Sombras nas Ruas e na Cidade | RPG | Reflexão

Ou “como o uso de aspas altera a interpretação de uma cena”.

Os jogos derivados da Apocalypse World Engine têm aquela mecânica dos movimentos, lembra? Um movimento é uma ação que surge dentro da ficção e engatilha uma sequência de regras que, através de um teste ou não, devolve para a ficção um resultado.

Geralmente, é algo como “quando x coisa acontecer, faça y”.
Beleza. Legal. E daí?

No Ruas Urbanas, suplemento do RPG Sombras Urbanas, que será lançado em breve Aster Editora, há um capítulo que fala sobre Manhattan. Um dos grupos mencionados é o departamento de polícia. Ele é descrito como sendo uma força de defesa, mas também um inimigo para a cidade.

Preconceito, corrupção, assassinatos e tudo o que você tá cansado de ouvir da polícia aqui do RJ, a de Nova York também tem. Um movimentos da cidade é algo como “Mãos ao Alto”. A descrição, de forma resumida e sem os mecanismos do RPG em si é algo como:

… se você encontrar a polícia em uma rua da cidade e sua aparência for negra ou latina e você estiver fazendo algo “suspeito”, faça os testes xyz…

O teste em si não é relevante, mas, cê prestou atenção às aspas em “suspeito”?

Eu fiquei alguns bons minutos aqui lendo e relendo, ao mesmo tempo que vieram imagens na minha cabeça sobre coisas que eu (e muitas outras pessoas negras, em especial homens) passo no dia-a-dia.

Eu nunca sofri investida da polícia, não. Já tive a bolsa revistada em ônibus de viagem, com certeza, mas nunca fui parado ou algo do tipo. E eu sei que gente querida e conhecida minha já foi. E muitas vezes.

O ponto é que, ao colocar aspas em “suspeito”, e não explicar o que significa suspeito, o jogo deixa na mão das pessoas (o mestre do jogo e seus jogadores) a responsabilidade e abertura de criação de situações que ativem este movimento. O uso das aspas dá o sentido de estar fazendo algo que poderia ser considerado normal para qualquer pessoa (branca), mas é visto quase como um crime, se for feito por uma pessoa negra. Mais que isso: se não houvesse as aspas, deveria ser literalmente tratado como comportamento suspeito. Não é absurdo pensar que um comportamento suspeito desperte interesse de um policial (afinal, sua missão é servir e proteger).

Mas, com um recurso estilístico simples do uso de aspas, ele reforça que é definitivamente algo que parte de uma suspeita vinda de alguma coisa que escapa àquele comportamento. Justamente por destacar que a personagem seja negra ou latina, ele marca que estamos falando de preconceito (e não só disso, mas de morte mesmo; assassinato).

Cês conseguem imaginar a carga emocional que um movimento como esse consegue causar em pessoas? Em determinadas pessoas, aliás. Se eu fosse branco e tivesse um mínimo de consciência do racismo carregado e mostrado todos os dias nas ruas, eu teria muito cuidado de realizar um tipo de manobra com um gatilho tão pesado. Especialmente se a pessoa que tivesse jogando comigo fosse negra.

Sombras Urbanas é um jogo de intriga política sobrenatural e drama pessoal. Ele fala de guerras entre grupos mortais e sobrenaturais, mas também fala de como as cidades tratam esses grupos.

Há uma passagem no livro principal que fala algo sobre como certas ações podem causar efeitos narrativos (e emocionais) diferentes. Dá exemplo de um policial investigando e perseguindo um vampiro, mas fala como essa cena pode ter um tom completamente diferente se esse vampiro for negro.
Não só o tom, mas o efeito mesmo. São muitos afetos em jogo sendo tratados ao mesmo tempo.

Nem tudo do jogo precisa ter essa carga dramática e sem saídas fáceis que eu costumo falar, mas eu fico feliz que ele aborde essas coisas de forma aberta e limpa. O jogo faz um trabalho bonito em apresentar essas possibilidades e dar ferramentas ao mestre de cerimônias para tratá-las com o carinho e respeito e cuidado que merecem.

Você, que está lendo agora, consegue se lembrar de alguma outra passagem que fez uso de aspas para levantar um debate (ainda que subjetivo)?