Monsterhearts

Pra minha surpresa Monsterhearts acabou se tornando um dos meus jogos favoritos, talvez O FAVORITO (estou em dúvida entre ele o Dungeon World), por isso estou sempre tentando convencer as pessoas a darem uma chance a ele. Mas admito, é difícil.

“Um jogo narrativo sobre a complicada vida de monstros adolescentes.”

Uma tradução livre do que está na em sua capa. É daí que começo, mas é algo vago demais. Normalmente prossigo com:

“Sabe Crepúsculo? Teen Wolf, Buffy, Instrumentos Mortais, Jovens Bruxas? É tipo uma mistura de tudo isso.”

Não costuma ajudar muito. As pessoas torcem o nariz ao ouvir “Crepúsculo”. Mas antes de dizer sobre o que é Monsterhearts, prefiro dizer sobre o que ele NÃO É.

Ele NÃO É uma releitura de World of Darkness. Não é uma versão atualizada. Não é, sequer, “tipo” WoD e nem tem pretensão de ser. Apesar das inegáveis semelhanças que ambos compartilham a pegada é completamente diferente, com cenário, clima e propósitos diferentes. Mas por que é importante dizer isso? Porque é uma ligação óbvia, porem errônea, que muitos costumam fazer assim que se deparam com o jogo (incluindo eu mesmo o fiz).

Outra coisa: MH é um jogo SOBRE adolescentes, mas NÃO É um jogo DE adolescentes, muito menos infantil. Apesar de nada impedir adolescentes de jogarem, para aproveitar a experiência devidamente é exigido uma certa maturidade que, até onde me consta, a maioria dos adolescentes ainda não o tem (pelo menos eu não tinha). Pode parecer estranho, mas é um jogo com temática bastante adulta.

Hoje, depois de ter participado de uma campanha como jogador e estar mestrando outra, eu definiria MH como um storygame sobre as dificuldades e complicações daquela fase onde não se é mais criança e ainda não se é adulto. Sendo que o conteúdo sobrenatural não é uma atração por si só, servindo mais como metáfora para os problemas que a maioria de nós enfrentamos nesse período de nossas vidas.

Ele te dá — como eu nunca havia visto antes em um jogo, seja ele RPG ou não — a oportunidade de brincar com questões de gênero e sexualidade. E, por tanto que os envolvidos estejam de acordo, até explorar questões bastante pesadas como bullying, homofobia, abuso, depressão e etc.

Note que eu usei “de acordo” ao invés de “confortável”. Porque parte da experiência e charme do jogo é sim causar certo desconforto. O desconforto típico de ser adolescente e não saber exatamente seu lugar no mundo. O desconforto de se sentir a todo momento incompreendido e até perseguido.

Por isso acho que para aproveitar bem essa experiência você primeiro tem que ter saído da adolescência para só então revisita-la. Além de é claro, exigir que deixemos nossos preconceitos bobos de lado. Jogar Monsterhearts de mente e coração abertos é essencial para um bom divertimento.

Dito isso me sinto confortável em afirmar que é muito mais adulto que muita fantasia medieval onde a violência acaba sendo banalizada e as relações são superficiais. Aliás, as relações entre os personagens aliadas aos seus dramas pessoais acabam sendo muito mais importantes do que qualquer trama sobrenatural. A trama, recuperar um artefato mágico e ancestral ou impedir o bando de lobisomens de devastarem a cidade, acaba sendo apenas um impulsionador para essas interações.

Via de regra as capacidades sobrenaturais dos personagens só são importantes quando geram alguma carga dramática. Não é um jogo sobre poder derrotar o vilão com seus poderes mágicos, mas é sobre manipular a ingênua jovem que está apaixonada por você enquanto tenta lidar com sua atração secreta pelo seu melhor amigo. Ou seja, como em qualquer bom storygame o verdadeiro poder aqui é gerar historias.

E me sinto na obrigação de ressaltar que mesmo com a possibilidade de abordar tais temas, não necessariamente, é um jogo sombrio. Aliás, facilmente ele terá vários momentos galhofas com diversos clichês retirados de seus filmes e séries de referência. O vampiro centenário que frequenta a escola, a garota(o) que não tem nada demais mas atraí a paixão de todos, decisões idiotas que só um adolescente apaixonado tomaria e por aí afora. Sugiro ao invés de evitar os clichês, abraçá-los.

Finalizando minha divagação confusa sobre esse RPG, espero que ao menos tenha conseguido instigar sua curiosidade o suficiente para te fazer testa-lo. Apesar de não ser pra todos os públicos acredito que a maioria que joga-lo de mente aberta vá gostar, e muito.

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