Rotina — O Quarto Dia

São Paulo, Brasil, 30 de março de 2005

“E Deus disse: ‘Façam-se os luzeiros no firmamento para separar o dia da noite; sirvam eles de sinais e marquem o tempo, os dias e os anos; Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o quarto dia.” Gn 1, 14–19

Preparei a mochila, coloquei toalha, sabonete, óculos e touca de natação, xampu e a roupa do dia seguinte. Afinal um novo tempo exigia uma nova postura quanto às atividades físicas. E, no dia seguinte acordaria mais cedo, não pegaria trânsito, iria a uma velocidade média de cinqüenta quilômetros por hora até a academia ao lado do complexo onde trabalho e seria feliz e magro.

Detesto dormir com luz e muito menos acordar com o quarto todo iluminado, luz do sol batendo no rosto, nem o grasnar nem o dobrar dos pássaros nos meus ouvidos. Ainda bem que em São Paulo é difícil o dia amanhecer reluzente, e já eram quase oito horas da manhã quando senti o sol batendo na janela do meu quarto. Simplesmente pulei da cama e vi que o caminho era um só, longo e engarrafado. Corri para o banho, do banho para o guarda-roupa, vesti qualquer coisa e fui zunindo desenvolvendo a incrível velocidade de dezoito quilômetros por hora para o complexo empresarial.

Sequer me lembrei que havia perdido a aula de natação, mas e daí? Já pago a academia mesmo, será que tenho também de freqüentá-la? Isso é demais!

Cheguei esbaforido na sala, aquelas escadas rolantes nunca me pareceram tão lerdas, longas e cheias de pessoas presas aos degraus móveis, os elevadores nunca foram tão distantes das escadas e não demoravam tanto para chegar ao térreo. Mas, por sorte, meu chefe ainda não havia chegado. E, se existe algo que aprendi nestes vinte anos de trabalho é que só chega atrasado quem chega depois do chefe.

Uma vez aliviado e respirando normalmente, consegui ligar a máquina, acessar os e-mails, e notar que, embora tudo fosse bom, faltava algo ainda. Eu não tinha acesso a tudo o que precisava. E, não conhecia tudo o que precisava conhecer para exercer minha função. Na verdade eu só sabia que nada sabia. Relaxei um pouco, pois sei que seria um bom chefe se continuasse assim, pois só são promovidos os que nada sabem, pois assim atrapalham menos. Outra lição aprendida nos vinte anos de trabalho.

Aos poucos foram aparecendo uns e outros e me explicavam uma coisa e outra. Eu agradecia exteriormente e praguejava interiormente. Assim minha carreira ficaria comprometida, eu não queria saber tudo aquilo. A ignorância é algo tão bom, tão inocente e tão incompreendida. Mas não queriam me deixar ignorante. Por mais que eu me esforçasse vinham sempre me dando umas informações úteis e que me impeliam a trabalhar.

Passei mais da metade da manhã conversando em espanhol com um colega que já estava trabalhando por ali fazia uns cinqüenta anos e conhecia do trabalho como ninguém mais jamais conheceu. Claro que aprendi nada do trabalho dele, mas meu espanhol melhorou consideravelmente. Espero ter mais lições assim, já marquei uma para amanhã e vou tentar utilizar bastante o passado perfeito. Durante a pausa que fizemos para o café fiquei imaginando como seria interessante se tivesse ali também um francês, um alemão e um chinês para me darem aula, quer dizer, ensinarem-me a entender o trabalho…

Fui almoçar no hiper-mercado que fica ao lado do complexo, ou faz parte do mesmo, ainda não sei bem ao certo onde é o início e o fim das coisas por ali. Só sei que o almoço é horrível por lá. Barato, mas horrível. Voltei correndo, pois teria de sair mais cedo nesta quarta-feira. Todas as quartas e quintas-feiras eu tenho aula às 18h30. O problema é que a USP fica à 18 quilômetros do complexo, e as aulas são ministradas do outro lado da USP, lá depois do Portão Três. Teria de sair mais cedo, uma meia-hora mais cedo. E não é fácil sair mais cedo na primeira semana de trabalho. A gente quer mostrar trabalho e não que é folgado. Quer mostrar que está ali para o que der e vier.

Embora já houvesse falado com meu chefe a respeito das aulas sei que na hora de sair seria no mínimo desconfortável. Não levei nada para a sala depois do almoço e, exatamente as 17h28 eu fechei as gavetas, olhei cuidadosamente para os lados, sem carregar nem uma folha de papel nas mãos fui calmamente até a cafeteria, tomei um copo de água demoradamente. Voltei por outro corredor e, sorrateiramente saí para o hall dos elevadores. Perfiz o caminho inverso da manhã até o estacionamento, porém com calma e tranqüilidade.

Estudar novamente, depois de tantos anos tem sido uma experiência e tanto! É bem verdade que a primeira semana foi muito cansativa, porém foi a melhor até agora. Eles colocaram os melhores professores e doutores na primeira semana para que tivéssemos uma boa primeira impressão do curso. Afinal só temos uma chance de causar uma primeira boa impressão. (outra verdade que aprendi durante os últimos vinte anos).

Nesta quarta-feira a aula foi cansativamente exaustiva. O professor demorou quatro horas para mostrar quatro transparências, ou seja, uma média de uma transparência por hora! (estou ficando bom nesse negócio de tirar média).

Como existem pessoas com a capacidade de utilizarem tantas palavras para não dizer nada! Nada seria exagero, digamos para dizer muito pouco…

No final da quarta hora de cansaço, peguei meu possante Pálio e percorri os dezoito quilômetros até a minha casa, porém, eram 22h30 e a velocidade média foi de 54 quilômetros por hora! Que cidade maluca! Estranho isso, dezoito quilômetros da minha casa até o trabalho, do trabalho até a escola mais dezoito quilômetros e da escola até a minha casa mais dezoito quilômetros.

Percorri 54 quilômetros neste dia que são 3 vezes 18. Acho melhor nem pensar nesta numerologia ou então me especializar nisso…

Quero mais é comer algo e dormir pois amanhã tenho aula de natação logo cedo…


Originally published at gutopress.wordpress.com on July 14, 2017.

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