Rotina — O Sétimo Dia

São Paulo, Brasil, 2 de abril de 2005

“E no sétimo dia Deus Descansou” Gn 1, 26–27.31

Eram dez e pouco da manhã quando comecei a querer acordar. Sem nem levantar a cabeça do travesseiro, deitado de lado, abri o olho esquerdo bem lentamente já mirando o relógio que fica na cabeceira da cama, desejando que ainda faltasse muito tempo para a hora de acordar. Antes mesmo de a claridade chegar aos meus olhos lembrei-me de que era sábado, o despertador não iria tocar. Eu não tinha aula aquele sábado, não faria nada. Esse era o meu plano para o dia: nada fazer.

Depois das onze resolvi levantar e tomar um banho para acordar e fazer nada em outro lugar, fui como um sonâmbulo até o banheiro, tomei banho, pela décima nona vez pensei que estava na hora de trocar a cortina do box, o sabonete estava acabando, esqueci de pegar toalha novamente.

Uma das poucas vantagens de morar só é também uma grande desvantagem: não preciso me preocupar em ter de, numa emergência como esta, ir nu até o outro quarto buscar uma toalha. Mas vou molhando o chão até lá, e depois terei de lembrar que tenho de enxugar cada vez em que eu pisar descalço no chão molhado. Adoro andar descalço em casa. Não sei pra que as pessoas gastam um dinheirão trocando os pisos frios por laminados e não aproveitam para andar sentindo a qualidade do piso. Isso é maximizar o investimento feito!

Depois de enxuto vejo a cama ainda desarrumada, e ela vai ficar assim até quarta-feira quando a diarista vier, na verdade minha diarista é noitista. Uma trabalhadora de verdade: trabalha de dia em uma empresa e a noite das 17h às 22h fazendo faxina, lavando, passando, organizando, arrumando a cama dos outros. Enfim, a cama estava ali, eu aqui em pé vestindo uma camiseta e um short, não resisti, me atirei novamente e fiquei lá em estado de semivigília por mais uma meia hora.

Tomei coragem e fui até a cozinha preparar um café. Abri a geladeira e quase fui sugado pelo vácuo que era lá dentro. Vazia. Apenas uma garrafa de água pela metade, uma lata de Fanta Uva Light que eu havia trazido de Passárgada e os restos de batata e cebola.

Fechei a geladeira com uma tristeza infinda, me lembrava que quando criança sempre quis entender como funcionava aquela luz lá dentro. Ela se apagava quando a porta da geladeira se fechava? E como ela sabia que a porta estava fechada? Estes mistérios da humanidade sempre nos perseguirão. Mas a fome era maior do que a vontade de meditar sobre o assunto. Abri os armários e tinha apenas Miojo, Arroz e pó de gelatina. Não ia dar certo isso…

Fui pra sala assistir um pouco de TV. Na estante um último ovo de Páscoa olhava para mim. Mas aquele eu havia comprado para o filho de um amigo, era um ovo dos Incríveis… Mas estava incrivelmente delicioso. O Thiago não vai sentir falta, deve ter ganhado muitos ovos, e, afinal a Páscoa já havia sido há quase uma semana.

Deitei-me no sofá assistindo um seriado, como era incômodo aquele sofá. O sono foi me rodeando… Eu pensei em ir para a cama pois aquele sofá duro ia acabar me machucando. Eu queria levantar-me e ir para o meu quarto, mas o torpor que tomava conta do meu corpo era mais forte do que a vontade de deitar-me em um local macio, escurinho, silencioso… Acordava e dormia, via um pedaço da série, comia um pedaço do ovo, caia prostrado na poltrona. Como é bom poder descansar…

O balanço que eu fazia da semana enquanto tentava acordar era de que tinha sido uma semana muito boa, cansativa e repetitiva. Uma rotina. Mas uma rotina intercalada por fatos, momentos, pessoas, gestos inéditos a todo instante. Eu vejo como uma constante novidade, intercalada por pedaços de rotina, uma maravilhosa rotina.

O telefone tocava, a vontade de esperar a secretária eletrônica atender e depois, bem depois, talvez retornar a ligação foi vencida. Era um amigo com quem eu havia combinado de almoçar em um restaurante japonês dizendo que já estava pronto. Em cinco minutos estava pronto e com meu possante carro dirigia-me ao Brooklin. Tentei pela última vez falar convidar uma amiga de nós dois para o almoço e desta vez ela atendeu. Topou. Passei pela casa dela, passei pela casa dele e depois de uma discussão de horas para decidirmos aonde iríamos, fomos convencidos pela persuasão feminina a não irmos ao restaurante japonês. Inconformados fomos para o restaurante mineiro no quarteirão de baixo. Já eram três horas da tarde. Havia uma pequena espera de quinze minutos e em meia hora já estávamos à mesa.

A tarde passou sem nem notarmos. Jogamos conversa fora, falamos bem de alguns, mal de quase ninguém, e rimos muito enquanto aquela culinária mineira engordativa e deliciosa era degustada por nossos paladares. O torresmo e a lingüiça acabaram antes mesmo de terminarmos de falar como nos conhecemos. Uma rotina, uma maravilhosa rotina. Nossos encontros sempre são assim. Lembramos de quanto tempo não nos vemos, de quando nos encontramos pela primeira vez, das viagens que fizemos juntos. De quando não fui e eles foram, mas era como se eu tivesse ido, pois já tinha escutado cinqüenta e sete vezes e ria todas as vezes.


Originally published at gutopress.wordpress.com on July 14, 2017.

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