Foto: Minas Stratigos | Flickr

Por uma Ausência Assimilada

Rômulo Zanotto
Dec 19, 2016 · 5 min read

Por muito tempo achei que ausência é falta

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

Ausência é um estar em mim.

E sinto-a tão pegada, aconchegada em meus braços,

Que rio e danço e invento exclamações alegres.

Porquê a ausência, esta ausência assimilada,

Ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

O que fazer quando algo ou alguém que supúnhamos grande de repente acaba? Esta pergunta surgiu para mim há muito tempo, quando de minha primeira leitura do conto "Os Dragões não conhecem o paraíso", de Caio Fernando Abreu. No conto, o garoto que me contava a história — e que esqueceu de me dizer seu nome e idade — falava de como ficara sua vida depois que o dragão que ele teve um dia o abandonara.

Registro fotográfico da II Mostra Cênica Caio F. | São Paulo | 2016

As coisas se resolveriam mais fáceis se falássemos aqui da morte do dragão, e não de sua partida. Se assim fosse, é bem provável — e tenho quase certeza disso — que essa crônica nem estaria sendo escrita. É que quando um dragão morre, você se dói na alma, chora, vai ao funeral, ao enterro, depois volta para casa e continua chorando e se doendo por um tempo ainda. Mas sabe que a morte é inevitável, portanto normal. E sabe que, tendo o dragão deixado de existir, você NUNCA MAIS poderá tê-lo, de forma que não nutrirá, assim, esperanças de que o telefone chame, um carro pare ou a campainha toque.

Mas quando o dragão não morre, apenas se perde de você? Quando o dragão permanece vivo, só que sem ti? Quando a morte que acontece não é essa morte inevitável, e sim um outro tipo? Uma morte anormal (como a chamou o mesmo Caio em outra ocasião) cuja dor é exatamente a mesma da anterior, só que maior, porque nela ainda se poderia ter o dragão, já que ele continua existindo. O que há a fazer quando o que se têm é este tipo de morte?

É certo que a vontade de passar bem devagarinho um instrumento pérfuro-cortante sobre os pulsos ou de dormir um sono desconfortável com a cabeça no fogão à gás irá passar. Depois disso, então, duas atitudes poderão ser tomadas por aquele ou aquela que foi abandonado pelo dragão: a identificação com a falta que ele lhe fará ou a assimilação de sua ausência.

Os que se identificam são aquele tipo que se julgam “jurados a morrer de amor”. Aqueles que, tendo perdido seu dragão, não conseguem gerar energia de si mesmos para continuar vivendo. Acreditam que “um dragão é para a vida toda” e se perguntam qual seria a graça se, na vida deles, um dragão se sucedesse ao outro. É por isso que preferem viver eternamente na nostalgia e na melancolia após a partida dele, se esforçando mesmo para que todos os seus pensamentos sejam permeados pela presença do dragão. E quando por alguns instantes conseguem se esquecer de lembrar dele, logo estão se punindo por tamanho lapso. Adoram, nessa fase dark depressiva pós-partida-do-dragão, ouvir Bethânia. Utilizam este repertório como um mecanismo que aciona em si esse sentimento melancólico que eles tanto se orgulham de estarem sentindo.

Se o vizinho de um deles perde seu dragão e logo lhe assimila a ausência, ele certamente pensará não passar de um simulacro. Ou, ainda, dirá que o vizinho só consegue deixar-se em paz depois de sua partida porque o dragão que ele tinha não era tão legal quanto o seu ou porque o vizinho não amava o dele tanto quanto ele ainda o ama o seu (esse tipo sempre pensa que ama mais que os outros).

Já os que assimilam a ausência — formulei esse pensamento depois de ouvir a história daquele garoto — são aqueles que, nos primeiros dias, também se doem e choram e gritam e chamam pelo dragão vagando pelo apartamento vazio. Mas logo deixam de sentir sua falta. Não saudades ou lembranças — ainda que estas sejam doídas — , apenas a falta é que não sentem.

Para que isso aconteça, é preciso perceber que nada deixou de existir só porque o dragão decidiu não gostar mais de você — ainda que as coisas tenham ficado, ou aparentem ter ficado, mais tristes após sua partida. Então, é necessário descobrir novos jeitos de se viver essas coisas que continuam aí, só que sem ele, sem melancolia, sem nostalgia. Descobrir como navegar com um mínimo de dor, já que não lhe resta mais nada — pois “tudo, sem ele, é nada”, como disse o garoto (e eu o corrigiria dizendo que tudo, sem ele, apenas parece, de início, ser nada) —, exceto continuar vivendo.

Não é preciso negar ou ignorar a existência do dragão, nem querer acreditar que ele é um monstro mal-e-feio. Não precisa também impedir que se fale dele porque isso lhe dá calafrios, deixar de frequentar os mesmos lugares que ele para não encontrá-lo ou abortar os pensamentos e as lembranças que o tragam imbuído nelas. Para se chegar a essa ausência assimilada, ao contrário, é necessário deparar-se de uma vez com isso tudo, a fim de que, súbito, doa tudo o quê há a doer. Como alguém que sofre as quatro ou cinco primeiras vezes em que vê uma foto ou revisita a casa de alguém que amava e morreu, mas logo estará conformado, pois aquela ausência, ele sabe, é IRREMEDIÁVEL. E assim chegamos ao ponto e ao clichê: o que não tem remédio…

Quando um dragão parte, portanto, ainda que não reste a quem foi abandonado nenhuma excessiva aflição de ser feliz e que a ele lhe pareça sentir quase sem sentir, o melhor que se tem a fazer é debruçar-se sobre a partida do dragão, para aos poucos tentar compreendê-lo. Uma compreensão que cada vez menos tente ser sedutora a ponto de convencê-lo a voltar, e que cada vez mais ajude a si próprio a renascer. Para que a morte de quem foi deixado, esta sim, possa ser remediada.

Praia do Paraíso | Mosqueiro — PA

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Escritor e jornalista literário. Autor do romance "Quero ser Fernanda Young". Curitiba.

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