Até onde podemos ir em busca de curtidas e compartilhamentos?

Os fins não justificam os meios

Você já trabalhou em agência de publicidade? Eu já. Posso dizer de boca cheia que adorava meu trabalho na agência Dobro, o que não é o mesmo que dizer que era fácil ou pouco estressante. Pelo contrário, o desafio de dar resultados para as campanhas dos clientes eram diários. A cobrança era bem forte. E, no auge da minha imaturidade dos 20 e pouquinhos anos, eu errava pra caralho.

Foram muitas vezes que um material ou anúncio do cliente foi confeccionado com erros. Culpa de quem? Minha, por ter sido negligente ou por falta de atenção. Por outro lado, nunca planejamos e colocamos em ação uma campanha de comunicação que pudesse, de maneira deliberada ou não, ofender ou agredir indivíduos e grupos de pessoas. Falo isso lembrando que, na Dobro, nós inclusive criamos campanhas de comunicação política em época de eleições, setor que hoje representa toda a crise moral brasileira (entre outras coisas).

Isso atende pelo nome de ÉTICA, o termo exato que identifica como NÃO agiram a empresa Santher e a agência Neogama, responsáveis pelo lançamento do papel higiênico de cor preta da Personal.

Há um motivo para os cursos de publicidade, jornalismo e relações públicas se chamarem comunicação social. Pois, qualquer mensagem que produzimos como profissionais dessas áreas, irá impactar pessoas e seus relacionamentos. Não há qualquer justificativa moral que explique a associação de Black is Beautiful com um produto para limpar a bunda. Desleixo, inocência, não intencional…nenhuma dessas desculpas colam. Black is Beautiful é utilizada pelo ativismo negro desde os anos 60 para empoderar e lutar contra o racismo e, no Brasil, conta até com música performada pela Elis Regina. Uma simples busca no Google mostraria que o slogan adotado pela Personal já era utilizado em outro contexto!

Portanto, só é possível compreender que colocar na rua uma campanha racista e de clara desapropriação do ativismo negro, foi uma tática deliberada para que nós bradássemos pelos nossos perfis nas redes sociais do absurdo antiético da comunicação desse papel higiênico. É uma volta ao esculacho “não há tal coisa como má publicidade”. Isto é, em resumo, dizer que vale tudo para se tornar um “viral”, até ofender e ser preconceituoso. Vale mesmo? Esse é mundo que queremos construir? Tudo isso por um punhado a mais de $ em nossas contas bancárias?

Para buscar uma solução, proponho um simples exercício para que você possa pensar casos como esse e futuras campanhas de comunicação que você irá planejar e produzir. Responda a seguinte pergunta: “a mensagem que está sendo transmitida tem o potencial de causar algum dano?”. Se a resposta for sim, comece a criação do zero. Não é possível sonharmos com um Brasil melhor se não tivermos qualquer escrúpulo em busca de curtidas, compartilhamentos e resultados ($).

(Enquanto escrevia esse texto, tomei conhecimento da campanha da Hood para os cigarros Kent, com fotos posadas de “influenciadores” fumando. É ou não é para ficar cansado do mercado publicitário? Entenda o caso clicando aqui.)
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#EXTRA: Anderson França, escritor negro da periferia, expõe como ninguém tudo que há de errado na campanha desenvolvida pela Neogama. Vale a pena conferir clicando aqui.