Futebol | E segue a marcha fúnebre…

Imagine a seguinte situação: Um país qualquer tem, em números totais, o maior número de mortes relacionados a um esporte no mundo, sendo esse esporte o número um neste mesmo país. Imagine que a frequência de incidências relacionadas a brigas neste esporte siga altíssima, com uma taxa de praticamente um grande evento por mês. Agora, o bizarro: imagine que isso é considerado normal pelas pessoas deste país, e mais ainda, pelos mandatários desse país. Esse é o retrato do que é a violência no futebol hoje no Brasil: um caos completo, certeza de impunidade e a conivência dos clubes.

A morte de Davi Rocha Lopes, 27 anos, morto após confronto entre a polícia e a torcida do Vasco, vai ser apenas mais uma e infelizmente, não será a última. Mas será, seguramente, muito debatido em mesas redondas e afins durante toda a semana. Com os responsáveis fazendo o clássico jogo de empurra entre o Ministério Público, clubes e Polícia Militar. Após alguns dias, o caso é esquecido, os vândalos seguem suas vidas e os mortos se tornam apenas mais um número em um gráfico jogado num canto na mesa da PM. A impunidade dos culpados é quase certa, ou as prisões são de curta duração, por “falta de provas”.

Seja em São Januário, seja no Serra Dourada (como foi a poucos dias atrás, numa violenta briga entre torcedores do Goiás e do Vila Nova) ou seja nas estações de metrô próximas do estádio, como costuma ocorrer no estado de São Paulo, as brigas relacionadas ao futebol seguem costume no Brasil. O perigoso é estar se tornando não revoltante. Ouvi de um amigo meu, que também acompanha futebol, a seguinte frase: “Ah, mas em São Januário sempre acontece esse tipo de coisa, tem que estar esperto!”. É assustador que um fato tão brutal como uma guerra campal em volta de 22 pessoas correndo atrás de uma bola seja considerado algo corriqueiro, quase banal. Os gatos-mestres do jornalismo esportivo continuam com o discurso de “Inadimissível! Vergonhoso!” sem apontar a real causa do problema: temos uma cultura violenta, que preza e estimula esse tipo de situação, com uma conivência absurda dos clubes (que muitas vezes financiam esses grupos) e uma falta de educação crônica dentre os torcedores. Enquanto o número de vítimas segue aumentando, os clubes lavam as mãos, sempre se posicionando como vitimas da situação.

Em muitos casos, os clubes são vítimas, mas em outros tantos, o envolvimento da diretoria do clube com as organizadas é tão grande que se torna algo quase simbiótico. O próprio caso de São Januário levanta essa dúvida: Como torcedores entraram em São Januário com bombas? Além de erros da própria polícia, a PM também sugeriu que as bombas já estavam no estádio, com o conhecimento de funcionários do clube. Os clubes tem uma grande parcela de culpa, ao não fazer absolutamente nada para resolver o problema. Como disse João Fiorentini,ex-comandante da GEPE do RJ: “Uma coisa é certa: estamos dialogando com as torcidas organizadas, mas, enquanto os clubes não comprarem essa briga, fica difícil…”

E qual é a solução? Não existe uma solução da noite para o dia. A solução é longa, difícil e custosa. O modelo atual, de isolar organizadas, fazer jogos com torcida única (como em SP) e montar verdadeiras operações de guerra para a segurança não parece surtir efeito. A atmosfera de praça de guerra, comum em vários dos clássicos regionais, ajuda a estimular a violência dentre os torcedores, com a certeza da impunidade sendo um combustível extra. O caminho comumente apontado como o mais “lógico” a seguir é o modelo inglês, impulsionado por grandes avanços para conter o hooliganismo no país. O sempre citado Relatório Taylor, após a tragédia de 1989 quando 96 torcedores morreram pisoteados e esmagados contra grades de proteção devido ao excesso de público na partida entre Liverpool e Nottingham Forest, pela semifinal da Copa da Inglaterra, é um dos maiores exemplos de aplicação bem feitas e estudadas contra a violência nos estádios. De acordo com o estudo, o maior problema nesses casos é o despreparo, desorganização.

Sem uma estrutura adequada, é muito mais difícil de coibir ações criminosas em estádios, normalmente resultando em situações como a ocorrida em São Januário. Portanto, o que foi feito na Inglaterra foi o treinamento de uma polícia especializada em situações relacionadas a estádios, com maior preparo para qualquer tipo de problema. Além disso, um controle muito maior de quem entrava e saía dos estádios, impedindo a entrada de hooligans conhecidos pela polícia, banindo-os dos estádios. Também houveram mudanças nas estruturas das arenas, como o fim dos alambrados, a obrigatoriedade de não haverem lugares para pessoas de pé e a proibição da venda de bebidas álcoolicas dentro dos estádios. Isso foi uma medida tomada a longo prazo, mas que se mostrou bastante efetiva pois a diminuição da violência nos estádios foi muito grande.

Enquanto isso, no Brasil, seguimos com a programação normal. A briga de sábado ainda é notícia, mas tantas outras? Jogamos para baixo do gramado e tudo foi “esquecido”. Estamos nos especializando em não apenas contar pontos, mas também de contar mortos no futebol. Tornou-se algo comum em finais de semana com bola rolando. E quem são os culpados? Somos todos nós.

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