Resenha — Marvel Heroic Roleplaying

Um excelente jogo de super-heróis, infelizmente fora de linha

Thiago Rosa
Sep 23, 2014 · 6 min read

O universo Marvel já contou com quatro adaptações oficias para RPG. Em 2012, a Margaret Weiss Productions lançou a versão mais recente — o Marvel Heroic Roleplaying, usando uma versão do seu sistema da casa, Cortex Plus.

MHRPG é imediatamente diferente dos demais RPGs de super-heróis por sua estrutura. O jogo é focado em Eventos (de forma similar a aventuras em demais RPGs), mas o foco é a história acima de qualquer outra coisa — incluindo os personagens. É parte da premissa do jogo que os jogadores (ou escritores, como são chamados no jogo) troquem de personagem ao longo de um evento ou entre um evento e outro e inclusive em eventos grandes é incentivado o uso de troupe play, com cada jogador tendo vários personagens e escolhendo quando usar cada um. Não se trata de uma experiência comum de RPG. Mais do que um RPG de super-heróis, MHRPG é um RPG de revistas em quadrinhos de super-heróis.

O sistema

O sistema é simples. Você monta uma pilha de dados, escolhendo entre os atributos do personagem em questão e/ou características da cena. Depois de rolar os dados, você soma dois deles para obter um valor para a sua ação — isso vai determinar se você foi bem-sucedido ou não. Você também separa outro dado para ser o seu dado de efeito. O resultado no dado de efeito não faz diferença, o que importa é o tipo de dado — você tem um efeito d10 ou d12, por exemplo. O seu alvo faz uma jogada parecida e se obtiver um valor maior que o seu, sua ação falha.

O grande twist é a forma como essas pilhas de dados são montadas. O jogador escritor pode adicionar praticamente qualquer coisa que consiga justificar, entre Affiliations (se o herói age melhor sozinho, em dupla ou em equipe), Distinctions (três aspectos que definem a personalidade do personagem, podendo ser inclusive frases de efeito), super-poderes e Specialties (que são basicamente perícias). Se você quer intimidar alguém com o Wolverine, por exemplo, não vai usar só sua Specialty Menace no teste — se você o ameaçar com as garras, pode somar seu d12 de Weapon e também pode somar um dado já que Wolvie é “o melhor no que faz”. Se você faz um ataque como o Homem-Aranha enquanto faz uma piada, pode somar um d8 da Distinction Wisecracker. Só o que limita essas escolhas é o bom-senso do jogador escritor e do mestre Vigia. Basicamente, MHRPG é baseado em narrativa — o que determina o andamento do jogo é a descrição das ações em vez de uma série de regras e exceções. Essa abordagem do foco narrativo divide as responsabilidades pelo andamento da história igualmente; diferente da maior parte dos sistemas, que deixa toda a responsabilidade com o mestre/narrador.

Em vez de listas de dificuldades para ações, MHRPG usa somente ações contestadas — ou seja, rolagens de dados comparadas com outras rolagens de dados. As rolagens podem ser feitas contra um outro personagem, mas muitas vezes essa oposição se dá na forma da doom pool. Esse recurso é uma medida do quão dramática está a situação. Ela normalmente começa em 2d6 e aumenta à medida que os jogadores rolam 1 nos dados. Por causa da doom pool, d4 mais ajudam que atrapalham — e uma das formas dos jogadores ganharem plot points, a moeda de troca do jogo, é justamente colocando um d4 na sua pilha de dados. Isso cria situações nas quais os próprios jogadores pensam em como a responsabilidade do Homem-Aranha ou a fúria do Wolverine pode atrapalhá-los em uma ação. Qualquer rolagem de dados ganha um certo destaque — além de ser bem-sucedida ou não, ele pode tornar a ação mais dramática aumentando a doom pool. A qualquer momento, o Vigia pode gastar 2d12 da doom pool para encerrar uma cena do jeito que preferir. Isso é especialmente angustiante no evento Annihilation — encerrar uma cena com 2d12 da doom pool nesse evento normalmente significa explodir um planeta.

Milestones

Um dos elementos mais interessantes do MHRPG é a forma de ganhar XP, que acontece através de milestones (marcos, objetivos). Cada personagem tem duas listas de milestones e pode optar por trocar uma delas por uma das listas do evento. O Homem-Aranha ganha XP sempre que faz uma piada, por exemplo. Dessa forma, os jogadores são incentivados a interpretar seus personagens e/ou fazer grandes mudanças nos mesmos — a última fase das milestones é sempre uma escolha entre manter um padrão ou abandoná-lo (no exemplo do Homem-Aranha, ele ganha 10 XP se declarar uma ação séria demais para fazer piadas ou se desistir de ser o Homem-Aranha). O sistema enfatiza evolução lateral — os personagens não necessariamente ficam mais fortes, eles ficam diferentes (novamente, da mesma forma que acontece nos quadrinhos). Thor pode perder Mjolnir e passar a usar Jarnbjorn. Homem-Aranha pode encontrar um simbionte alienígena.

Os autores se preocupam em manter o sistema o mais próximo possível do universo Marvel. As fichas de personagem são chamadas datafiles, do mesmo jeito que são apresentadas nas diversas versões do Official Handbook to the Marvel Universe. Os poderes são avaliados em uma escala de Enhanced (d8), Superhuman (d10) e Godlike (d12), que também remete ao Official Handbook. Cada evento inclui uma lista de heróis relacionados ao mesmo para que os jogadores escolham entre eles. Existem versões diferentes de cada herói em cada evento.

Sem criação de personagens

Uma das características mais curiosas do MHRPG é a falta de regras claras para criar personagens. O sistema não prima pelo equilíbrio, permitindo que grupos incluam Viúva Negra e Thor, com níveis de poder vastamente diferentes, mas com a mesma capacidade de afetar a narrativa — da mesma forma que acontece nos quadrinhos. Existe uma forma de gerar datafiles aleatórios, lançada primeira no site da editora e incluído dos suplementos superiores; é um processo muito rápido e bastante divertido. Também é fácil usar os datafiles apresentados para gerar versões diferentes — o próprio livro básico mostra como converter o datafile de Steve Rogers (Capitão América) no de John Walker (Agente Americano).

Indisponível

Infelizmente, o jogo se encontra fora de linha. Renovar a licença com a Marvel se mostrou muito caro e a Margaret Weiss Publishing abandonou o jogo. Cópias do livro impresso ainda podem ser obtidas na Amazon e na Paizo, por exemplo, mas os pdfs já foram removidos do DriveThruRPG e não podem mais ser comprados. Alguns suplementos foram lançados — Civil War, Civil War: X-men, Civil War: Young Avengers & Runaways e Annihilation. O último é de longe o mais interessante, incluindo conjuntos de power sets para diversas civilizações e facções do universo cósmico da Marvel — infelizmente, ele só ficou disponível em pdf por muito pouco tempo, nunca foi impresso e é virtualmente impossível de ser adquirido atualmente.

Conclusão

Marvel Heroic Roleplaying é uma visão inovadora no gênero de RPG de super-heróis, se preocupando mais em criar histórias parecidas com o que encontramos nos quadrinhos do que com exatamente quantas toneladas o Hulk pode levantar. É recomendado para quem gosta do universo Marvel, para quem se interessa por jogos de narrativa compartilhada e especialmente para quem procura uma experiência nova de RPG.


Originally published at https://web.archive.org on September 23, 2014.

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Escritor, tradutor e revisor de RPG. Punk rocker. Bardo na Dragão Brasil. Bloga no RPG Notícias.

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