Thiago Lacerda e Rômulo Zanotto |Solar do Rosário | Festival de Teatro de Curitiba | 2016 (Foto: Moyses Vaz)

Meu encontro com Thiago Lacerda

Rômulo Zanotto
Nov 7, 2016 · 7 min read

Estrelada por Thiago Lacerda e Giulia Gam, Macbeth esteve em cartaz no Festival de Teatro de Curitiba. Dirigida pelo brasileiro radicado em Londres — e agora em Nova York — Ron Daniels, a montagem compunha a mostra Repertório Shakespeare.

Na mostra, duas produções do mesmo autor — Macbeth e Medida por Medida compartilham o mesmo elenco e a mesma equipe de criação, num projeto idealizado por Ron Daniel e pelo próprio ator.

Assistimos o espetáculo na noite de estreia e conversamos com Thiago na manhã do mesmo dia, no Solar no Palco. Thiago, que também já produziu e protagonizou Hamlet ao lado de Ron Daniels, começa contando quem é o diretor.

O Diretor

“É o Ronaldo Daniel, de Niterói”, ri Thiago Lacerda. “Eu conto essa história e as pessoas se divertem.” Ronaldo Daniel fundou o Oficina com Zé Celso, aos 19 anos. Participou de O Rei da Vela e ainda com 19 foi para a Inglaterra estudar inglês, porque era de uma família de origem inglesa. A passagem de volta para o Brasil estava marcada para o dia 5 de abril de 1964. No dia 31 de março, estourou o golpe. “Ele ligou para o Brasil e o Zé Celso disse: fica aí que deu merda! Ele ficou”, conta Thiago.

Três meses depois, o hoje diretor havia conseguido emprego como ator em uma companhia inglesa, da qual migrou tempos depois para a Royal Shakespeare Company. Primeiro como ator, depois diretor. “Virou Ron Daniels por causa disso”, conta Thiago a gênese do nome. “E ao contrário do Geraldo, ele gosta de ser Ronaldo”, ironiza Thiago, em referência à Gerald Thomaz. “Ironias à parte”, continua ele, “hoje o cara está radicado em Nova York. É uma figura extremamente importante, um cara que conviveu intimamente com o teatro shakespeariano durante mais de 20 anos.”

Thiago Lacerda, em cartaz no Festival de Teatro de Curitiba com “Repertório Shakespeare” (Foto: Moyses Vaz)

Repertório Shakespeare

A ideia de produzir Shakespeare em dose dupla surgiu durante a temporada de Hamlet. O principal objetivo com aquela montagem tinha sido o de fazer com que as pessoas entendessem a obra. “Existe uma aura de erudição sobre a obra do Shakespeare que não é à toa, mas ela foi atribuída ao longo dos séculos”, explica Thiago. “A gente entende que isso atrapalha um pouco as histórias. Cria-se um véu, um filtro em cima do que Shakespeare simplesmente quer dizer.”

De acordo com o ator, em Hamlet o trabalho deles foi investigar a trajetória do personagem e fazer com que ela fosse levada ao público da forma mais simples possível. De acordo com ele, conseguiram. “Tínhamos um retorno do público dizendo: Pô, eu entendi o ser ou não ser!” Neste instante, perceberam que era importante continuar com isso, fazer isso com um novo espetáculo.

Então Ron Daniels perguntou a Thiago qual Shakespeare ele gostaria de montar. O ator respondeu Macbeth. Thiago fez a Ronaldo a mesma pergunta. O diretor respondeu Medida por Medida. Então Thiago simplificou, complicando: “vamos fazer as duas!” Ronaldo respondeu: “vai ser uma loucura”. Thiago finalizou: “Então vai ser bom! Tudo que é louco é bom, intrigante.”

O ator acredita que isso, de observar a dualidade da tragédia e da comédia, sobre a obra de um mesmo autor, sob o olhar de uma mesma companhia, é instigante e inquietante para eles e para a plateia. “E nessa inquietação, você tem oportunidade de dar ao público, Shakespeare.”

A Linguagem

Conversamos sobre a universalidade, claro, e a atemporalidade da obra de Shakespeare, e sobre a pertinência de sua obra. “Nenhuma montagem é em vão. Tudo que contém as histórias que esse cara escreveu são absolutamente pertinentes. Enquanto houver um ser humano pisando no chão do planeta, Shakespeare será moderno.”

Eu digo que concordo, mas que daí a montá-lo, como escrevi na crítica a outra montagem de HamletUm Processo de Revelação, apresentada no Festival, são outros quinhentos. Se não houver a pertinência da linguagem teatral agregando ao texto, como não houve naquele espetáculo, não há porque encená-lo.

Partindo desta premissa, pergunto a Thiago o que ele considera que justifica e legitima as montagens oferecidas por ele e Ron Daniels. O ator considera, com razão, que o simples fato de juntar “a dialética do gênero, a tragédia e a comédia, numa mesma jornada, é, por si só, interessante. Eu não pude assistir a este espetáculo quando ele esteve em cartaz no Rio de Janeiro, mas eu imagino que seja um exercício a respeito da obra. E nosso objetivo é o oposto: a gente não quer fazer um exercício sobre a obra, a gente quer contar a história.”

(Foto: Moyses Vaz)

Teatro Popular

Despreocupado com erudições e intelectualidades, Thiago só quer é que “João e Maria entendam a trajetória deste homem. Os desdobramentos intelectuais da peça são enormes, mas a rigor, eles só servem para a gente [atores, criadores]. Na hora em que você entra em cena e diz para a plateia: Imaginai, as pessoas têm que entender o que você está dizendo. São 400 anos. Já inventaram a roda sobre esta história. Então, de que forma a gente ajuda a contá-la? De que forma a gente abre mão da vaidade pessoal de tentar descobrir um jeito maravilhoso de contar aquilo pela primeira vez? Fazer isso de forma simples, objetiva, limpa, tirar tudo que não interessa.”

Thiago cita como exemplo a montagem de Hamlet por ele e Ron Daniels. Lembra de ter chegado ao diretor com a preocupação de como fazer e “hó — dramático! — Hamlet!”. Ronaldo disse: “Não é nada disso. É só a história de um menino doente que recebeu uma missão do pai e não sabe o que ele faz.”

“O que a gente faz é muito bonito”, finaliza Thiago. “Tem alcances verticais. De que maneira pegar lá de baixo e trazer para as pessoas para que elas entendam, não que elas fiquem maravilhadas? O que a gente faz é teatro popular”. Como Shakespeare fazia.

Ensaios

Pergunto a Thiago como eles organizaram os ensaios, se ensaiaram primeiro uma depois a outra, se alternavam os dias, se misturavam. “A gente tinha esse dilema, a gente não sabia o que ia acontecer”, começa ele. “Nem o próprio Ronaldo. Então a gente decidiu não se preocupar. Começamos o processo de leitura, líamos as duas peças — terminávamos uma, começávamos outra –, no dia seguinte ficávamos em uma o dia inteiro… A rigor, durante o processo, o que mais aconteceu foi que fazíamos uma peça por dia, mesmo que não fosse a peça inteira. Mas aconteceu de, numa parte do dia, a gente trabalhar numa, e depois do intervalo, passar para outra.”

O ator e produtor conta que lidavam com as alternâncias de forma bem natural, a ponto de, no final, fazerem uma cena de um espetáculo, outra cena de outro, sem problema algum. Ainda de acordo com ele, foi isso que fez com que hoje entrem em cena e façam as duas peças no mesmo dia, de maneira natural, sem nenhum problema com isso. Como foi no Festival de Curitiba.

Antônio & Cleópatra

Nessa de começar o dia ensaiando uma e terminar com outra, pergunto a Thiago se eles não acabavam digredindo e resvalando numa terceira. Ele ri e diz que não. Mas acrescenta que ele e Ronaldo não vão parar por aí no que se refere às montagens de Shakespeare. “A gente quer muito — não sei se será, mas a gente quer muito — Antônio e Cleópatra. Sem previsão de nada.”

Foi uma noite e tanto

Para terminar em tom de paráfrase, conto a Thiago que duas frases muito marcantes da peça, para mim, pela simbologia que carregam, são: “O que está feito, está feito” e “sai, mancha maldita, sai, eu disse” — e que na tradução do espetáculo dele e de Ron Daniel são um pouco diferentes — , pergunto quais as frases favoritas dele. Aproveitando para falar um pouco da frustração que gera quando a sonoridade da tradução é diferente daquela grafada na memória auditiva do espectador, Thiago diz que uma das frases que ele mais gosta é “foi uma noite e tanto!”, proferida por Macbeth logo após a noite do assassinato.

“Outra que eu amo”, continua enumerando ele, “é o início da peça, a primeira fala de um homem, à exceção das bruxas, quando o rei pergunta: que homem é esse, todo coberto de sangue?

(Foto: Moyses Vaz)

E durante a conversa, ao contrário dos ensaios, onde não se resvalava numa terceira obra, Thiago recorre à Hamlet e a outras frases de abertura das obras do autor inglês para ressaltar a abrangência das palavras e dos significados em Shakespeare: “A frase mais linda de Hamlet é a primeira: quem está aí?. Quem está aí é simplesmente a maior pergunta sobre a espécie humana já feita. O cara iniciar uma história com essa frase é de uma coragem, de uma ousadia, de um brilhantismo. É claro que ele não fala para a plateia, mas ao mesmo tempo também é para a plateia, é para ele próprio, é para o fantasma que está ali, é para o Hamlet. É um resumo dos conflitos da contradição humana em uma única pergunta, que abre a peça.”

“Aliás”, acrescenta ele, “eu amo as primeiras frases de Shakespeare”.


Blog do Rômulo Zanotto

Literatura | Jornalismo Literário

Rômulo Zanotto

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Escritor e jornalista literário. Autor do romance "Quero ser Fernanda Young". Curitiba.

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