Resenha: A Experiência de Deus hoje — Sidney Sanches

Por Diogo Santana


Diogo Santana é mestrando em filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), membro do Núcleo de Estudos em Cristianismos Orientais (NECO/ UERJ) e se dedica ao estudo da obra do filósofo e teólogo dinamarquês Soren Kierkegaard. Email: diogosantana45@yahoo.com.br.


SANCHES, Sidney. A experiência de Deus hoje. Campinas: Editora Saber Criativo, 2018.

Para adquirir ou saber mais sobre a obra, acesse:www.editorasabercriativo.com.br.

A modernidade se destaca por seu anseio inocentemente otimista à velocidade. “Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade”. Afirma o poeta italiano Filippo Tommaso em 1909 em seu Manifesto do Futurismo. Entretanto, às custas de sua sobrevivência, e não apenas por uma escolha pessoalmente decidida, uma multidão anônima de homens, mulheres e crianças é convocada a construir esse novo mundo com suas próprias mãos e sangue nas fábricas. O filme alemão Metrópoles de 1927 (dirigido por Fritz Lang e roteiro escrito por Thea Von Harbou) é preciso ao indicar como o anseio otimista pela velocidade gera, para alguns, a expectativa de uma sociedade perfeita enquanto que, entre a grande multidão anônima, a utopia é transformada em tristeza, cansaço e profunda revolta através da abolição de um mundo estável e garantido pela tradição, costume e verdades eternas e sagradas. A máquina se transforma em Moloch — uma cena que impressiona no filme — exigindo permanentemente sacrifício humano: suas forças, seu tempo, sua vida.

Entretanto, para os homens tristes, presos contra a vontade à turbulenta experiência da velocidade, tal processo de violência que nos arrasta apenas institui novos deuses para serem venerados, deixando antes o sentimento de algo perdido e que não pode ser recuperado. Para estes, a realidade se impõe muito mais dura, triste e ausente de perspectiva. Persistir em tal entusiasmo, na defesa da velocidade como condutora de um progresso que, no fim, tornou a modernidade “líquida” (um termo caro a Zygmunt Bauman), legitimou uma racionalidade cínica que insiste em permanecer, mesmo diante do fracasso de seu projeto inicial de instituição de um homem “esclarecido”. É preciso uma crítica da razão cínica (como defende o filósofo alemão Peter Sloterdjik).

Sendo assim, a impressão em nós marcada por um tempo onde os absolutos parecem cair, pode sugerir apenas a sedução de uma sofística que, lentamente, vai perdendo seu prestígio e, contra ela, entre gente cansada, privada de fôlego e forças diante da máquina, a experiência do transcendente é retomado a partir de uma nova configuração: a do nosso tempo. É o ponto de partida de Sidney Sanches em A Experiência de Deus Hoje (Ed. Saber Criativo. 2018. 112 pp.).

O ensaio de Sanches já anuncia seu propósito com uma afirmação, conscientemente complexa e por isso mesmo provisória e incompleta, porém convicta de que em nosso tempo da velocidade, Deus é experenciável, e não apenas reduzido a uma experiência do passado recuperada hoje como objeto das ciências comprometidas com a investigação do fenômeno religioso. O eixo pelo qual desenvolve seu pensamento atravessa a preocupação do significado que consiste em definir o nosso tempo, o nosso conceito de experiência, a nossa espiritualidade e, por fim, a nossa espiritualidade especificamente cristã.

Definir o nosso tempo, este mesmo que se projetou de uma racionalidade iluminada e autônoma, e que hoje endossa a impermanência de nossas certezas, compromete o interesse em reconhecer o terreno onde estamos nos movendo no tempo. Estamos caminhando no escuro, onde a compreensão e a linguagem se tornaram insuficientes para interpretar a realidade e “o sentimento é que há muito mais a ser dito do que a razão moderna consegue fazê-lo” (SANCHES, 2018. p. 30). Uma carência que nos parece conduzir ao desespero e que, para Sanches, ao evocar Camus, pode estabelecer de igual modo as possibilidades de uma outra dinâmica para a racionalidade:

A primeira coisa é não desesperar. Não prestemos ouvidos demasiadamente àqueles que gritam, anunciando o fim do mundo. As civilizações não morrem assim tão facilmente; e mesmo que o mundo estivesse a ponto de vir abaixo, isso só ocorreria depois de ruírem outros. É bem verdade que vivemos numa época trágica. Contudo, muita gente confunde o trágico com o desespero. (CAMUS, Albert. apud SANCHES, Sidney. 2018. p. 14).

Definir a experiência do nosso tempo, significa por sua vez, justificar uma unidade que não separa a vida em categorias abstratas como corpo e alma, físico e metafísico, espírito e matéria. Justifica uma intenção de legitimidade e que, por isso mesmo, substitui o especulativo e o abstrato pelo pragmático. Valoriza a experiência sensível e imediata como critério que aproxima a vida e a cultura como produção estética, rompendo assim com modelos historicamente determinados e homogêneos não apenas na percepção do tempo e do espaço, como também de uma dada experiência do sagrado.

A experiência de nossa espiritualidade hoje se compromete a possuir e a desfrutar de Deus (SANCHES, 2018. p. 29) do que propriamente reduzi-Lo a uma abstração silogística. Primeiro porque ela se torna experiência humana de Deus, na maneira como o sagrado é percebido e interpretado por nós. Segundo porque essa experiência não está dissociada da vida que temos aqui e agora e que exige respostas cada vez mais imediatas. Terceiro porque ela implica o rompimento com um antigo paradigma e exige um paradigma novo para se pensar, não apenas as organizações humanas, mas de forma pertinente, a maneira como um grupo específico delas atualmente garante sua manutenção e permanência no corpo social — as associações religiosas.

A experiência de Deus em nossa espiritualidade cristã hoje, é justificada por Sanches como uma drástica mudança de paradigmas envolvendo a descentralização de uma autoridade hierarquicamente determinada pela tradição (o sacerdote, o pastor), substituída pelo critério de comunhão e fraternidade endossada pela narrativa evangélica e seu valor ético do seguimento de Jesus. Nesse aspecto, a instabilidade dos nossos tempos, ao favorecer o rompimento com uma forma de espiritualidade engessada e centralizadora, se abre para a oportunidade da pluralidade e tolerância, onde “todos os seres humanos, estão potencialmente incluídos nesta fraternidade de redenção” (SANCHES, 2018. p. 90).

A vida nos é garantida pela poesia, o sensível discernimento do coração apaixonado, que tanto venda nossos olhos, quanto aumenta nosso grito. A fé, como a maior de nossas paixões, também constitui o clamor que torna inaudível todas as demais ansiedades humanas, da inquietação profunda pela eternidade e retorno à unidade: com Deus, com os outros, com Deus nos outros, com Deus em nós. Em fraternidade e solidariedade, sem distinção. O livro de Sidney Sanches se compromete a inspirar os líderes cristãos de nosso tempo a aceitarem as transformações pelas quais a identidade cristã está atravessando como oportunidade não apenas de garantia de certa perpetuidade, como também, legitimação de uma identidade cristã comprometidamente evangélica.

BIBLIOGRAFIA

BAUMAN. Zygmunt. Modernidade Líquida. Ed. Zahar. 2011.

CHUL HAN. Byung. Sociedade do Cansaço. Ed. Vozes. 2015.

LANG. Fritz. Metrópolis. 1927. Disponível em: https://comaarte.files.wordpress.com/2013/06/manifesto-do-futurismo.pdf. Acesso em 15/05/ 2019.

MARINETTI. Felippo Tommaso. Manifesto do Futurismo.

NIETZSCHE. Friedrich. Assim Falou Zaratustra. Ed. Companhia das Letras. 2011.

SANCHES. Sidney. A Experiência de Deus Hoje. Ed. Saber Criativo. 2018.

SLOTERDIJKI. Peter. Crítica da Razão Cínica. Ed. Estação Liberdade. 2011.

Diogo Santana é mestrando em filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), membro do Núcleo de Estudos em Cristianismos Orientais (NECO/ UERJ) e se dedica ao estudo da obra do filósofo e teólogo dinamarquês Soren Kierkegaard. Email: diogosantana45@yahoo.com.br

Editora Saber Criativo

Uma editora que publica conteúdo teológico criado por pensadores brasileiros e latino-americanos.

Regina Fernandes Sanches

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