Você precisa ouvir: Kevin Gilbert

“Letras de música são uma forma de literatura”

Até os 13 anos, Gilbert era um garoto introspectivo e vivia uma vida confortável ao lado dos pais, em Sacramento, na Califórnia, EUA. De repente, a centelha musical explodiu e o nerd, fã de rock progressivo, dormia cada vez menos e compunha cada vez mais toneladas de letras e riffs de teclado, buscando a maestria de seus ídolos, tais como Yes, Genesis, Rush e outros.

Não demorou para que, já adulto, sentisse o gosto do sucesso ao lado do amigo Chris Beveridge na banda Giraffe. Com 2 álbuns lançados, feitos de modo amador, mas com muito esmero, chamados “The Power of Suggestion” (1988) e “The View From Here” (1989), a banda caiu no gosto dos fãs do rock espacial/viajandão espalhados pelos EUA e outros países. Hoje os álbuns são considerados raros itens de colecionador.

Giraffe, primeira banda de Gilbert: influências pesadas de Gênesis e Pink Floyd

Mas a vida e a carreira de Gilbert mudariam com a presença de Patrick Leonard, produtor que o “descobriu” durante o festival Yamaha “Band Explosion”, em Tokyo, no início da década de 1990. Leonard, que até então tinha entre seus principais trabalhos a produção de hits como “Like a Prayer”, “La Isla Bonita”, “Cherish” — sim, grandes sucessos da Madonna — , convenceu o músico a abandonar a banda para, meses depois, dar vida a uma das minhas “bandas favoritas mais curtas de todos os tempos”: Toy Matinee.

Assim, ele, Leonard, o magnífico baixista Guy Pratt (ex-Pink Floyd), Tim Pierce e Bill Bottrell passaram 3 meses do ano de 1990 enfurnados nas salas de gravação do estúdio Reprise Records para dar vida ao álbum homônimo e a pérolas como “The Ballad of Jenny Ledge” (cuja história real cita uma ex-namorada de Gilbert, que o largou por um artista que ganhava a vida imitando Elvis Presley), “Things She Said”, “Last Plane Out” e tantas outras. O álbum é um primor! Pena que Leonard sumiu, levando consigo o moral da banda e a grana para manter o projeto vivo o suficiente para os primeiros shows.

Lutando para manter a banda viva, com trocas intermináveis de membros, shows em lugares duvidosos e tretas do show business, Gilbert finalmente abandonou a ideia e passou a se dedicar integralmente às suas composições. Em suas andanças, “esbarrou” em Sheryl Crow, desconhecida do grande público até então. Sheryl, que virou namorada, era excelente cantora e tecladista, ajudou a dar vida às melodias e harmonias que tiravam o sono do inquieto músico. A parceria, que contou com diversos amigos músicos de sessão da época, resultou em “The Tuesday Night Music Club”, graças a noites e noites regadas de muita bebida e drogas no estúdio de Bill Bottrell.

Tuesday Night Music Club: criatividade, traição, drogas e rock’n’roll

O álbum duo foi rejeitado por várias gravadoras. Mas a cantora tinha ainda uma carta na manga e levou as fitas para a A&M, que regravou tudo com sua voz e lançou a nova versão de TNMC em 1993, com a participação de Gilbert nas faixas “Run Baby Run”, “All By Myself” e “All I Wanna Do”, fora créditos de composição mencionados no encarte. Reza a lenda que Sheryl terminou o relacionamento com Gilbert e insinuou que só estava namorando com o músico por conta do seu talento e suas ideias, muitas delas usadas na versão final do disco.

Enquanto Sheryl seguia rumo ao estrelato, Kevin voltava a trabalhar em composições autorais, que se transformariam em Thud, seu trabalho mais introspectivo e sombrio, bem diferente das coisas impressas em Toy Matinee, porém adoráveis. O álbum é considerado por muitos fãs o trabalho preferido do artista.

Mas a veia progressiva ainda pulsava no corpo de Kevin, e ele não tirava a ideia de compor, gravar e executar um álbum conceitual, como “Lamb Lies Down On Broadway” do Genesis. Unindo-se a outro grande músico do rock conceitual e amigo Nick D’Virgilio, Kevin direcionou todas as suas energias para criar a rock ópera que exorcizasse todos seus demônios e decepções, para que assim, encontrasse a paz musical e espiritual que tanto almejava.

Infelizmente, Gilbert foi encontrado morto em 17 de maio de 1996, vítima de asfixia acidental, sem ver o resultado final de seu sonho. Após o falecimento, Jon Rubin e D’Virgílio trabalharam por anos no álbum, finalizado em 1999, e que recebeu o título de The Shaming Of The True. Lançado em 2000, o trabalho recebeu críticas elogiosas e ganhou um Grammy pelo acabamento de edição, cuja primeira, com tiragem de 1400, continha um livro lindíssimo de 40 páginas e capa dura. Nos anos seguintes, Thud e “The Shaming…” tiveram relançamentos.

Para saber mais sobre a carreira do artista, acesse www.kevingilbert.com, página com atualizações recentes sobre o universo musical criado por um dos grandes artistas perdidos da nossa geração.


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