Quando eu era criança ganhei do meu pai um livro do Ziraldo com frases do Menino Maluquinho. Uma das frases me marcou de tal forma que eu nunca esqueci: “Minha casa é o paraíso quando tem maçã na geladeira.” Na minha mente infantil, que não entendia muito mais coisa do que não entendo hoje, essa frase soava engraçada, mas em alguma medida, incompreensível.
A geladeira que tenho hoje, não é mais a geladeira da minha infância, aquela azul, baixa e com um pequeno freezer interno. É uma geladeira comprada a pouco mais de um ano, branca, com o freezer separado na parte de cima e uma porta simples. Essa é uma geladeira que escolhi o modelo — o qual fiz questão que não tivesse muitas divisórias, porque o que o fabricante chama de “praticidade” eu chamo de “consumo de espaço” — e que escolho o que vai dentro dela. Dentro dela eu guardo o saco de pão integral, por medo de mofar no calor que nos envolve o ano inteiro; guardo as compras semanais de frutas, legumes e verduras feitas na feira; guardo o iogurte, muitas vezes caseiro, que umedece a aveia matinal. E como não sou uma pessoa de uma única faceta, esta geladeira também guarda a pizza em dobro da promoção de terça-feira. A parte mais fria, está reservada para as comidas do bebê. As prateleiras acomodam as vasilhas daquilo que guardei para não dizer que joguei fora e daquilo que guardei na expectativa de experimentar de novo. É claro que tem aqueles cantos mais obscuros que guardam conteúdos intocados há muito tempo. Esses, de vez em quando, recebem um olhar furtivo, com a duração de um instante, e depois são entregues mais uma vez ao esquecimento — se eu não mexer, jamais se confirmará o estado de degradação e, portanto, não haverá com o que me preocupar. A parte do freezer trabalha em dois compartimentos com modos distintos: o modo rotativo, de produtos que estão constantemente saindo e dando lugar a outros; e o modo hibernação, de produtos que simplesmente chegaram e não saíram mais e permanecem em estado latente esperando pela primavera.
Não é necessário ficar em frente a geladeira com a porta aberta por muito tempo para perceber que o conteúdo que ela abriga é a revelação de mim mesma e da maneira como cuido da minha família. As escolhas, os gostos, o que foi formado em mim e o que apareceu de novo, está tudo lá na ocupação dos espaços, nas fatias de presunto, no pedaço de queijo, no saco de goiabas. Pode parecer drástico dizer que minha identidade também está na trivialidade do conteúdo de um eletrodoméstico. Mas a ideia de um estranho abrindo a minha geladeira me dá arrepios da mesma forma que um estranho abrindo meu guarda-roupa, ou olhando as mensagens no meu celular. Tudo isso são partes de mim, da minha intimidade. Por que a geladeira diz respeito a comida, algo intrinsecamente social, seria diferente? De maneira nenhuma. A comida somente é um bom socializador porque revela o interior de cada um — relacionamentos verdadeiros acontecem quando o indivíduo se apresenta por inteiro.
Ao pensar que eu nunca tive uma geladeira só para mim me dou conta de que sou uma pessoa bem-aventurada. Sempre tive com quem compartilhar minhas verdades frias, minhas manias doces, meus jeitos salgados e os humores descartáveis. Nem sempre é bom estar limitada à prateleira do meio porque a de cima e a de baixo já tem dono nem descobrir que acabou o espaço para a marmita porque alguém guardou um bolo de aniversário mais três garrafas de refrigerante. Mas pior seria ter espaços demais, com temperatura baixa demais porque falta o que resfriar.
Terá a minha geladeira capacidade de se tornar como coração de mãe para abrigar tudo e todos? Prefiro acreditar que sim. Ela ainda é jovem, tem o que aprender e o que expandir. Ao longo da caminhada, basta que ela tenha ovos. Então, para mim, minha casa será o paraíso.


