Relações Públicas e o mercado de trabalho

A presente pesquisa foi realizada pelo relações públicas Samyr Paz (medium.com/@samyr), com dados coletados entre 12 de maio e 30 de junho de 2014. O objetivo é abordar temas referentes à colocação no mercado dos profissionais de Relações Públicas, remuneração, atividades e opiniões acerca do desenvolvimento do mercado. Com estes dados é possível analisar próximos passos para a classe profissional, como: o que é possível fazer para melhorar o mercado? Quais as forças e fraquezas dos Relações Públicas do Brasil? O que esperar do futuro?

Para isso foi conduzido um questionário online com perguntas fechadas e abertas. Foram coletadas 420 respostas de profissionais e estudantes de Relações Públicas de todas as regiões do Brasil. A pesquisa foi amplamente divulgada por canais de comunicação voltadas para área: Blog Relações (maior parceiro desta empreitada), Todo Mundo Precisa de um RP, Relações Públicas Brasil, Relações Públicas da Depressão, Conrerp/4º, Conferp, Relações Públicas Faz e outros, além de divulgação nos grupos de Relações Públicas espalhados pelo Facebook e Twitter.

No infográfico abaixo você pode conferir os dados quantitativos coletados, referentes aos seguintes questionamentos da pesquisa: idade, sexo, renda, modalidade profissional, tempo de carreira, configuração da empresa em que trabalha, atividades, registro profissional e mudança de carreira.

Acerca dos dados do infográfico, é possível ponderar sobre alguns quesitos. O primeiro deles é: amostra de respondentes jovem. 45% dos respondentes têm entre 18 e 23 anos, e outros 34% têm entre 24 e 29 anos. Além disso, 77% têm até 5 anos de carreira profissional. A carteira assinada domina a modalidade profissional (46%), enquanto o empreendedorismo está em baixa (8% apenas). As mulheres são a grande maioria (78%), assim como a atuação em empresas privadas (72%).

Em seguida, alguns dados preocupantes: 35% dos respondentes são remunerados com 1 a 2 salários mínimos e 25% com 3 a 4 salários mínimos. Pode ser que em função disso 42% já pensaram ou pensam em mudar de carreira. Mas, não sejamos drásticos em relação a isso, afinal 58% nunca consideraram a mudança de carreira. No que diz respeito as atividades profissionais, nada inesperado: atividades ligadas a eventos na liderança (11%), enquanto outras atividades aparecem logo em seguida: planejamento (10%) e redes sociais (10%).

Outro dado relevante: 80% dos respondentes não são registrados no Conselho Regional de Relações Públicas (CONRERP). Cabe a ressalva que se obteve muitas respostas de estudantes na pesquisa. Na análise das respostas abertas a pesquisa vai entrar em mais detalhes sobre a relação entre profissionais e o conselho profissional.

É importante ponderar que a pesquisa, conduzida no ambiente online, pode ter atingido uma amostra maior de jovens. Por mais que seja difícil imaginar um Relações Públicas que não acesse a web, independente da idade, é importante levar este ponto em consideração. Se cruzarmos os dados de idade com o de salário, é possível entender que muitos dos respondentes ainda estão concluindo a graduação ou em início de carreira. Por isso é importante ter CALMA, dedicação e comprometimento. O salário, ao longo dos anos, pode e deve subir para todos ao avançarem na carreira. Logo, a desvalorização neste caso pode ser apenas passageira.

Como vai você?

Para complementar a pesquisa, foi questionado aos respondentes a seguinte proposição: “Você acha que o mercado profissional de relações públicas vai bem ou mal? Por quê?”

A importância dessa pergunta está na essência objetiva desta pesquisa. Saber de forma subjetiva sobre as carências, desafios e obstáculos dos profissionais transporta os resultados da pesquisa para o mundo real. Além de apenas quantificar o mercado, é possível senti-lo. Algo que a maioria de nós fazemos todos os dias, mas raramente poderíamos saber em que pé andam os Relações Públicas de outros lugares do país ou mesmo nossos colegas próximos.

As opiniões se diversificaram em um misto de “vai bem” e “vai mal”. Algumas até podem ser consideradas contraditórias, como é o caso das seguintes respostas:

“Bem, mas tem muito o que crescer e mostrar. As empresas, empregadores e o próprio profissional desconhecem as funções de atuação da profissão.”
“Apesar da evolução, acredito que ainda temos muito que aprender. É um mercado imaturo, temos poucos profissionais qualificados, o que dificulta a percepção das empresas em decidir por contratar o profissional.”
“As oportunidades estão aparecendo. Porém, voltadas para os profissionais errados. Muitas vagas de RP tem sido direcionadas para outros profissionais de comunicação.”

Nesse recorte de três opiniões, é possível observar o que uma grande maioria respondeu: ainda carecemos de reconhecimento. O profissional de Relações Públicas ainda não é amplamente reconhecido pelas suas habilidades. O que, apesar do discurso otimista, frustra muitos. Além disso, o RP por vezes perde espaço para outros profissionais, já que o empregador não tem conhecimento. De quem é a culpa? Nossa? Do empregador? Das entidades de classe? Dos cursos de graduação? Chegaremos nessa discussão em breve.

Aliado da falta de reconhecimento, está a remuneração. De fato muitas opiniões explicitam que a remuneração deveria ser melhor, ao passo que a busca pelo lugar ao sol está na qualificação, segundo os participantes da pesquisa. Como visto anteriormente, somos jovens. Logo, os discursos de uma profissão do futuro são coerentes. O aluno recém graduado reclama de conseguir colocação no mercado, mas qual profissão não passa por isso nos dias atuais? A grande maioria das opiniões considera que o mercado está em expansão e existem oportunidades para serem aproveitadas. Vejamos duas opiniões sobre isso:

“Faltam agências que procurem relações públicas e assinem a carteira como relações públicas.”
“São muitas as oportunidades que se adequam as funções de um RP. O grande problema é que as pessoas ainda procuram uma vaga em que fala: contrata-se um RP. Temos que olhar a descrição e ir mostrar o nosso valor, o que somos, quem somos e que podemos fazer tão bem como um publicitário ou jornalista.”

Não há dúvidas de que carecemos de reconhecimento, mas será que o profissional de relações públicas não pode fazer por onde e cavar o seu próprio espaço? A vaga dos sonhos nem sempre vai estar escrito com o seu nome em cima dela. Se a concorrência é grande com outros profissionais da comunicação (segundo muitas opiniões de respondentes da pesquisa), precisamos entrar no mesmo jogo para garantir a colocação profissional. É fácil? Não. Mas ninguém disse que seria.

Reside no âmago do profissional de Relações Públicas o velho problema de demonstrar resultados. Algumas opiniões ressaltam que é difícil mostrar / entregar um “produto”. Talvez se faça necessário aperfeiçoar essas habilidades de alguma forma, o que não cabe a esta pesquisa discutir.

Mitos e verdades

Foi reiterado diversas vezes pelas respostas que não existe uma verdade absoluta de que o mercado “vai bem ou mal”, mas sim que existe um otimismo em relação ao crescimento da área de Relações Públicas. Muitos citam a explosão dos meios digitais e a preocupação das organizações com a reputação, como fatores para a expansão do mercado.

Um dos pontos que chamou atenção foi a relação oportunidade e região geográfica. Segundo um mito de nossa área, a maioria da oportunidades se encontram nos grandes centros. Poderia ser dito que esta é apenas uma obviedade: maior concentração de capital resulta em mais oportunidades. Porém, não foi o que se viu em muitas opiniões desta pesquisa. Curitiba e Belo Horizonte, por exemplo, foram citadas como locais com pouca demanda.

“Em Recife não há campo para graduados em RP. Qualquer um assume essa função sem qualificação alguma.”
“Eu acredito que o mercado de relações públicas não está ruim, porém a dificuldade de conseguir um emprego na área, especialmente em Belo Horizonte, de acordo com minha experiência, é um fato. Tenho duas percepções: ou o mercado está limitado para recém formados, ou aqui só entra no mercado quem tem boas indicações. Também considero a limitação de funções em vagas. A maioria é para marketing, que aceitam outros profissionais ou comunicação interna e eventos. Uma área que eu gostaria de atuar e não vejo vagas é em pesquisa.”

Mais uma vez fica evidente as questões de procurar a vaga nas entrelinhas, pois dificilmente a vaga estará descrita com letras garrafais: RELAÇÕES PÚBLICAS. Além disso, pesa a qualificação profissional. Muitas opiniões receitaram o remédio para alguns problemas da área: especialização.

Enquanto a versatilidade do Relações Públicas é sempre louvada, muitos respondentes consideram que esta pode ser exatamente o calcanhar de Aquiles. Uma bipolaridade. Enquanto ser versátil é bom e pode abrir mercado, já que é possível aproveitar oportunidades em diversos setores, muitos consideram que é onde outros profissionais se sobressaem frente ao Relações Públicas, afinal são especializados em determinada prática. É uma consideração relevante e potencialmente fruto para discussões futuras.

“Como profissional versátil e multifacetado, o profissional RP tem se saído bem.”
“Acredito que é uma profissão muito bagunçada. Entendo que precisamos ser um canivete suíço, mas o RP acaba perdendo espaço para outros profissionais por não ter especialização em determinado segmento na área acadêmica.”

Portanto, se especializar é uma meta que os profissionais de Relações Públicas poderiam buscar para encontrar mais espaços no mercado, mesmo soando contraditório ao louvarmos a versatilidade.

Cabo de guerra

A crítica ao Sistema CONFERP, composto pelos Conrerps (regionais) e pelo Conferp (Federal), foi ferrenha. Não se obteve se quer uma opinião positiva em relação ao Conselho. A maioria reclama da falta de representatividade do órgão. Reflete-se este fato nos 80% não registrados.

“Vejo um monte de Jornalistas ocupando funções de RP e nosso conselho nada faz.”
“Temos um conselho que não nos defende mediante pseudo profissionais, o que desqualifica ainda mais a profissão.”
“O CONFERP deveria fiscalizar mais as ações dos regionais.”

Cabem algumas considerações quanto a estas opiniões: existe uma falta de informação quanto a atuação e responsabilidades do Conselho. O descontentamento com o Conselho é muitas vezes em função do valor recolhido anualmente. Porém, é preciso dizer que nunca foi a missão do sistema Conferp divulgar amplamente o que faz um Relações Públicas e conseguir colocação no mercado para tais. O Conselho existe para fiscalizar e regular a profissão. Para isso, ele vive de recursos (financeiros e pessoais). É exigente demais pedir um Conselho ativo, se não oferecemos os recursos para isso.

Este é um conflito antigo e só vai diminuir quando os dois lados aceitarem o diálogo e a aproximação. Já existem iniciativas para isso. Tanto profissionais, quanto o Conselho, necessitam conviver de mãos dadas, pois é uma relação simbiótica. As críticas são válidas? Sem dúvidas. Mas enquanto o cabo de guerra continuar, nada se resolve.

Nesta mesma linha, muitas opiniões pregaram a união dos Relações Públicas como um trunfo para o crescimento. Alguns até consideraram a união dos profissionais como uma necessidade. Recordo aqui o questionamento sobre quem é o vilão da falta de reconhecimento. Segundo essas opiniões, seria o próprio Relações Públicas responsável tanto pelas mazelas, quanto pela bonança.

“É melhor saber se os relações públicas tem garra para entrar no mercado independente do nome na carteira e lutar para mostrar o que um RP pode fazer como diferencial em uma empresa.”

Essa opinião é sem dúvidas motivadora. A questão seria realmente “como vai o mercado”? Talvez seria melhor reformular. O Relações Públicas, como classe e como profissional, tem a capacidade de agarrar seu espaço. Cabe a todos contribuírem para ampliar a reputação como profissionais competentes e necessários.

“O mercado existe, as possibilidades existem, as vagas também. Vai de cada profissional atualizar-se, qualificar-se e encontrar o seu lugar nesse mercado. O profissional tem que ir atrás e pegar sua fatia do bolo.”
“Para melhorar o mercado, antes é preciso melhorar os profissionais. Quem sai da mesmice, do rotineiro, percebe as oportunidades e necessidades latentes do mercado.”

Portanto, cabe ao profissional se responsabilizar pelo mercado e não apenas esperar uma resposta de forma passiva. E essa responsabilidade deve ser como indivíduos e em grupo.

Para finalizar, resume-se aqui os principais pontos encontrados nas respostas abertas:

  • Otimismo em relação ao futuro da profissão e do mercado;
  • Necessidade de qualificação constante para conquistar as melhores oportunidades;
  • Olhar as vagas de emprego nas entrelinhas, pois a maioria não descreve no título: Relações Públicas;
  • Especialização ou versatilidade?
  • Melhorar a representatividade de classe;
  • Assumir a responsabilidade das condições do mercado.

Mensagem do autor da pesquisa: obrigado a todos os relações públicas que contribuíram para esta pesquisa e a todos que acompanharam a publicação destes resultados. Um agradecimento especial aos parceiros e apoiadores Pedro Prochno, Amanda Mayumi, Vanessa Cabral Gomes, Rose Barcellos, Florilson Santana e aos outros tantos apoiadores. Realizar esta pesquisa foi gratificante e tenho a esperança de ter contribuído, mesmo que pouco, ao nosso mercado profissional.