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O Facebook é uma grande ameaça para uma web livre e democrática

Já pensou em uma web controlada apenas por uma pessoa?

Eu sou um grande nerd. Não gosto muito desse rótulo, porque ele tem uma conotação negativa, como se pessoas que gostam de cultura pop, games e tecnologia fossem algum tipo de sociopata. De qualquer maneira, o ponto é que esses gostos, em geral, são sinônimos de um posicionamento de apoio às tecnologias em nossa sociedade.

Isso quer dizer que sou um entusiasta. Adoro novidades técnicas, que de alguma maneira possam transformar nossas vidas humanas. O que falar das redes sociais, então? Adoro todas, sem exceção (mas o Instagram é minha rede social favorita 😅). Não foi à toa que resolvi trabalhar com comunicação digital.

Entretanto, isso não quer dizer que não sou crítico. Pelo contrário. Sou MUITO crítico das maneiras que as plataformas digitais se posicionam. E, atualmente, ando muito preocupado com os rumos de empresas como Google, Apple e Facebook. Porque vamos falar sério, né? Para estas empresas nós somos como ovelhas esperando o abate.

O caso mais alarmante sem dúvidas é do Facebook. Se nós, profissionais de Relações Públicas, nos preocupamos com transparência e confiança, a empresa do tio Mark é exemplo do que não fazer. Pouco sabemos como nossos dados de usuários são coletados e utilizados. O discurso da gigante azul é sobre tornar a web mais aberta e aproximar as pessoas. Mas como ela faz isso? Fechando o mundo digital em torno de si. Os planos do Facebook são claros: tornar-se um ambiente onde os usuários não saiam mais de suas cercas digitais.

A internet nasceu como um sonho hippie, representando utopias de liberdade. Um ambiente onde a informação fosse acessível para todos, sem a necessidade de um ator que centralizasse e controlasse o fluxo da comunicação. Porém, agora temos esse grande monstro que centraliza grande parte de como acessamos informação e nos comunicamos com outras pessoas. O Facebook, além de contar com 2 bilhões de usuários, ainda é o dono de outras grandes redes como Instagram e WhatsApp. Em nenhum momento da história humana houve uma única empresa com tanto poder comunicacional nas mãos.

O que isso tudo quer dizer? Bem, o Facebook define hoje como consumimos informações e como trocamos ideias com nossos amigos e familiares. O feed de notícias é uma “bolha” das nossas próprias ideias. Há pouco espaço para ideias contraditórias, o que é um grande problema para a democracia. Pois, o debate de ideias diferentes leva a negociação de termos médios. A polaridade da discussão política brasileira na atualidade também é resultado dessa “bolha”.

Você lembra como era acessar a web há alguns anos? Todo dia era passível de se descobrir um site novo. Agora, só acessamos o Facebook através da experiência customizada pelas nossas preferências. Ou seja, a maioria das vezes só vemos mais do mesmo. Esse imperativo do algoritmo que apenas entrega conteúdo para os usuários baseado no engajamento, só deixa o que já é popular ainda mais popular. O novo e pouco popular não alcança seus usuários, afinal não há engajamento suficiente.

O grande barato da web era a possibilidade de todos nós sermos protagonistas. O balanço do poder tinha sido alterado das grandes empresas de mídias para nós, pessoas comuns. Entretanto, essa escala de poder está mudando de novo. As redes sociais eram aliadas dos usuários. Aos poucos a ganância por poder e dinheiro foram tomando conta das redes.

O que podemos fazer? Primeiro, é tomar consciência dessa movimentação de centralização e domínio da web por poucos atores. Segundo, é que não devemos aceitar qualquer decisão que o Facebook tome. Não pagamos para usar o serviço, mas sem usuários não há Facebook. E, terceiro, precisamos começar a elaborar estratégias que regulem as redes sociais em benefício dos usuários e não da ganância por mais lucro.

Como diz Henry Jenkins: “muitas vezes caímos na armadilha de ver a democracia como um desfecho inevitável da transformação tecnológica, em vez de algo pelo qual temos de lutar para alcançar com todas as ferramentas disponíveis”.

#EXTRA: é forte a tendência de que Mark Zuckerberg seja candidato a presidência dos Estados Unidos em 2020. Consegue imaginar?

Agradecimento especial ao Willian Fernandes Araújo. A inspiração desse texto vem da nossa troca de ideias e de sua excelente Tese de Doutorado: AS NARRATIVAS SOBRE OS ALGORITMOS DO FACEBOOK: uma análise dos 10 anos do Feed de Notícias”.