Onde vivem as bestas que te habitam?

Em que partes do seu corpo estão as suas bestas?

De onde elas te contam, à beira da janela do andar mais alto, que a decisão de pular ou não pular é sua? Repetem à exaustão que a tragédia é inevitável e está sempre a um passo de distância.

De onde ecoam essas vozes que tomam tudo o que é seu como desimportante? Te proíbem da vivência de si mesma, de tatear suas bordas, do direito ao auto-reconhecimento. O eterno engano que reveste camadas e camadas de um tecido que te cobre sem te pertencer.

De onde vêm as mãos que te afogam nas coisas que nunca são ditas? E os cochichos que te convencem que a melancolia que te arrasta é apenas um tédio ordinário e que seus buracos são todos rasos?

Qual parte ocupa o seu supremo senso de insignificância? A convicção que te acorda no meio de todas as noites de que você nunca será suficiente e que suas promessas não serão cumpridas.

Em que órgão mais te pesa a sensação de que seus espaços não vão ser preenchidos? De que a falta de sentido é uma latência contra a qual não há justiça a ser feita; todas as suas certezas são castelos de ar e a ordem não linear da existência será sempre soberana às suas frágeis consistências.

Onde se escondem as crenças que deveriam te proteger de se demorar em histórias que você não quer viver? Que te prometem que é impossível amar sem se perder.

Onde moram as verdades que parecem inventadas, que te lembram, com sofisticação nos detalhes, das coisas que você odeia em si mesma? De onde sussurram que sua busca é esmagada pela inveja mesquinha de quem sabe que nunca será capaz de ser o outro?

De onde vêm todas essas vozes inapropriadas, mas irresistíveis, como uma ferida cuja casca pede para ser arrancada lentamente?

Onde estão as suas bestas?

Vai pelo escuro que o escuro não tem sombra.