Rotina — O Quinto Dia

São Paulo, Brasil, 31 de março de 2005

“E Deus disse: ‘Pululem as águas de uma multidão de seres vivos, e voem aves sobre a terra, debaixo do firmamento dos céus.’. Deus viu que isso era bom. ‘Frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, e enchei as águas do mar, e que as aves se multipliquem sobre a terra.’ Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o quinto dia.” Gn 1, 20–23

Era uma confusão só. A galinha tentava atravessar a rua, os carros freavam, buzinavam. A galinha voltava, chamava o sapo e iam os dois, faixa por faixa, um cachorro latia, um pombo arrulhava, Uma multidão de pássaros apitava e o guarda de trânsito queria apitar mais alto. Uma luz forte começou tudo aquecer e iluminar. Acordei.

Mais uma vez tinha esquecido de fechar a janela antes de dormir e a luz do sol e os barulhos da rua, dos pássaros, dos cachorros, dos estudantes e todas essas coisas irritantes entraram no meu quarto e no meu sonho sem pedir licença. Era cedo ainda. Podia ir pra natação.

Mas, rituais são importantes, eu não havia preparado a mochila na noite anterior, não havia me preparado psicologicamente para uma atividade física e achei melhor ficar um pouco mais deitado. Aprontei-me e exatamente às 7h eu já estava saindo do prédio com meu carro possante.

Quem disse que não existe engarrafamento logo cedo? Quem é o bravateiro? Eu tentava fugir por aqui e por ali, mas sempre caia em um maior ainda. Quase uma hora depois, chego no Complexo Empresarial. Ainda com certo tempo consigo tomar um café e comer um pão-de-queijo.

No trabalho, ninguém ainda. Tomei dois copos de água na cafeteria e esforcei-me para lembrar os nomes das pessoas que chegariam logo, orgulhosamente consegui anotar quinze nomes, porém ao tentar associar os nomes aos lugares e fisionomias que iam chegando, mal consegui lembrar de três. O importante é que eles com certeza lembravam de mim. Afinal eu era o cara novo!

Mas a realidade é cruel. As pessoas não gostam de mudanças. Existem algumas que têm ao menos a boa-vontade de esforçar-se para mudar e aceitar a mudança. Outras, mesmo sem querer, apenas fingem que mudaram. E não é fácil ser parte da mudança!

No meu novo trabalho, estou aprendendo, de vez em quando é necessário lidar com emergências. Um cliente do outro lado do mundo pode estar sem poder utilizar os nossos produtos e a área em que estou tem de proporcionar o perfeito ambiente. Porém, pra que envolver uma pessoa nova, inexperiente, ignorante em algo urgente? Se somente um vai resolver por que envolver dois? Pra que complicar não é?

Assim torna-se difícil entrar no meio da tormenta. Principalmente quando nada tenho a acrescentar. Mas é minha função. Sou pago pra isso. Pra entrar no olho do furacão. Hoje sou pago pra atrapalhar e atrasar a solução de um problema, para que em breve eu possa ser pago para planejá-la e evitar a ocorrência do mal. E quem sabe até mesmo ser pago para gerar os problemas?

A única forma que encontrei foi estar junto o tempo todo. Junto mas distante. Tão perto e tão longe. Não olho o problema com os olhos de quem busca a solução, mas como quem quer entender como estão fazendo para buscá-la. E, no meu silêncio, vou anotando e aos poucos compreendendo como é, como não é, e talvez até como devesse ser.

Enquanto observava um ou outro problema e sua solucionática eu via também como as pessoas se comportavam com minha presença, aos poucos fui fazendo parte da paisagem, já não sabiam se eu era eu ou se era um vaso de planta, um armário, um botijão de gás talvez. A natação ta fazendo falta.

Assim chegou a hora do almoço. Alguns iriam para o supermercado, comer aquela coisa horrorosa, outros tinham aula de espanhol. (E eles ainda pagam por isso, por que não vão conversar com o meu colega chileno ali do lado? É de graça!).

Bebi dois copos de água. Fui almoçar só. Só eu e os milhares de seres que se amontoavam no imenso shopping que estava vazio e abandonado às 8 da manhã. Peguei minhas folhinhas de alface, minha rodela de tomate, um pedaço de carne, a fantástica Pepsi Twist Light e sentei-me a mesa. Sozinho.

Existem coisas que são sociais e comunitárias. Almoçar e jantar em restaurante são umas delas. Ir ao cinema, viajar, dançar, tudo é melhor em sociedade, em conjunto. Mas estas ultimas são perfeitamente aceitáveis que sejam realizadas individualmente. Afinal no cinema não ficamos conversando, durante a viagem nós podemos nos distrair com a viagem em si, é possível dançar só e só dançar. Mas almoçar em um local público, sozinho, é como se animalizar. Sinto-me como um porco sendo alimentado, um animal sendo preparado para o abate. Almoçar à mesa sozinho é ser o único jogador em jogo de tênis. A gente saca, a bola não volta nunca. Você pensa, e até fala com a cadeira vazia e a resposta não vem nunca. É preciso gente sentada ao lado. E gente que fale. Nem terminei de comer. Bebi a Pepsi. Fui embora. Amanhã vou esperar o pessoal terminar a aula de espanhol

A tarde voou. E voei para o MBA.

Chegando lá, procurei meu nome na carteira — cada dia um desgraçado coloca os nomes em um lugar diferente. Em cima da mesa um chocolate e dois copos de água de brinde. Todo dia tem um chocolate, uma barra de cereal ou algo parecido de brinde em cima da carteira. Acho que deve ser um dos colegas do curso, que trabalham em empresas de chocolates, alimentação e embalagens que leva. Ainda estou esperando os outros brindes dos outros colegas, um telefone celular novo pra cada um, um notebook, alguns produtos de limpeza, malas e bolsas de viagem, vales de compra em lojas on-line e em supermercados, latas e latas de silicone (super-útil), autopeças, latas de cerveja, gases hospitalares e o que mais quiserem entregar. Dizem que todo homem tem seu preço, o meu é um brinde! Um brindezinho!

Sem brinde, mas com um chocolate e dois copos de água consegui chegar até a hora do intervalo (ou recreio como dizíamos) quando um mega-lanche nos é oferecido de brinde!

Mais uma aula cheia de altos e baixos, alguns momentos intensos e apaixonantes, outros enfadonhos e lerdos. Mais dois copos de água e saí zunindo pela Marginal só pensando na minha casa, na minha cama. Mas antes vou ter de passar no banheiro. Bebi água demais.

Carlos Augusto


Originally published at gutopress.wordpress.com on July 14, 2017.

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