toma um chá… Senta aqui, toma um chá!"

Parafraseando as últimas palavras da atriz em Why the horse?, isso significa que "até Maria Alice foi engolida pela mediocridade?" Não. Nem de longe.

Incapaz de conceder concessões, Maria Alice não seria meme se não fosse pela mesmo iconoclastia com que sempre teatralizou. Transgredindo, anarquizando, tirando do lugar o juízo das pessoas.

Neste caso, do Tapa na Pantera, foi a precursora em causar na internet o primeiro rebuliço entre realidade e ficção: seria um relato ou seria um roteiro as confissões daquela mulher que fumava há 32 anos, todos os dias, e não era viciada?

Como se vê, Maria Alice veio se embalando pelo tempo, se inventando em diferentes linguagens. Mas se reinventou também nas que já existiam. Reinventou o teatro, por exemplo, onde segue encenando até a morte.

Ao centro, Luciano Chirolli e Maria Alice Vergueiro, ladeados por Robson Catalunha e Carolina Splendore | Ensaio de “Why the Horse?”, em cena que me lembra uma citação de “Quartett”, de Heiner Müeller: “Trouxe espelhos para que possas morrer no plural” | Teatro da Reitoria | Festival de Teatro de Curitiba | 2016 (Foto: Lex Kozlik)

Ao longo do século XX, o teatro perdeu o seu caráter espetaculoso e político. Aquela aura que os espetáculos tinham nos tempos em que Maria Alice começou a fazê-los. O teatro foi se tornando intimista, umbilical, uterino. No lugar das grandes discussões sociais e políticas, passou a promover um encontro do espectador consigo mesmo, um retorno às origens, ao íntimo, ao umbigo, ao útero.

Maria Alice veio junto. Em Why the horse?, como rezamos no sétimo dia, revira e encena a própria morte.

Entrego, então, um exemplar da última edição da Revista One, com Vera Holtz, amiga de Maria Alice, na capa. A atriz fica maravilhada: com a revista e com a amiga. “A Vera sempre foi uma pessoa muito generosa, muito alegre. Olha o sorriso que ela tem”, conta ela, apontando para o sorriso lindo da amiga na capa.

Maria Alice contempla a edição 17 da Revista One, com a amiga Vera Holtz estampada na capa (Foto: Lex Kozlik)

Se iconoclastia não tivesse limites, eu chegaria dizendo “senta aqui, toma um chá.” Mas não chego. Ainda que eu esperasse encontrar uma Maria Alice mais afiada, sei que a irreverência tem limites. E este limite, talvez, seja próximo da morte.

— O que você gostaria que não acabasse junto com a sua morte? — , começo eu, então.

Silêncio.

— O sorriso da Vera. A alegria da Vera, eu queria que se perpetuasse —, responde ela.

Durante a conversa, Maria Alice segura apertada uma imagem de Nossa Senhora na mão esquerda. Ganhou naquele dia, da diretora de cena do espetáculo.

Devoção é a palavra que eu usaria para definir a forma como Maria Alice segurava a santa. Mas talvez fosse uma percepção falsa do gesto, galgada na interpretação errada da intenção dos músculos dela. Foi muito difícil, às vezes, durante a conversa, discernir entre a verdadeira intenção dos gestos de Maria Alice e a minha interpretação deles. O corpo dela intencionava, o tempo todo, mentiras.

— E o que você queria que morresse, que sumisse pra sempre junto contigo?

Silêncio de novo. O colega, Luciano, reforça a pergunta:

— Vou insistir, porque essa até eu quero saber: o que você queria que acabasse junto contigo?

Silêncio. Desta vez, a resposta não vem. Maria Alice não sabe. Ou finge que não sabe, não quer responder, não sei. Nunca saberemos.

Muitas vezes, durante a entrevista, Maria Alice pareceu se fiar na sua condição para não responder minhas perguntas. Por não querer, por não saber, por não entender. Será que aqui — na vida — como — no teatro, na internet — , não importa também saber a diferença entre não querer, e querer e não poder, ou querer e não saber? Entre o ser e o não ser?

Desisto da pergunta e parto para outra:

—É verdade que a senhora teve um AVC durante os ensaios?

Eu havia lido ou sabido que a atriz (o que o dramaturgo Fabio me confirmou depois ser verdade, por e-mail) dissera que o AVC tinha sido seu laboratório para o espetáculo.

— Há quem diga que eu tive — , responde ela. — Mas há controvérsias.

— Por quê há controvérsias?

— Porque eu não me lembro.

Maria Alice respondia com precisão a minha pergunta. A cabeça dela, já não mais afiada como eu pensara encontrar, não corria mais nas mesmas direções, fazendo as mesmas conexões, as mesmas sinapses e cognições ágeis que a minha.

— Eu penso que foi… — continua a atriz, reticente. —Você, que me acompanhou mais de perto — , pergunta ela, se dirigindo para Luciano — acha que eu tive um AVC?

— Os sintomas de um princípio de isquemia — , responde Luciano, com precisão. — Mas a tomografia não acusou e, como a Maria não pode fazer ressonância magnética por causa de um neurotransmissor que ela tem no peito — , continua ele— , ficamos sem um diagnóstico definitivo.

Por isso é que que há controvérsias: pela ausência de diagnóstico, não de memória.

Voltando à Maria Alice, eu, nervoso, pergunto:

— Qual a maior dificuldade em fazer o espetáculo?

Ao que a atriz responde, bem mais otimista do que eu, dando o tom que eu deveria ter me valido para a pergunta:

— Eu não sinto dificuldade. Eu sinto uma tentativa de superar as dificuldades — , responde.

Maria Alice Vergueiro, segurando a imagem de Nossa Senhora com a mão esquerda, comigo ao fundo | Teatro da Reitoria | Festival de Teatro de Curitiba | 2016 (Foto: Lex Kozlik)

Parte da provocação em montar esta peça vem do desejo de Maria Alice de morrer em cena. “Uma metáfora para morrer fazendo aquilo que você gosta”, afirma Fabio Furtado em outro momento da conversa. Ao que Zé Celso Martinez Corrêa teria respondido: "vai tentando que um dia você consegue".

O que está em jogo na peça é a representação, o teatro, o jogo de cena. Mas, tendo em vista o desejo de Maria Alice, perguntei a ela qual seria o melhor palco para se morrer. "Teatro Oficina", pensei que ela responderia. Não foi.

SESC Anchieta — foi a resposta.

— E nós vamos estar lá — conta Luciano para mim, relembra para ela.

— Vamos? — , pergunta ela, surpresa, voz brilhando com a descoberta, visivelmente maravilhada. Como se vislumbrasse um insight, uma epifania. Como se descortinasse diante de si a possibilidade de alguma coisa. A alegria de voltar ao SESC? De encenar a morte lá? De morrer ali?

— Vamos! — Confirma Luciano.

— Eu gostaria.—Retoma ela, fazendo uma pausa antes de finalizar, não deixando claro, com isso, do que gostaria.

— De estar presente. — Finalmente finaliza.

A resposta subverte o próprio desejo da atriz: o que verdadeiramente almeja já não é mais simplesmente morrer em cena. Mas sim conseguir chegar sempre até o palco seguinte. O desejo de esgarçar a vida para caber mais uma pouco.

“Com sorte, pode ser que a atriz morra em cena, caso contrário, estará de volta no dia seguinte.” (Frase de divulgação do espetáculo)

A provocação de uma das frases de divulgação do espetáculo — “com sorte, pode ser que a atriz morra em cena, caso contrário, estará de volta no dia seguinte” — parece fazer ainda mais sentido em momentos como este, quando a atriz circula por várias cidades do país através do projeto Palco Giratório.

Além disso, o projeto parece ser o correspondente perfeito da roleta russa para as pretensões de morte da atriz: morrer num palco.

Perfil da minha silhueta assistindo ao ensaio de "Why the Horse?" da poltrona C7, no Teatro da Reitoria | Festival de Teatro de Curitiba | 2016 (Foto: Lex Kozlik)

À noite, eu estaria de volta ao teatro para assistir o espetáculo. A poltrona C7, na qual eu fiz o meu ensaio, nunca se repetiria. O palco tem duas pequenas arquibancadas de cada lado, na qual alguns espectadores são convidados a se sentar. Mais uma vez, tive o privilégio de estar no palco com Maria Alice. Desta vez, em cena.

Para ver como é a vida: por mais que se ensaie, a estreia é sempre mais surpreendente. Até a morte, tudo é teatro.

C7… Humpf!

Blog do Rômulo Zanotto

Literatura | Jornalismo Literário

Rômulo Zanotto

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Escritor e jornalista literário. Autor do romance "Quero ser Fernanda Young". Curitiba.

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