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Tuca Andrada e Rômulo Zanotto | Solar do Rosário | Festival de Teatro de Curitiba | 2016 (Foto: Helio Mar Karger)

Meu encontro com Tuca Andrada

Rômulo Zanotto
Nov 6, 2016 · 5 min read

Como tão bem definiu Dan Stulbach em outro de meus encontros, o valor do Festival de Curitiba se estende para muito além dos palcos, pelos encontros que promove. Encontros como este, no Solar no Palco, que aconteceu todos os dias durante o evento, no Solar do Rosário, onde imprensa e realizadores tiveram a oportunidade de grandes conversas, com gente fina, elegante e sincera.

Em meio ao marasmo de opiniões rasas, que migram com facilidade do pensamento inócuo à boca, é muito bom ter a oportunidade de conversar e ouvir gente como a de teatro, que problematiza, aprofunda, discorda, transgride. Do encontro com Tuca Andrada, por exemplo, pernambucano, diretor do espetáculo Nordestinos, saíram respostas que deveriam ser lidas por todos e repensada por alguns.

A montagem conta a história real de vários nordestinos recebidas através de cartas, e-mails e entrevistas. São pessoas que deixaram sua cidade natal para realizar seus sonhos no Rio ou em São Paulo. O elenco do espetáculo, embora vivam e trabalhem no Rio, é todo nordestino.

Tuca começa falando em migração, para concluir com a única coisa da qual todos nós devemos fugir, segundo Tuca: "a noção de que nós somos o progressos, eles são o atraso.”

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Tuca Andrada, diretor do espetáculo "Nordestinos", que esteve em cartaz na última edição do Festival de Teatro de Curitiba (Foto: Helio Mar Karger)

Eu vi o mundo… Ele começava no Recife!

Cícero Dias, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Luiz Gonzaga, Glauber Rocha, Nelson Rodrigues, Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Daniela Mercury e João Gilberto. Ufa! Estes são alguns dos nomes que conferem ao país inteiro sua nordestinidade.

Foi a partir de uma constatação como esta — a legitimidade da contribuição nordestina para o restante do país — que Tuca Andrada propôs uma questão para o seu elenco: “Por quê é que um povo que têm uma contribuição cultural tão grande para a formação do país”, pergunta ele, “é considerado atrasado? Só por causa de uma questão econômica? Esse povo não é atrasado. Se você contribui para a formação cultural de um país, você é rico também. Rico igual a qualquer outro estado do sudeste. Isso é um preconceito, uma ignorância, uma coisa que vem há séculos sendo incutida na cabeça das pessoas daqui do sul e do sudeste, que nós somos o estorvo desse país. O que me incomoda muito”.

Pergunto a Tuca se ele chega a redarguir este tipo de comentário, ou se a forma de rebater o discurso é montar uma peça como esta.

“É montar uma peça como esta. Às vezes, eu pergunto: vocês já comeram Acarajé? Já namoraram ouvindo Caetano Veloso? Já foram pegar sol em alguma praia do nordeste?”, enumera ele. “Por que é que vocês querem separar? Qual a razão? Qual o atraso? Por causa de uma indústria de dez famílias, uma indústria da seca, que mantém milhões de pessoas na misérias e só elas ganham dinheiro? E todo um povo que tem uma contribuição maior para este país — maior econômica até, já que a questão é sempre essa — paga pelo roubo, pela escravidão que essas famílias propõe. Talvez a miséria econômica que existe no nordeste seja uma miséria imposta. Porque alguém ganha dinheiro com isso, pode ter certeza”, conclui.

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(Foto: Helio Mar Karger)

“Por quê é que um povo que têm uma contribuição cultural tão grande para a formação do país é considerado atrasado? Só por causa de uma questão econômica? Se você contribui para a formação cultural de um país, você é rico também.” (Tuca Andrada)

Conversamos sobre como é mais fácil, para a massa falida, acreditar que extirpar é melhor do que aprender o convívio com o diferente. “Conviver com a diferença é algo muito difícil”, analisa o ator e diretor. “A migração, no mundo inteiro, está se confrontando com isso. Pessoas que saem de sua terra por causa de um desastre natural ou porque houve uma Guerra. Precisam ir, muitos nem querem. É um preconceito bobo, uma ignorância que a gente precisa combater. Eu, como artista, tenho que fazer isso. Como artista nordestino, principalmente. Mas eu não me considero um artista nordestino, eu me considero um artista brasileiro. Eu sou a soma de todos esses povos, eu não sou só o nordeste. Eu sou o Amazonas, eu sou o Rio Grande do Sul, Minas, eu sou tudo.”

Com alegria, para nós e para ele, Tuca conta que o espetáculo deve passar por todos os estados brasileiros, “principalmente naqueles que têm mais forte esta tendência separatista”. Ele acredita poder contribuir, com isto, para que o Brasil “vire uma coisa melhor. Não é dividindo que a gente vai transformar. A transformação da gente se dá em outro nível”, finaliza.

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(Foto: Helio Mar Karger)

“Eu não me considero um artista nordestino, eu me considero um artista brasileiro. Eu sou a soma de todos esses povos, eu não sou só o nordeste. Eu sou o Amazonas, eu sou o Rio Grande do Sul, Minas, eu sou tudo.” (Tuca Andrada)

Para muito além da identificação regionalista, muita gente que não é nordestino se emociona com o espetáculo. “Porque a gente não está só falando disso. A gente está falando de migração, movimento. O que estes movimentos trazem de rico para um, o que eles empobrecem nos outros.”

O diretor também fugiu da vitimização, para não cair na onda do Cristo na cruz: “Não queria que ficasse um sentimento de coitadinho do nordesteOlha como eles sofreram, vieram… A gente sacaneia com a agente mesmo, com o sotaque, com os nomes que nossos pais inventam para a gente. A gente brinca, para não ser uma coisa amarga, porque não está na hora de ser isso. A gente precisa voltar a se gostar mais.”

Nordestinos é bairrista, sem ser ufanista. Porque, segundo Tuca, é disso que estamos fugindo, é disso que temos que fugir. Essa deve ser a verdadeira e única migração: a da ideia de que “nós somos o progresso e eles o atraso”.

A gente precisa voltar a se gostar mais, não repete o entrevistado, mas eu repito por ele.

Blog do Rômulo Zanotto

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