A rejeitada e o plano de Deus

Vou contar para vocês uma história de amor. Havia um homem que encontrou uma linda mulher, e se apaixonou por ela de forma avassaladora. Eles se beijaram, mas não puderam ficar juntos. O pai da moça obrigou o homem a trabalhar por sete longos anos para ele, antes dos dois poderem ficar juntos. Não bastasse, após os sete anos, o rapaz teve que casar-se primeiro com a irmã mais velha da moça. Só após prometer trabalhar mais sete anos para o sogro que o homem pôde enfim se unir à sua amada. Desse amor, saiu um filho muito especial, que se tornou governante de uma nação poderosa.

Agora vou contar para vocês outra história. Havia uma moça que não era tão bonita, ou pelo menos não tanto quanto a irmã. Seu pai a obrigou a casar com alguém que amava a sua irmã. Dias depois de se casar, viu seu marido casar-se com sua irmã também. Ela lhe deu filhos, e filhos, e filhos. Muito mais que a irmã. Nenhum filho seu foi governador de nação poderosa. Mas o seu sangue era real, e isso eu explico mais à frente.

Jacó, Labão, Lia e Raquel

Quando ouvimos a história dos Patriarcas, nossa mente shakesperiana, moldada por novelas e romances, nos faz enxergar a história de Jacó de forma equivocada.

Jacó foi filho de Isaque, e neto de Abraão. Foi um homem que, como nós, não aguentou esperar a realização da vontade de Deus e assim tentou antecipar realizações e executar sua vontade: foi assim ao tomar para si a primogenitura de seu irmão; e foi assim na vida sentimental.

Existiam regras para os relacionamentos. Jacó apaixonou-se por Raquel, a filha mais nova de Labão. Raquel era bonita e atraente (Gênesis 29:17). A filha mais velha chamava-se Lia, que tinha olhos meigos (Gênesis 29:17). Vejam, Lia não era bonita, mas trazia no olhar meiguice.

Lia foi rejeitada. Foi usada por seu pai em ato de enganação com Jacó. Casou-se, mas foi desprezada por seu marido. E apenas sete dias depois, período de núpcias, Jacó casou-se com Raquel.

Quando o Senhor viu que Lia era desprezada, concedeu-lhe filhos; Raquel, porém, era estéril. Lia engravidou, deu à luz um filho, e deu-lhe o nome de Rúben, pois dizia: “O Senhor viu a minha infelicidade. Agora, certamente o meu marido me amará”. Lia engravidou de novo e, quando deu à luz outro filho, disse: “Porque o Senhor ouviu que sou desprezada, deu-me também este”. Pelo que o chamou Simeão. De novo engravidou e, quando deu à luz mais um filho, disse: “Agora, finalmente, meu marido se apegará a mim, porque já lhe dei três filhos”. Por isso deu-lhe o nome de Levi. Engravidou ainda outra vez e, quando deu à luz mais outro filho, disse: “Desta vez louvarei ao SENHOR”. Assim deu-lhe o nome de Judá. Então parou de ter filhos.
Gênesis 29:31–35

O último nome dos filhos citados neste trechos é importante, e já já falo dele.

A sequência da história mostra outra característica de Raquel:

Quando Raquel viu que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã. Por isso disse a Jacó: “Dê-me filhos ou morrerei! “
Jacó ficou irritado e disse: “Por acaso estou no lugar de Deus, que a impediu de ter filhos? “
Então ela respondeu: “Aqui está Bila, minha serva. Deite-se com ela, para que tenha filhos em meu lugar e por meio dela eu também possa formar família”.
Gênesis 30:1–3

Raquel pecou. Pecou ao sentir inveja, e pecou ao adiantar-se, e colocar-se sobre a vontade de Deus.E só foi ter um filho, José, quando clamou a Deus. A história de José é linda e admirável. De José vieram as tribos Efraim e Manassés em Israel, mas não veio delas o mais importante*.

Vamos voltar a falar da rejeitada. Lia deu a luz a Judá, filho de Jacó. E vejam esses dois trechos da genealogia de Yeshua (versos 1 a 3, e 15 a 16)

Registro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão:
Abraão gerou Isaque; Isaque gerou Jacó; Jacó gerou Judá e seus irmãos;
Judá gerou Perez (…); Eleazar gerou Matã; Matã gerou Jacó;
e Jacó gerou José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo.

Mateus 1:1–3,15–16

O Filho de Deus, Cordeiro Santo, Rei dos Reis, Príncipe da Paz, veio da rejeitada.

Certamente Lia era o plano de Deus para Jacó. E esse lado da história, sem as vendas noveleiras que temos, nos aponta para que a Soberania de Deus se faz prevalecer independente de todas as coisas. Se Jacó não se precipitasse, se ouvisse a orientação de Adonai, provavelmente não só ele e Raquel, mas principalmente Lia teriam sofrido menos. Quando o Senhor viu que Lia era desprezada, concedeu-lhe filhos. O desprezo dói, o desprezo de quem se ama ainda mais. E certamente Lia amava Jacó, tanto que em sua alegria com os filhos dizia “certamente meu marido me amará” e lamentou com a irmã o fato dela ter lhe “roubado o marido”.

O Plano de Deus é perfeito, para a humanidade e para cada um. Os filhos de Jacó, tribos de Israel, tem-se não só Judá, mas também a tribo de Levi, os sacerdotes. De Lia vem uma linhagem muito importante para Deus.

É preciso em nós entender que ouvir o falar do Senhor gera frutos eternos. Compreender e seguir o mandamento de Deus significa paz. E é necessário ir além dos nossos olhos. A palavra não fala de nenhum traço de caráter positivo de Raquel para que Jacó por ela enamorasse, somente que era “bonita”. Por outro lado, Lia era meiga e transparecia nos olhos dela isso.

O erro de Jacó ao seguir o próprio coração causou-lhe sofrimento, pressão, e tristeza ao coração de suas esposas, em especial Lia. Contudo, Lia foi sepultada junto a Abraão e Isaque, e foi junto dela que no fim Jacó pediu para ser sepultado:

A seguir, Jacó deu-lhes estas instruções: “Estou para ser reunido aos meus antepassados. Sepultem-me junto aos meus pais na caverna do campo de Efrom, o hitita, na caverna do campo de Macpela, perto de Manre, em Canaã, campo que Abraão comprou de Efrom, o hitita, como propriedade para sepultura. Ali foram sepultados Abraão e Sara, sua mulher, e Isaque e Rebeca, sua mulher; ali também sepultei Lia.
Gênesis 49:29,31

Que as vendas dos nossos olhos caiam diante da palavra do Senhor; que nosso coração não seja o guia da nossa vida; e que saibamos reconhecer a “Lia” que existe em cada circunstância da nossa existência, para que os frutos gerados sejam bons e para que o Pai se alegre em nós.

Non nobis, Domine, sed nomini tuo da gloriam.

Na paz,

Fellipe Fraga.

*Edit: A história não encerra-se em José. Efraim e Manassés dão sequência como tribos de Israel.