Rotina — O Primeiro Dia
São Paulo, Brasil, 27 de março de 200

“No princípio Deus Criou o céu e a terra.” Gn 1, 1
Abro a janelinha do avião e lá está ela no céu. Brilhava, reluzia, tudo iluminava. A lua de Nizan, a lua cheia da Páscoa. Voltava de Passárgada em um vôo noturno, avião lotado, o aeroporto de partida apinhado de gente, pessoas se despedindo, chorando, rindo. A maioria embarcava com uma bagagem de mão especial, sacolas cheias de ovos de Páscoa.
Eu também levava os meus. Queria poder esquecê-los, perdê-los, mas a vontade de quebrar o regime e devorar o chocolate que estava ali em um mágico formato oval, era muito maior. Eu não esperava ganhar ovo algum, mas não poderia desapontar aqueles que tão amavelmente me deram ovos. E, enquanto guardava cuidadosamente meus ovos no bagageiro acima da poltrona pensava esperançosamente que a companhia de aviação iria distribuir ao menos um ovinho.
O vôo atrasou, como era de se esperar em um final de domingo, ainda mais um domingo de Páscoa. Mas, depois da partida foi bem, sem maiores problemas, a não ser o fato de nenhum ovinho, nem mesmo um bombom ter sido distribuído junto aos votos de uma Feliz Páscoa. Achei um absurdo.
O capitão anunciava que iríamos ficar uma outra meia hora no ar, pois o “espaço aéreo” de Congonhas estava congestionado. Fiquei olhando a lua que boiava sobre a cidade de São Paulo, alheia a tudo o que lá embaixo se passava, e muito provavelmente a cidade também não reparava no imenso satélite que flutuava.
Autorização para pouso concedida, avião na linha da pista, aterrissagem, freada brusca, curva em alta velocidade, outra freada, taxiamento e pronto, estávamos no finger do aeroporto de Congonhas. É, agora tem “finger” — aqueles tubos que ligam a porta do avião ao terminal do aeroporto.
Desço a escada rolante que dá acesso ao salão de desembarque e tenho uma visão do inferno. Parecia que metade da cidade havia decidido passar o Tríduo Pascal fora e voltavam todos naquele exato instante. O visor mostrava que eu, e os outros cento e vinte passageiros do mesmo vôo, deveríamos retirar nossas bagagens na esteira B. O problema é que havia uns oito vôos que deviam pegar suas bagagens na esteira A, outros seis na esteira C e mais sete na esteira B. E todos estavam ali.
Invejei mais uma vez aquelas pessoas que conseguem viajar com uma pequena bagagem de mão. Mas como ir passar duas noites fora sem uma mala? Como será que conseguem colocar TUDO em uma mochilinha? De qualquer forma tentei chegar à esteira B. O problema é que os outros novecentos passageiros estavam tentando chegar na esteira A, alguns que já estavam tentavam sair com suas bagagens e carrinhos, outros simplesmente eram levados pela multidão. As malas não paravam de rodar pelas esteiras e ninguém conseguia chegar até elas, elas se acumulavam, caiam aos pés dos passageiros, uns gritavam, outros riam e outros choravam. Eu só pensava na lua, lá no céu, quietinha, calma. Será que eu podia voltar pro avião? A terra definitivamente não era meu lugar. Pelo menos não aquele pedaço de chão ali onde nem chão se via.
Algumas horas depois chego em casa, cansado e zonzo. Aquele torpor típico de início de gripe me envolvia. Ainda acessei a internet, baixei e-mails, conversei um pouco no Messanger e tomei um remédio forte que derruba qualquer gripe.
Tentava dormir, olhava para aquele ovo de chocolate na estante, ele olhava pra mim. Uma vontade imensa de ser consumido, de desaparecer e quando vi, estava lambendo os dedos sujos de chocolate derretido.
Voltei pra cama, rezei, pensava no dia seguinte, seria o primeiro dia de trabalho novo. E, toda a ansiedade que não tinha tido, toda a preocupação e agonia do novo vieram tomar conta de mim. Paralisado fiquei. Não conseguia parar de pensar no dia que viria e quando vi era dia já tinha vindo. Um novo dia.

