Verão em Londres

Guto Castro
Jul 22, 2017 · 10 min read

Minha cara Taminha,

Ao chegar em casa vi que havia uma mensagem sua no Google Talk do Gmail. Eu não estava on-line, havia deixado o computador ligado baixando algumas coisas da internet, por isso não respondi.

Na mensagem, você curiosa como sempre, perguntava sobre a vida em Londres no verão e eu não sei se saberei explicar com palavras, pois para entender o verão é preciso entender o que não é o verão — o que é a maioria do tempo aqui. O verão aqui pode durar de apenas algumas horas até alguns poucos meses, o que é muito diferente do verão que estamos acostumados aí em terras tropicais. Aí, talvez por termos sol e calor sempre não nos damos conta do quanto que estes dias quentes serão sentidos quando não mais os tivermos.

Londres, acredito que toda a ilha da Grã-Bretanha e a da Irlanda não vivem o verão intenso da Europa Continental, onde chega a fazer 35ºC e até 40ºC durante um período prolongado. Nessas ilhas aqui, o verão é um período onde é “menos frio” e que o sol resolve aparecer por mais tempo, os dias são bem mais longos, amanhecendo 4h30 e anoitecendo só depois das 21h30. Não necessariamente é mais quente. Mas, de vez em quando, um dia ou outro durante o verão, Londres vive um dia (ou algumas horas) de Verão Intenso! Tudo muda.

Hoje foi um dia de Verão.

Eu perdi a maior parte do dia de sol, pois estava no escritório desde às 9h. Mas quando saí de casa para a academia (é, acredite, estou indo à academia de vez em quando), eram 7h da manhã e o sol já estava forte. Notei que seria um dia diferente, pois até a semana passada eu tinha de usar um casaco e estava mesmo pensando em comprar um sobretudo. Senti até um calorzinho e as bochechas esquentarem. Mas logo cheguei na academia e de lá para o trabalho não vendo o sol até meio-dia, hora universal do almoço. Almoço por aqui é um pouco diferente, é um lanchinho. Muitos sequer saem de suas mesas. Compram um sanduíche da moça que vai vender lá no andar mesmo e comem na mesa de trabalho, lendo um livro, um jornal, acessando algo na internet. Hoje não. Todos saíram. Eu fui com um amigo até uma lanchonete onde compramos um lanche para “viagem” e nós e outros milhares de londrinos fomos até às margens do rio Tâmisa, ficamos ali próximo à Torre de Londres, de terno e gravata, comendo um sanduíche e bebendo suco enquanto o sol nos esquentava. A cidade estava mais cheia do que nunca, turistas carregando garrafas de água na mão, quiosques que vendiam apenas souvenirs até ontem agora vendiam água e água congelada! Nesse calor de 25ºC muitos estavam sem camisa, de chinelos, outras de vestidinhos e shorts como se estivessem andando por Ipanema. Mesmo trabalhadores de terno e gravata, ficavam mais à vontade e tiravam a camisa para pegar um sol.

Voltei ao trabalho, mas, assim como todos os outros no escritório, deixei o espírito lá sob o sol, tomando uma corzinha, ficávamos vigiando para ver se o sol iria embora.

Cinco horas da tarde, o escritório entra em rebuliço. Mãos ágeis juntam os papéis espalhados nas mesas, ajeitam os mesmos nas pequenas gavetas da escrivaninha, uma segunda olhada rápida, verificando se na mesa encontra-se algo que não pode ficar à vista. Pronto tudo guardado, na mesa somente um ou dois livros de consulta, a caneca suja de chá e o copo vazio. Estes últimos miraculosamente vão aparecer limpos no dia seguinte no armário da cozinha.

Em breve todo o andar está vazio, computadores desligados, gavetas fechadas, canecas vazias e sujas de chá em todo lugar. Lá fora, o astro-rei reinava imponente e todo-poderoso.

O sol ainda brilhava forte, tão forte como duas horas da tarde na América do Sul, e iria continuar brilhando até às 21h. Uma Londres que se escondia atrás de uma máscara cinza e fria desapareceu, uma nova Londres colorida, iluminada, barulhenta e vibrante surge no lugar. Um calor até então desconhecido dessas ilhas chegou. 24ºC ou 25ºC é muito quente para um lugar onde 18ºC é considerado agradável e só falam em frio quando a temperatura chega abaixo dos 10ºC.

Os prédios milenares da City de Londres* refletem em seus mármores e fachadas sisudas toda a alegria e leveza do sol. As cores da cidade realmente mudam e ficam mais vibrantes. Parece que o antigo tímido acampamento romano construído 2000 anos atrás, hoje talvez a cidade mais cosmopolita e globalizada do planeta, resolveu dar uma pausa na sua rotina e de uma forma quase ritualista reverenciou o sol e seu brilho e calor. As pessoas sempre apressadas reduziram o ritmo. Conversavam mais e conversavam com todos. Ao invés de só ouvirmos o “desculpa” (sorry) ao esbarrarmos uns nos outros nas ruas, ouvíamos “Oi”, “Tudo bem”, “Não se preocupe”, “Boa Noite”. O clima realmente influencia as pessoas. O sol e o calor faz dos homens, seres mais amigáveis, mais relaxados e mais simpáticos e talvez mais preguiçosos.

As ruas estavam incrivelmente lotadas, um barulho diferente, não de carros, buzinas e freadas, mas de gente falando, rindo, gargalhando, gritando, toma conta de todo o caminho que faço do trabalho até em casa. Parece uma manifestação orquestrada, uma anarquia tomou conta da cidade e todos foram chamados a fazerem parte. Em cada quarteirão, dois, três, quatro bares (Pubs como dizem aqui) distribuem um líquido quase sagrado para os habitantes daqui, feito com cevada, lúpulo e água. Também conhecido como cerveja esse liquido é mais consumido aqui do que pode ser imaginado por qualquer brasileiro que vá ao bar todo dia. Enquanto um brasileiro consome em média 47 litros de cerveja por ano, um inglês consome 100 litros e um irlandês 130 litros. As pessoas não ficam dentro dos bares, e por quê ficariam? Um sol e calor desses não é para sempre, e os ingleses sabem que isso não durará muitos dias e talvez só se repita no ano que vem ou no outro. Outra razão é que já faz um ano que é expressamente proibido fumar em qualquer prédio de acesso público. Ou seja, você só pode fumar na rua e na sua casa. Então vão pra rua, beber e fumar.

Na frente dos bares eles colocam mesas altas encostadas nas paredes para poderem aparar os copos. E que copos! Aqui a medida oficial de cerveja é o Pint, algo próximo a meio litro. E copo de vidro, cada copo normalmente com a marca da cerveja que se bebe incrustada no vidro. Cada um com seu copo de meio litro de cerveja numa mão, o cigarro na outra. Infelizmente nada para acompanhar, nenhuma batata frita, nenhuma lingüicinha frita, nem mesmo uma unitati** de coxinha. Só cerveja com cerveja e mais cerveja.

Acho que podemos dizer que o Pub é o centro de toda economia e de toda a sociedade inglesa. É lá que tudo e todos se encontram. Assim como no Brasil tudo se dá com a comida é essencial para nossa sociabilização, pois é em almoços, churrascos, festas com comida e jantares que conhecemos pessoas. Pessoas conhecem-se, apaixonam-se, casam-se, divorciam-se. Negócios aparecem, empresas nascem, bilionários surgem. E, no verão parece que tudo é mais intenso ainda. E eu que não bebo? Fico à parte de uma sociedade, marginalizado literalmente. Eles simplesmente não compreendem como é possível alguém não gostar de cerveja. Um ou outro suporta um “amigo” que só bebe refrigerante. E aqui, como ninguém usa o carro, e somente o transporte público, não precisam de alguém sóbrio para dirigir.

Os prédios mais antigos (ou seja a maioria dos prédios) da City de Londres datam de séculos atrás. Mas, ao contrário dos cortiços do centro de São Paulo, e mesmo com a ganância imobiliária, os prédios aqui são todos modernizados por dentro, com limites de pessoas por metro quadrado muito bem definidos e regras seguidas. Além dos prédios serem pequenos, quatro, seis ou oito andares apenas. Em cada, dois ou três quarteirões tem um ou outro prédio alto (20 ou 30 andares) — que servem como referências, marcas, entre eles o prédio do Llloyds de Londres. A grande “associação” de seguradoras do mundo. O prédio é todo “invertido”. Todo em metal e vidro, todas as estruturas, elevadores, canos, tubos fica para fora do prédio, à vista de todos. Por dentro ele é fantástico, um vão livre e incrivelmente mantém duas salas do antigo prédio em 1763, ou seja, você entra num dos prédios mais modernos do mundo e lá dentro entra em uma sala de 1763, dentro de uma das áreas financeiras mais conservadoras de todas: os seguros. (Procure no Google Images — Lloyd’s Building)

Logo na frente do escritório onde trabalho tem um bar muito grande, é no térreo de um dos edifícios mais famosos de Londres — o Gherkin — (algo como pepino em conserva em português). (Procure no Google Images — Gherkin)

A Esterlina (The Sterling) é o nome do bar em frente. Quando cheguei na rua ele já estava lotado. Muito cheio mesmo. Mas meus colegas insistiram em tomar uma e mal acreditaram quando eu disse que tomaria um refrigerante, mas mesmo assim fiquei um pouco. Aqui nos bares voce pede e paga na hora. Não tem conta, não tem garçon, não tem mesa suficiente para todos. Então a gente fica em pé mesmo, segurando o copão de meio litro.

O nome dos pubs é o que mais me fascina. Devem ter alguma história interessante em cada um, são nomes que, na maioria das vezes seriam ridicularizados por nós brasileiros se os traduzíssemos, mas aqui, em uma cidade de dois mil anos tudo é possível. Ninguém se importa com nomes, cores, raças, sexos, religiões, sotaques, vestimentas, penteados. O que importa é a cerveja!

Encontramos pubs com nomes simples, assim como o número da rua. Bar 1, Bar 3, Bar 101, Bar 202.

Existem pubs com nomes dos donos, normalmente o sobrenome dos donos: O’Neils, McHugges, Pitcher e Piano, Irmãos Bola (Balls Brothers), seria como se no Brasil, ao invés de termos o Bar do Azeitona, o Bar da Cida, Bar do Afonso, Bar do Chico, teríamos, Bar dos Gonçalves, Bar do Silva, Bar do Sousa, Bar do Viana.

Mas o melhor são os nomes diferentes, alguns dos que me lembro que estão no meu caminho (a tradução pode ser contestada, mas é o que parece ser pra mim). A Abadia (The Abbey), O Anjo (The Angel), O Arbitro (The Arbitrager), O Banqueiro (The Banker), O Sino (The Bell), O Dedo do Bispo (The Bishops Finger), A Âncora Azul (The Blue Anchor), O Frei Negro (The blackfriar), O Touro (The Bull), A Página Central (The Centre Page), O Treinador e os Cavalos (The Coach and Horsers), O Frei de Muletas (The Crutched Friar), Os Diáconos (The Deacons), As Armas da India Ocidental (East Indian Arms), O Pântano (The Fen), As Armas do Rei (King’s Arms), A Cabeça do Rei (The King’s Head), O Carro do Correio (The Mail Coach), o Armazém de Chá Velho (The Old Tea Warehouse), A Cabeça do Mordomo do Velho Doutor (The Old Doctor Butler’s Head), O Leão Vermelho (The Red Lion), A Raposa (The Fox), A lesma e o alface (The Slug and the Lettuce), O 11º Mandamento (The 11th Commandment), O Local das Testemunhas (The Witness Box), A Taverna da Rede Ferroviária (The Railway Tavern).

Ficamos ali no The Sterling, debaixo do sol escaldante para eles, apreciando a multidão e o calorzinho. Uns quinze minutos depois, mais meio litro de cerveja pra cada e eu ainda no meu copo de refrigerante. Mais uma meia hora e outra tradição aqui, como existe um pub em cada esquina, os ingleses dão se ao luxo de ficarem mudando de bar a cada hora. E, depois das 23h, quando muitos dos pubs tem de fechar, existe um verdadeiro êxodo para os bares com autorização até as 2h da manhã.

Ainda não eram 6 horas da tarde e o sol estava alto. Andamos em direção à estação de Liverpool Street e nesses três quarteirões devemos ter passado por uns 10 bares no mínimo. Todos igualmente lotados, alegres, transbordando gente com copos na mão. Paramos na Taverna da Rede Ferroviária (The Railway Tavern) e mais meio litro de cerveja pra cada, e um copo d’água pra mim.

Desde o começo do mês passado já não é permitido carregar bebidas alcólicas nos metrôs, trens e ônibus de Londres. Mas o que acontecia é que estes mesmos bebedores, no final deixavam de tomar a cerveja no Pint e compravam ainda uma última garrafa ou lata de cerveja (as vezes até Brahma) e iam para casa, bebendo. Era engraçado ver tanta gente bebendo nos metrôs, agora só vemos bêbados, mas ninguém com garrafa na mão.

Meus colegas então, compraram suas garrafas e foram para a estação tomar o trem e o metrô. Eu continuei andando, indo pra casa.
Para chegar em casa ando exatamente 26 quarteirões — 2,2 km. Em média tem um pub em cada esquina. Muitas vezes, e principalmente na área perto das estações existem muito mais que isso. Ou seja, passo por pelo menos 50 bares até chegar em casa.

Como todo londrino que se preze, coloquei meu Ipod no ouvido, selecionei algumas canções de bandas e cantores ingleses e fui pra casa, atravessando a City, sob uma trilha sonora local, sentindo o sol enfraquecer.

Já em casa, com a noite ali na espreita, fiquei pensando no Brasil, na minha casa, em minha família, no meu pai doente, nos amigos distantes… Um friozinho soprou pela janela, o verão estava acabando.


*City de Londres (City of London) é o coração financeiro de Londres e o nome de um dos bairros (boroughs) de Londres. Quando se fala em ir à City querem dizer ir à esta área de Londres que fica às margens do Tâmisa e contém em sua área a Catedral de St Paul, o Banco da Inglaterra, a Torre de Londres, Barbican, Broadgate, Liverpool Street, o Gherkin, o Lloyd’s building e praticamente todas os grandes bancos, financeiras e seguradoras do mundo. Em Londres não se usa muito o termo Downtown para referir-se ao centro. Utilizam mais especificamente City e WestEnd. Sendo este último uma área do bairro de Westminster onde está o real centro de Londres (Piccadilly Circus) e a grande maioria dos teatros e casas de espetáculo.

**unitati = o mesmo que unidade em um certo bar, de um certo shopping center de São Paulo.

Rotina

O dia a dia pode ser interessante, às vezes…

Guto Castro

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Born in Brazil, bread in the world

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