O Segundo Dia de Natação

São Paulo, maio de 2004

Várias vezes durante a noite acordei, tateei o relógio, acendi a luz e via que ainda era muito cedo. Estava com medo de perder a hora. Finalmente às 5h30, lá pela décima nona vez em que olhava as horas, levantei-me. Estava escuro ainda. Tentei não fazer muito barulho pois a casa estava cheia novamente. Pensei em fazer a barba e desisti. Faço amanhã.

Arrumei a mochila: toalha, xampu, óculos de natação, touca, desodorante, sabonete, sapato, calça, cueca, camisa, meia. Tudo pronto. Chave do carro, carteira. Beijo na mãe. Elevador. Ops, esqueci o cinto. Voltei. Elevador, casa, cinto, beijo na mãe, elevador, garagem. Cadê o crachá? Mais uma viagem elevador, casa, crachá, beijo na mãe, elevador, garagem, carro, rua.

O dia começava a clarear, a cidade vazia. Eu e mais uma meia dúzia de carros nas ruas. Uma névoa forte tomava conta de São Paulo. Quando passei por cima da ponte Cidade Jardim senti-me no topo do mundo, andando sobre as nuvens. Nada via além dos cinqüenta metros. Na Marginal Pinheiros mal conseguia saber se o rio ainda estava lá. Nem mesmo os prédios que ali estavam todas as manhãs eram visíveis.

Sentia-me em Londres. A Foggy Day in London Town*, com Michael Bublé era a música que eu ouvia. Fazia poucos dias que havia descoberto mais essa voz e ainda estava fascinado com a sonoridade. Faltava só o frio. Esperava ansiosamente pelo inverno que não chegava.

Dois dias atrás eu havia voltado para as piscinas. Eu pago academia há vários meses, mas somente semana passada dei-me conta de que era preciso realmente ir até lá e fazer alguma atividade para emagrecer. Só pagar não estava adiantando nada. Decidi-me e fui. Tive um retorno triunfal às piscinas. Nadei naquele dia a fantástica marca de 1.200 metros. E, jurei a mim mesmo que voltaria ali, dia sim, dia não. É bem verdade que a maioria dos amigos apoiou tal atitude. Porém, como são as pessoas assim são as criaturas e dois deles ainda não acreditam. Geração incrédula e infeliz! Tentam me tentar o tempo todo, e dizem ainda que no máximo nadei 12 metros! Não duvido que eles tenham algo a ver com o que aconteceu.

Mesmo com a névoa e falta de visibilidade cheguei ao shopping onde está a academia em vinte minutos. São os mesmos dezoito quilômetros que percorro até o Complexo Empresarial acrescidos de mais dois!

Eu estava entrando, ainda fascinado com a tecnologia nova (não sei o quão nova pois como disse fazia muito tempo que não comparecia). Agora não era mais preciso carteirinha. Basta colocar o polegar no leitor ótico e pronto. O computador mostra sua foto, seus dados e abre as portas da tortura, digo, da academia para você.

Acabara de entrar quando ouvi minha instrutora de natação dizendo que não conseguiu avisar-me. Mas, na noite anterior, os azulejos da piscina se soltaram. Ela ficaria interdidada por tempo indeterminado. Veja o que a inveja é capaz de fazer! Os dois que não acreditavam que eu era capaz de nadar 1.200 metros devem ter algo a ver com isso.

Porém isso também pode ser um aviso divino. “Não exercicitarás”, me diz o Senhor através destes acontecimentos. “Muita coisa está por acontecer, veja os sinais que lhe envio.”

Acho que é melhor escutar e nunca mais pisar em uma academia.

*O sucesso do primeiro CD de Michael Bublé e seu incansável ano de turnê mundial elevaram esse nativo de Vancouver de 20 e poucos anos a ser considerado um dos melhores artistas da atualidade. Seu segundo álbum segue a mesma linha do primeiro. Michael Buble tem um estilo eclético que mistura perfeitamente o estilo de Sinatra, na música “I’ve got you under my skin” com músicas que seguem o padrão mais pop como “A Foggy Day In London Town”, de Gershwin, entre outras. Produzido pelo várias vezes vencedor do Grammy David Foster, It’s Time tem destaques como a reedição de “The More I See You”, produzido pela lenda do jazz Tommy LiPuma, juntamente com preciosas reedições de faixas especialmente selecionadas, incluindo o standard de Nina Simone “Feeling Good”, o clássico de Marvin Gaye “How Sweet It Is”, o pop italiano “Quando, Quando, Quando” (num dueto inesquecível com a cantora Nelly Furtado), “Song For You”, de Leon Russel e o antológico “Save The Last Dance For Me”.

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