Momentos aprisionadores e como fugir deles

Louis Rosenfeld
Nov 1, 2019 · 12 min read

Estou apresentando esta palestra no Interaction Latin America 2019 em Medellin, Colômbia. Nunca dei uma palestra que tivesse sido escrita como artigo; deve ser, hum, interessante convertê-la em uma apresentação. (Aqui está o artigo original em inglês; aqui está em espanhol.) Obrigado a Paula Azevedo Macedo por sua ajuda na tradução.

Disclaimer: Eu não sou um físico e nem mesmo designer. Mas nesta palestra, vou falar muito sobre tempo e espaço e como, de alguma forma, eles se ferram e ferram os designers.

Não é de se surpreender que a maioria de nós tenha dificuldade em entender as teorias da relatividade de Einstein. Elas exigem que ampliemos nossa compreensão de como o tempo funciona, mas o fato é que nem nos damos conta do quanto esse antigo conceito de tempo de Newton guia nossas vidas.

Quando você adiciona espaço ao tempo, as coisas ficam mais confusas. Veja o cálculo, por exemplo. Você precisa disso quando tenta fazer coisas (como navios de guerra), atingir coisas (como outros navios de guerra) com outras coisas (como balas de canhão). Todas elas coisas estão em movimento ao mesmo tempo, e isso é difícil de entender. Artilheiros: meu respeito à vocês!

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A Batalha de Jutland: vivendo e morrendo com cálculos em tempo real, sem computadores. Uau.

Nós, humanos, também somos notoriamente ruins em entender as consequências de nossas ações, e isso também pode ter algo a ver com nossas dificuldades com o tempo. É difícil pensar no futuro quando mal podemos compreender o passado. Nossas memórias de curto prazo são facilmente distraídas e nossas memórias de longo prazo são famosamente defeituosas.

Quando pensamos seriamente sobre o futuro, usamos ferramentas como análise preditiva, baseadas no pensamento probabilístico, que também é muito difícil para a maioria das pessoas entender. Mesmo quando somos confrontados com dados firmes do passado e previsões sólidas do futuro, a história inevitavelmente desmente esses dados.

Por exemplo, você se lembra da famosa história sobre como a banda dos anos 80 Van Halen se recusou a ter M & Ms marrons nos bastidores? Ela continua a servir, décadas depois, como o exemplo do padrão que mostra como as estrelas do rock realmente são.

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A famosa lista do M&M, do Smoking Gun.

O fato é que isso não prova nada. O Van Halen usou essa cláusula em seus contratos para garantir que os locais das apresentações prestassem muita atenção aos requisitos da banda, muitos dos quais abordavam questões críticas de segurança. Mas preferimos acreditar na narrativa de que as estrelas do rock são idiotas insuportáveis, mesmo quando somos apresentados a fatos que sugerem que eles são realmente empresários espertos. Muitos de nós aplicamos esse mesmo racional sobre evidências quando confrontados com dados que preveem eventos futuros, como as mudanças climáticas por exemplo.

Não tenho a pretensão de ser bom em cálculo (desisti no Ensino Médio), em pensamento probabilístico, em interpretar evidências ou em manter minhas lentes narrativas sob controle.

Eu, como a maioria das pessoas, entendo que precisamos plantar bandeiras — para fixar momentos — que nos ajudam a navegar pelo redemoinho doido do universo em seu contínuo espaço-tempo. Momentos são como pacotes pequenos e digeríveis de tempo e memória. E eles são úteis: podemos lembrar o suficiente sobre nossos momentos para entender nossas experiências. Esperamos que eles fluam em uma sequência organizada, do passado para o presente e para o futuro, até que acabem.

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Billy Pilgrim, o herói do romance clássico de Kurt Vonnegut, Matadouro Cinco, vive momentos muito diferentes: ele se torna “solto no tempo”. Seus momentos fluem de maneira imprevisível e não linear. Momentos passados, presentes e futuros acontecem simultaneamente. (É um viagem, e se você ainda não leu o livro, faça isso agora.)

Billy sabe que está solto no tempo e aprende a entender que sua experiência precisa de um arco narrativo. O resto de nós, por outro lado, está preso no tempo. Esperamos que nossos momentos sejam alinhados de maneira organizada e ordenada, para revelar as experiências de nossas vidas, para contar nossas histórias. Na realidade, não funciona assim, porque não somos bons em trabalhar com o tempo. E somos péssimos em lembrar como os momentos devem ser sequenciados, o que realmente aconteceu em cada momento e quais momentos merecem ser lembrados.

Pior, quando confrontados com as memórias ruins e nossa incapacidade de entender a coisa — o arco de nossas experiências— as empacotamos em pequenas coisas: nossos momentos. Essas pequenas coisas são simplesmente muito minúsculas, e, por si só, muito limitadas para revelar algo significativo.

Momentos são prisões.

Como nos libertamos das prisões momentâneas para entender melhor nosso mundo, nossas vidas e nosso trabalho?

Hoje, abordarei alguns momentos aprisionadores que limitam nossas carreiras. Como alguém que é autor e editor, meu conselho é principalmente sobre palavras e como se defender delas.


Primeiro, vamos falar sobre como definimos o que fazemos.

Você provavelmente é jovem demais para lembrar o que foi percebido como a morte da arquitetura da informação. E isso significa que você é jovem demais para se lembrar de quando a IA estava em seus dias de glória, antes de sua suposta morte, 15 a 20 anos atrás. Depois de co-escrever este livro, pude experimentar essa glória em primeira mão.

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Foi lançado em 1998. As pessoas leram no momento em que sabiam que o que estavam fazendo ia além do que chamamos de ser um “webmaster”. Eles só não tinham a palavra certa. O livro foi lançado e, de repente, as pessoas ficaram empolgadas: havia uma palavra para o que faziam. E essas pessoas começaram a se chamar “arquitetos da informação”.

Bandeira plantada. Viva!

No entanto, quase imediatamente, o termo “arquiteto da informação” tornou-se um momento de prisão. Era tão imperfeito que os arquitetos da informação rapidamente entraram em dois campos. Pesquise sobre “pequena IA e grande IA”, e você entenderá o que quero dizer. A “Pequena IA” tinha a ver com metadados e taxonomias, enquanto que a “ Grande IA” tinha a ver com sistemas e experiências. Aparentemente, essas coisas não poderiam coexistir e, eventualmente, o pessoal da “Grande IA” se separou, alguns se reformulando como designers de UX, outros como designers de interação. Isso levou a muito atrito e muita cara feia. As pessoas até brigaram por isso — o suficiente para acabar com amizades.

Muitas pessoas me perguntaram se eu estava triste com o “morte da AI”. Não sei porque. Talvez eles pensavam que isso significava que AI era um fracasso? Ou talvez que eu fosse um fracasso? Não importa. O único aspecto negativo, na minha opinião, foi ter ouvido 15 anos de pessoas lamentando a “morte da AI,” simplesmente porque o uso do cargo diminuiu:

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Arquitetos de informação, desculpem: não há nada mais para vocês fazerem. Todos os problemas de informação do mundo foram resolvidos.

Agora estou ouvindo sobre a “morte do design de interação”. E veja: a trajetória do cargo “designer de interação” não é, de acordo com as evidências, muito diferente da de “arquiteto da informação”:

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Designers de interação: vocês também estão ferrados.

Aos presentes, vocês estão participando de uma conferência IxDA. Então agora vocês devem ficar deprimidos. Muito deprimidos, certo? Suicidas, talvez?

Vocês deveriam estar. Assim como vocês substituíram à nós, os arquitetos de informação, vocês estão prestes a serem substituídos pelos … “designers de produtos”:

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Os Designers de Produtos estão vindo para roubar nossos empregos.

SAUDAÇÕES À NOVA ERA DOS DESIGNERS DE PRODUTOS!

E: Oh meu Deus!

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Um título de trabalho é um momento aprisionador.

O problema aqui é que plantamos uma bandeira para criar um momento de compreensão. Para entender algo novo ou ambíguo, recorremos a definições de uma linha e a descrições de cargo de 200 palavras. Nesses momentos, criamos prisões que ainda não conseguimos imaginar. E essas prisões momentâneas vão incomodar, restringir e literalmente nos prejudicar no futuro.

Nós podemos fazer melhor do que isso. Aqui está uma ideia: primeiro, reconheça a mudança. Talvez você não precise aceitá-las, mas pelo menos esteja disposto a encará-las. Volte à coisa do tempo / espaço: tudo muda sempre. Este é literalmente o cálculo de nossa indústria em particular.

Em seguida, vamos tentar repensar o conceito de definição no cenário de mudança. O que significa definir o escorregadio? Podemos plantar uma bandeira sabendo que plantaremos a mesma bandeira repetidamente em locais diferentes? Até os pólos norte e sul mudam com o tempo. As bandeiras de Amundsen e Peary já estão erradas em pelo menos alguns centímetros. (E, aparentemente, os pólos magnéticos mudaram cerca de 2.000 km em menos de dois séculos.)

Estou tentando fazer isso com UX de duas maneiras. Ajudo a organizar três conferências de UX (e comecei outra). A cada ano, fazemos inúmeras pesquisas com usuários para determinar o “espírito” de cada tópico ou área de atuação. Em outras palavras, um programa de conferência serve como uma definição prática de seu tópico.

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Aqui está o programa da conferência para o ILA19. Dê uma olhada de perto, pois é literalmente uma definição funcional de design de interação. Daqui a um ano, será diferente — e isso é uma característica, não um bug.

Também publico livros de UX; com o tempo, eles passaram do foco no método para o conceitual e interdisciplinar. É fascinante — e, sim, definitivo — testemunhar ao mesmo tempo toda essa mudança e ver o que não mudou. As agendas de conferências e editoriais são exercícios de definição — mas são realmente úteis apenas porque sabemos, desde o início, que elas mudarão regularmente.

Os cargos e as descrições não funcionam historicamente dessa maneira. Por que isso não é possível? Sabemos que eles precisam mudar, mas nos sentimos constrangidos quando isso acontece, como se não soubéssemos trabalhar do jeito certo. Isso é desnecessário. É como ter vergonha de ser um mamífero.

Quer você perceba ou não, você está constantemente tentando se definir. Seu currículo, seu portfólio, seu conjunto de habilidades, sua tribo: tudo se tornará prisão momentânea se você permitir. Tente, em vez disso, ver essas coisas como sequências, pequenas partes de você? Isso deixará você mais confortável com a mudança?

Como editor de livros da UX, produtor de conferências de UX e autodidata de UX, posso prometer a você que abandonarei esse termo no momento em que se tornar constrangedor. Porque não quero ver a Rosenfeld Media presa em um momento aprisionador.


Vamos falar sobre outro tipo de momento aprisionador: metáforas. Aqui está um exemplo antigo: “portais”!

Anos atrás, grande parte da minha vida profissional girava em torno desta palavra. Meus clientes pediram ajuda com portais. Todos eles queriam um! Eu até tive uma oferta de serviço como testemunha especialista de defesa em um processo de US$ 17.000.000 que girava em torno da definição de “portal”. (Nós ganhamos.)

Então, o que é um portal?

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Ninguém realmente sabia. Mas todo mundo tinha que ter um! Mesmo que fosse desnecessariamente caro. E quase sempre inútil. Mas a metáfora parecia definir as coisas de uma maneira que fazia as pessoas se sentirem confortáveis. Narrativa sobre evidências. Todos literalmente queriam pagar enormes quantias em dinheiro para se trancarem em suas próprias prisões de momento!

Então, foi o que eu achei útil: eu me reunia com os clientes, sentava e fazia uma regra: proibiríamos o uso da palavra “portal”. Se eles usassem, eu pagaria US$ 1. Se eu usasse, eu jogaria $5 em cima da mesa.

Isso deixou meus clientes desconfortáveis. Afinal, eles tinham que ter um portal! Eles conversam sobre portais há meses, até anos, e estavam tão empolgados em finalmente conseguir um.

Mas a proibição os forçou a enfrentar os problemas subjacentes às suas suposições sobre portais. E então, quando entenderam seus problemas reais, descobriram que podiam realmente resolvê-los. Muitas vezes, com muita facilidade, eficácia e baixo custo.

Problemas resolvidos! E não tinha nada a ver com janelas redondas e pequenas!

Vamos tomar cuidado com metáforas, pessoal. Nós trafegamos em tantas, muitas vezes sem perceber o que estamos fazendo. O termo “arquitetura da informação” é, com certeza, uma metáfora que pode realmente nos definir. Descobri que faço o meu melhor trabalho de AI quando não o enquadro como arquitetura.

Por falar em AI, você deve ter ouvido falar recentemente sobre o desaparecimento do Instituto de Arquitetura da Informação, que co-fundei em 2002. Novamente com a morte da AI!

Eu amei o IAI. É doloroso vê-lo “morrer”. Sou grato a muitas, muitas pessoas inteligentes, gentis e generosas que se empenharam em torná-lo bem-sucedido enquanto isso. E é notável, pois sobreviveu por muito tempo, mesmo estando destinado a falhar quase desde o início.

Pouco tempo depois de iniciado, de alguma forma foi decidido que era necessário um modelo operacional reconhecível. Um que as pessoas pudessem entender. Como servia uma comunidade de profissionais, o modelo de associação profissional foi adotado — não como um modelo de negócios estrutural real, mas como uma metáfora orientadora.

O modelo de associação profissional foi criado no século XX — ou talvez no XIX? Funcionou bem em uma era de disciplinas isoladas, posse acadêmica, viagens caras e ausência de mídias sociais e software de telecomunicações barato.

Mas esses dias já ficaram para trás há muito tempo. A metáfora forneceu uma linguagem e uma estrutura de como o IAI poderia operar, mas era limitante e, finalmente, falhou. Existem muitas outras razões pelas quais o IAI fracassou, mas continuo acreditando que a maior delas foi a nossa prisão de momento criada em comunidade. Anos atrás, plantamos uma bandeira na metáfora da associação profissional e nunca a movemos o suficiente para salvar a organização.

O que seria o IAI se — desde o início — proibíssemos o uso de termos como “associação profissional” de nossas discussões de planejamento?

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A Biblioteca Pública da Internet foi uma coisa maravilhosa, mas a metáfora foi levada um pouco longe demais.

Metáforas são fogo. Elas são úteis, mas cara, elas podem “ir para o brejo” rapidamente. Como definições, eles são os tijolos e a argamassa das prisões de momento.

Em que metáforas você está se baseando para entender o mundo ou, sendo um pouco mais específico, sua carreira?

Você é um construtor? Um empreiteiro geral? Você é o condutor da sua equipe? Ou seu psicólogo? Todos esses são conceitos úteis, mas só levarão você até certo ponto. Portanto, respeite suas meias-vidas. Crie o hábito de reavaliar essas metáforas. Frequentemente. Talvez uma vez por ano, como quando você vai ao dentista. Na verdade, faça isso enquanto estiver sentado nessa cadeira — você pode precisar de uma boa distração.


Para finalizar, voltarei a abusar do meu conhecimento mínimo de física — neste caso, mecânica quântica.

Quando se trata de entender a complexidade, parece que as regras do universo estão contra nós. No nível quântico, entendemos o material do universo como se comportando como partículas. Ou como ondas. Mas nunca, sempre com os dois ao mesmo tempo, de acordo com o Princípio da Incerteza de Werner Heisenberg.

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Princípio da Incerteza de Heisenberg, para aqueles que entendem ideias através de fórmulas.

Momentos são as partículas de nossas memórias. Histórias que se desenrolam com o tempo são as ondas. Nós somos muito bons no primeiro, e péssimos no segundo. Isso tem que mudar.

Quando se trata de entender a complexidade de nós, precisamos levar em consideração o tempo e o espaço, os momentos e o momento. É hora de abandonarmos nossas prisões momentâneas, começarmos a aceitar a mudança e a nos familiarizar melhor com os propulsores da mudança: princípios, crenças e incertezas deliciosamente desconcertantes. Precisamos explorar o cálculo das narrativas, das cadências sobrepostas, da passagem sinuosa do tempo que experimentamos juntos como seres humanos.

Vamos parar, como profissão, de desperdiçar nosso tempo discutindo sobre prisões momentâneas — especialmente sobre definições e metáforas. Isso é desperdício de energia que poderia ser gasto resolvendo os enormes problemas que nosso planeta precisa que nós, como designers, resolvamos agora.


Independentemente disso, não exagere na “prisão de momento”. Não queremos que esse momento se torne … uma prisão.

Obrigado.

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