Rotina — O Segundo Dia

São Paulo, Brasil, 28 de março de 2005

“Deus disse: ‘Faça-se um firmamento entre as águas… Deus chamou ao firmamento Céus. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o segundo dia.” Gn 1, 6–8

Como é difícil a vida do pobre. Eu já fui pobre, eu sei. Fiquei sem carro, pois tive de devolver o meu Celta novinho e limpinho para a empresa para a qual eu trabalhava até a semana passada. O novo emprego fica a uns dezoito quilômetros de casa, tem até um ônibus que sai do terminal em frente ao metrô e em apenas duas horas chega até lá.

Preferi pegar carona. Mas carona não escolhe hora nem local de embarque (pelo menos não devia). Disseram-me para estar às 6h50 em frente às Edições Paulinas. Pra quem nem tinha dormido, ainda zonzo pelo remédio e pelo sono, e ainda tinha de me aprontar para ir para o novo emprego.

Primeiro dia de trabalho, barba feita, faltava apenas escolher a roupa. Dizem por aí que depois da experiência de morte, a coisa mais estressante que existe para o homem moderno é a mudança de emprego. E, se no novo emprego não for obrigatório o uso de terno? Multiplique por cinco o estresse! O terno é a coisa mais simples e prática que já inventaram para o homem. Com dois ternos, cinco gravatas e seis camisas você tem um guarda-roupa variadíssimo que o acompanhará por mais de um ano. Agora, com sono, gripe, quinze quilos acima do peso e ainda ter de escolher uma roupa para trabalhar, é pior do que o caos do aeroporto de Congonhas em um domingo de Páscoa.

Depois de muito meditar e combinar várias camisas e calças, fiz o “mamãe-mandou-eu-escolher-este-daqui” e fui correndo para o ponto onde eu pegaria minha condução, cheguei até antes da hora.

Como sina do pobre, o dono do carro tinha de levar o carro para a revisão e tive de ir junto. Não tinha idéia do quanto eu estava mal e cansado. Já na primeira curva caí no sono. Acordei na concessionária uma hora e meia depois. Desci do carro, passei por baixo de uns carros suspensos, um japonês falando algo com uma moça da concessionária e continuei a dormir no que a concessionária chamava de sala de espera, mas nada mais era do que um sofá ao lado dos carros em manutenção. Não sei se o serviço foi rápido ou se era eu quem dormia profundamente, mas logo fui acordado e me levantei assustado sem nem mesmo saber o que fazia ali dormindo ao lado daqueles carros batidos, quebrados e suspensos.

Chegamos enfim no novo emprego. Paramos o carro em um estacionamento muito suspeito, do lado de fora do complexo e, junto a centenas de trabalhadores fomos entrando no complexo. Parecia uma cena dos anos cinqüenta, centenas de operários dirigindo-se para a fábrica, somente sem todo o glamour dos anos dourados. No saguão principal uma queda d’água quebrava a secura do concreto e três escadas rolantes, todas funcionando apenas para subir, levavam os modernos operários para o andar superior, onde, mais um conjunto de três escadas rolantes estavam à nossa espera, e no outro andar um outro conjunto de escadas rolantes onde então, finalmente, depois de andar uns quinhentos metros por um shopping com as lojas ainda fechadas, pegaríamos o elevador para o andar da empresa. Era como se estivéssemos afundados e enterrados em um local tão longe dos céus. E, aquele elevar constante nos ascendia a uma posição de trabalho nobre e superior, perto do alto.

Cheguei então ao meu local de trabalho. A recepção foi simples, mas estavam me aguardando. Uma sala novinha, cadeira ergonômica, armários e chaves, microcomputador, telefone e até cadeiras para visitas. Mas, era apenas o começo, embora o firmamento estivesse criado não havia nada. Não havia sistema operacional na máquina, não havia linha telefônica, não havia o que eu pudesse colocar nos armários.

Fui apresentado a todos, um por um, eu já estava quase decorando meu nome e função, pois os nomes e funções dos que me eram apresentados eu não guardei um sequer. Conheci as salas de reuniões, a cafeteria com máquina de fazer café, capuccino, chocolate, e todas as combinações possíveis, uma outra máquina de comprar salgadinhos e refrigerantes. Os banheiros (coisa importantíssima de se conhecer).

Voltei para minha sala, e lá fiquei. Olhava para o micro desligado, para a mesa vazia e esperava ardentemente que uma alma bondosa viesse me socorrer. Alguém viria me dizer o que fazer.

Quase na hora do almoço apareceu um rapaz para instalar o sistema operacional, conectar a rede. Meia hora depois ele foi embora e disse que assim que eu tivesse usuário e senha poderia utilizar a máquina. Sentei e fiquei ali esperando a hora do almoço. Poucos minutos antes do meio-dia o telefone começou a funcionar.

Almocei sozinho, sem saber onde comer, o que comer. Ainda anestesiado sem saber o que fazer e como iria passar o resto do dia. Voltei e sentei à minha mesa. Achei estranho, mas meu celular não havia tocado a manhã toda, pudera, não havia sinal. Fui até o banheiro e junto à janela havia umas três pessoas falando ao celular. Uma boa alma passou e me disse que ali era o celulódromo — o único local no complexo onde o celular funcionava.

No banheiro, escovei os dentes — tenho de voltar a cultivar estes bons hábitos, e já que tinha de forçar um pouco os novos hábitos, entrei na casinha e fiquei jogando no meu celular enquanto a digestão fazia efeito, afinal o joguinho não exigia sinal. Bati meus próprios recordes no jogo e na espera, então voltei para a minha mesa.

Fui e voltei até a cafeteria umas quinze vezes. Tomei quase um litro de café e decorei todos os preços dos salgadinhos da máquina. Já podia ir e vir de olhos fechados.

Pensava que seria bom se eu tivesse uns papéis para arrumar e organizar, mas nem isso eu tinha ainda. Mas é sempre bom ter muito cuidado com o que se deseja, pois o meu chefe chegou com um monte de documentos que estavam na intranet, e que, como eu não tinha acesso a ela ainda, ele havia imprimido. Que homem bom não? Teria agora um monte de papéis para arrumar nas gavetas.

Quem me deu a carona de manhã apareceu e perguntou se eu queria carona pra voltar e começamos a combinar como faríamos no dia seguinte, pois era rodízio do carro. Pensei, no ônibus, no trânsito e resolvi alugar um carro. Queria mesmo era alugar um helicóptero.


Originally published at gutopress.wordpress.com on July 14, 2017.

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