A limitação a favor da criação

Gustavo Greco discute as vantagens de briefings desafiadores e recursos limitados para o desenvolvimento de um bom projeto

Uma pergunta que aparece em todas as entrevistas que me fazem é: por que você não se muda daqui? Às vezes ela aparece travestida em: “Como você se sente sendo fora do eixo?”.

Minha resposta já é automática: não quero mudar daqui e sim mudar o aqui. Fazer do mercado um lugar ainda melhor. Além disso, o mundo hoje é pequeno. Podemos fazer trabalhos para qualquer lugar sem ter que estar neste lugar.

E, pensando nisso, me veio à mente uma imagem que usei em uma das minhas aulas no Saibalá: a lata de sardinha. Fazer um prato com filé mignon é 50% da garantia de um bom prato. Mas com sardinha de lata fica mais difícil. E assim me vejo diariamente, diante de clientes famintos por um menu degustação e apenas com a tal sardinha como insumo.

Eu sei, o mercado mudou muito desde que comecei, há 15 anos. As pessoas começaram a enxergar a importância do design como estratégia. Temos tido mais espaço e estamos sendo chamados mais cedo para as conversas, participando da concepção do projeto e não somente de sua solução formal.

Mas, infelizmente, ainda lidamos com uma falta de valorização dos projetos de criação, vistos, muitas vezes, como algo caro, sem se levar em conta o retorno que eles trarão para a empresa. E, quando digo retorno, não estou me referindo apenas à imagem da marca e, sim, ao retorno financeiro mesmo.

A criatividade, como matéria-prima, é um recurso inesgotável e se consolida como de grande relevância para o desenvolvimento da economia. O design deve sair de um lugar de relevância puramente estética e passar a ter um caráter estratégico.

O design, ao apelar para os sentidos, deixa evidentes as diferenças entre as marcas e materializa o seu propósito. Esse ofício torna-se um exercício cotidiano e contínuo de compartilhamento, renovação e ressignificação por meio de projetos com conteúdo que utilizam a informação como principal insumo. O design vem, assim, se consolidando como uma disciplina capaz de projetar um futuro melhor — e para todos.

E, voltando à sardinha, acho que temos duas opções: uma é passar a vida reclamando de como tudo à sua volta poderia ser melhor e outra é tentar fazer o melhor prato com o menos que tivermos. Eu tentei e, garanto, o prato de sardinha, quando é bom, é muito melhor que o do filé. Porque encontraremos nele dois ingredientes que não podem faltar em nenhum projeto de criação: ousadia e uma nova experiência como resultado.


Gustavo Greco é professor do curso online de Identidade Visual: construção e expressão da imagem de uma marca, desenvolvido em parceria com a Saibalá.

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